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Até Que Percebam Que Estamos Nisto Juntos

Eu ia para escrever uma coisa completamente diferente. Ia escrever sobre uma semana em que foi particularmente difícil estar em paz com o mundo, uma semana em que todos os dias se lia uma nova notícia, um novo caso de violência estúpida e gratuita, contra mulheres mas também contra homens, enquanto o resto do país se distraía com o Rock in Rio.

Mas depois li algo que, sendo verdade, me soa sempre a “holier than thou”, à atitude de quem diz “o meu deus é mais sagrado que o teu”. E isso, que normalmente é coisa a que passo ao lado, tem dias que me irrita. Tem fases em que me amofina mais isto do “eu é que sei, eu é que sofro, não sabes nada, és um palerma se achas que sabes, que nunca vais saber o que isto é”.

É verdade, ninguém vive nos sapatos de ninguém. Curiosamente, se algum activista decidir passar 24h dentro de um aviário para frangos ou fazer o Lisboa-Porto dentro de um camião de transporte de porcos, para ver em primeira mão como é, para chamar a atenção das pessoas para isso, toda a gente aplaude. Parece que há um fulano algures que decidiu vestir-se de mulher para ver como era, e uma das reacções que suscitou foi o clássico “os homens nunca saberão o que é ser uma mulher”. Pois não. Também não saberão o que é ser um golfinho, ou uma gazela, ou uma carocha. Também não saberão o que é ser outro homem. E, de caminho, diga-se isto: as mulheres também nunca saberão o que é ser homem.

Eu percebo que as pessoas sofram. Respeito o seu sofrimento, respeito o esforço de toda a gente. O que eu não gosto é de uma atitude que parte do princípio que eu sou um privilegiado, e os outros, que apontam o dedo, não são. Acho curioso como é que numa sociedade europeia do século XXI alguém com a mesma matriz cultural que eu acha que tem direito a sentir-se mais perto do sofrimento das mulheres mutiladas nos países islâmicos. Podem ter razão, mas tenham paciência, isso para mim faz tanto sentido como uma mulher que mora em Loures dizer a um homem que mora no Cacém que “ele não percebe nada de cultura russa, ela é que percebe, porque mora muito mais perto”.

Eu nunca saberei o que é ser mulher. Mas quem me olha na cara e me diz isto normalmente também não sabe o que é ter de andar de burka ou ser casada à força. No entanto, são temas de que parecem, ouvindo-as, saber muito mais que eu; mais, se eu quiser falar sobre eles, fico com a impressão que me mandariam calar, porque eu não só não sei, como aparentemente não posso saber nada sobre o assunto, porque não sou mulher, como se isso é que fizesse toda a diferença.

O facto é que ninguém sabe nunca como é ser o outro.

Quem é magro não sabe o que é ser gordo, nem ser gozado por isso, enxovalhado, achincalhado, posto de lado. Não sabe o que é ver os outros todos da turma a ter namoradas, e namorados, e a jogar nas equipas de futebol e de volley e o diabo a sete, e a usarem roupas giras que não nos servem, e a fazerem-nos sentir como uma porcaria. Digam-me lá outra vez que um rapaz gordo não percebe aquilo por que uma rapariga gorda passa. Digam lá, senhoras que nunca pesaram mais de 60 kg, digam lá outra vez que vocês é que sabem pelo que elas passam, e um rapaz gordo não sabe.

Da mesma maneira quem é rico não sabe o que é ser pobre e olhar para o bolo que o outro compra no bar da escola sabendo que não o podemos comer. Não sabe o que é ter de dar uma desculpa esfarrapada para não ir ao jantar dos colegas de trabalho porque não se tem dinheiro para o pagar. E há mais diferença entre um homem pobre e uma mulher pobre do que entre a mulher pobre e a mulher rica que fica triste porque os sapatos Jimmy Choo que ela queria esgotaram?

Querem que os homens vos deixem de ver como estereótipos? Tenho notícias para vos dar: há muitos homens que não vos vêem assim. Ou, pelo menos, não vos vêem assim enquanto vocês não embarcam no “vocês homens são todos iguais” ou noutro do género; a maneira mais fácil de sermos vistos como um estereótipo qualquer é comportarmo-nos como um.

Há problemas sérios por resolver? Há. Mas há sobretudo uma grande falta de soluções credíveis, e não vejo ninguém a apresentá-las. No local de trabalho, por exemplo. Ouço muitas queixas de que os homens se favorecem uns aos outros, que se tornam amiguinhos, que fazem panelinha a favor uns dos outros. O que eu não vejo é as mulheres a fazer o mesmo; pelo contrário, vejo inimizades, vejo ciúmes, vejo dizer mal das outras, em vez de ver cumplicidade e o abraçar de uma causa comum. Trabalhei com mulheres toda a minha vida, trabalhei para mulheres durante anos a fio, e acreditem que ouvi a frase “a puta da minha chefe” e “a cabra da minha colega” muito mais vezes da boca de mulheres que da boca de homens.

Se querem começar a resolver os problemas da igualdade no trabalho e na vida, comecem pelos sítios mais simples. Por exemplo, pelo horário de trabalho. Que se torne obrigatório o cumprimento do horário, que acabem as horas extraordinárias, pagas ou não, e que toda a gente seja obrigada a ir para casa a horas certas. Querem produtividade, trabalhem as oito horas regulamentares. Assim não ficam homens a trabalhar enquanto as mulheres têm de sair para ir às compras, buscar os filhos à escola, fazer o jantar. Parece pouco, mas mudaria imenso. Acreditem que é essa uma das principais diferenças entre Portugal e o resto da Europa.

Querem outra mudança? Licença de parentalidade igual para os dois, pai e mãe, obrigatória, sem excepções. Se a mulher tiver que pedir baixa por gravidez de risco, o homem tem de ser obrigado a ir de licença igual – aliás, se ela vai para casa porque não convém ir para o trabalho, fica lá sozinha? De pé o dia inteiro? Ou faz sentido é que lá esteja o homem a ajudá-la? Que é que se ganha com isto? As empresas que não contratam mulheres com medo que engravidem deixam de ter esse argumento e esse receio, uma vez que as ausências passam a ser iguais para mulheres e para homens. Podem é começar a só contratar solteiros, ou solitários, ou estéreis, mas pelo menos reduz-se a discriminação por via do género.

Curiosamente nunca vi estas ideias na sociedade civil, muito menos propostas por mulheres.

O que vejo, e muito, é a tentativa de meter os homens todos no mesmo saco, e, recentemente, esta ideia peregrina de que não percebemos, nem conseguiremos nunca perceber, os problemas das mulheres, porque nunca saberemos o que é ser mulher. Por outras palavras, lá porque tenho barba e um caralho, não compreendo o mundo, não sei nada disto, sou mais uma merda de um privilegiado.

Um homem que tente perceber o que uma mulher sente, que se tente pôr no lugar dela, é ridicularizado, chamam-lhe tudo, porque, afinal, ele nunca vai conseguir perceber merda nenhuma, porque é uma besta.

A diferença é que as mulheres têm sempre qualquer coisa para onde mandar as culpas, se acharmos que as mulheres são todas iguais. Ele é o machismo, ele é a sociedade patriarcal, ele é os estereótipos das magras e das giras e das roupas que não lhes servem.

Um gaijo não tem nada para culpar: aguenta-se à bronca e é se quer. É gordo, é careca, é baixo, gozam com ele, ele amocha. Tem de aturar a namorada a olhar para os gaijos pintas a passar na rua, e a derreter-se pelos gaijos da televisão, e aguenta-se e é se quer, se se queixar passa por inseguro, ainda gozam com ele.

Um homem não sabe o que é ser inseguro? O caralho é que não sabe. Um gaijo tem medo, desde pequeno, quando tem de ir a pé para a escola e passar no bairro dos ciganos. Se fosse menina iam levá-lo à escola, mas ele é um homem, não pode ter medo, e acaba acagaçado todos os dias, a ser assaltado e sovado, porque é gordo e nem sequer consegue correr mais que eles.

Um homem não tem medo do escuro, excepto quando vive num sítio onde o assaltam duas vezes à porta de casa com uma pistola apontada para lhe gamarem a merda do telemóvel e uns trocos.

Sim, os homens são menos violados. Sim, os homens são menos atacados na rua. Sim, os homens são menos assediados pelos trolhas das obras.

São problemas sérios, problemas culturais, problemas dos fracos que são vergados à vontade dos fortes. Digam aos homens que vivem em países em guerra civil que eles não sabem o que é isso de ser vergado à vontade dos fortes. Digam ao homem que é preso por ter roubado um pão para dar aos filhos e é metido numa cadeia com violadores e assassinos, digam-lhe que ele não sabe o que é ter medo, que não sabe o que é ser violado, que não sabe o que é o terror. Digam aos meninos que são abusados pelos pais, pelos padrastos, pelos vizinhos, pelos professores, pelos padres. Digam-lhes isso.

Mas não me venham cá com merdas de “vocês não sabem o que isto é”. Ninguém sabem o “que isto é” para o outro. Somos diferentes e passamos por coisas diferentes. Tentamos pôr-nos no lugar dos outros, tentamos entender, tentamos compreender, tentamos fazer o que pudermos para uma sociedade melhor, especialmente dando o exemplo às novas gerações.

Ficamos fodidos quando nos dizem que não podemos tentar perceber. Que não nos podemos tentar imaginar no lugar do outro. Que quando o tentamos fazer, para tentar encontrar soluções, que somos ridículos. Sim, nós sabemos que as mulheres quando se queixam das coisas não é para lhes darem soluções, é só para lhes darem empatia. Temos pena de vocês não entenderem que preferimos entender as coisas para as resolver do que para chorar juntos por elas. Temos pena de haver ainda quem não perceba que são tão sexistas os homens que tratam as mulheres como mulheres antes de as tratar como pessoas como as mulheres que fazem o mesmo aos homens. Temos pena. Se calhar, não entendemos mesmo nada desta merda.

15 thoughts on “Até Que Percebam Que Estamos Nisto Juntos

  1. 02/06/2014 at 08:59

    Não gosto de embarcar na conversa da discriminação sexual. Ela existe e nós apercebemo-nos dela em todas as etapas da vida. Mas somos verdadeiras vítimas? Sim, por vezes temos a vida mais dificultada, é verdade. Só que a vida nunca foi justa. Tragédias acontecem todos os dias e apesar de sermos mais facilmente alvo delas, são a excepção e não a regra. Não subjuga a sua importância ou a necessidade de lutar contra esse mindset, mas também não ajuda nada, nem ninguém, ter a atitude de “cala-te, és homem, não sabes nada do que é ser mulher”.
    Um homem tentar estar na pele de uma mulher será sempre redutor, assim como o oposto seria.
    Sim existem realidades inomináveis, chocantes, revoltantes. É essa aquela em que vivemos? Não propriamente.
    Como dizes e bem, não vivemos de burka nem casamos à força. Temos outras histórias, sim, outros eventos traumáticos, outras inseguranças e medos.
    Ajustamo-nos apesar de ser difícil, de sentirmos insegurança em andar de saia, ou sozinhas à noite, ou de sermos violadas, ou perdermos empregos, ou sermos alvo de violência física ou psicológica.
    Devemos ter posições fortes e convicções, aquilo que não podemos é atirar postas de pescada para o ar, muito cheias de nós, que também ofendem a realidade de outrém, como se eles não tivessem também de viver numa sociedade machista que espera tudo deles, ou se também não fossem alvo de violência.
    Há quem ache que é fácil ser homem. Eu acho é que o que é difícil é ser um ser humano decente a todos os níveis.
    A partir do momento em que diferenciamos tanto o que é ser homem e o que é ser mulher, crivamos ainda mais essas diferenças, como se alimentássemos um gremlin fofinho de dia, mas monstrinho, no fundo, quando se revela.

    1. 02/06/2014 at 21:31

      Andreia, também não é tema que me agrade, mas, como acontece em todas as etapas da construção do modelo social, de vez em quando temos de falar dele. Pessoalmente acho que, embora cada um tenha os seus temas preferidos e sobre que pensa mais, não serve de nada falar às pessoas sobre amor e sexo e relações se não se lhes falar sobre respeito, sobre dignidade, sobre direitos.

      A discriminação sexual é um facto, e provavelmente vai ser sempre um facto, até eliminarmos a atracção sexual como factor na vida humana.
      Ainda há lugares do mundo onde se discrimina também por muitas outras coisas. Não quero minimizar as dificuldades, óbvias, de ser mulher num mundo – mesmo o nosso “primeiro mundo” – que ainda olha para elas como mulheres antes de as ver como pessoas. Não é esse o meu objectivo. Percebo quando me dizem que o efeito da discriminação faz com que alguns dos oprimidos se voltem contra o opressor, de uma forma generalizada e sem distinguir, sem querer sequer distinguir, se aquele que agridem fazia parte dos que o oprimiam ou dos que o respeitavam. Aconteceu com o racismo. Aconteceu na Revolução Francesa, com uma espécie de “classismo”. Pode vir a acontecer na Índia com o sistema de castas. Não gostava que uma dessas reviravoltas, desta vez sobre o sexismo, tornasse uma tirania machista numa tirania feminista, porque nasci depois do Maio de 68 e nunca fiz sequer parte da tribo dos opressores.

      Se calhar falo por medo: porque não quero ser enfiado com outros num vagão para uma Treblinka qualquer só porque tenho pila e o meu pai tinha pila. Se calhar, é por isso que estas generalizações me assustam. Porque sei bem onde esse comboio vai dar.

  2. 02/06/2014 at 09:16

    Não tenho querido alimentar a fera, por razões óbvias, mas não se pode ficar indiferente a este texto, o melhor que já li sobre este assunto e tudo o que nunca ninguém disse e que muita gente fecha os olhos, porque na realidade não sabe o que é ser homem e as coisas são como são ;)

    1. 02/06/2014 at 21:34

      Pedro,
      tens razão, acho que é uma polémica que não precisa de quem mais a alimente. Simplesmente há coisas que nunca são ditas. Eu tenho as minhas e desta vez achei que tinha de as dizer.
      Obrigado pelas tuas palavras. :)

  3. Carla
    02/06/2014 at 09:47

    Uma vénia de respeito!

    1. 02/06/2014 at 21:37

      Carla,
      façamos juntos uma vénia a quem sofre sem infringir as liberdades dos outros, uma vénia a quem sofre sem querer impor nada a ninguém, uma vénia a quem sofre por ser, por querer ser, simplesmente, quem é.

      (obrigado pelas tuas palavras. a expressão do apreço significa coisas, significa que não estamos sozinhos a acreditar em alguma coisa.)

  4. 02/06/2014 at 12:58

    Do mais sensato que li até agora.

    1. 02/06/2014 at 21:37

      Ricardo,

      Obrigado :)

  5. Filipa
    02/06/2014 at 14:28

    Percebo o seu grito de revolta e claro que o que diz é verdade, mas correndo o risco de lhe fazer ter vontade de dar mais murros na mesa, sei que sabe, que as mulheres, mesmo nas sociedades hoje ditas mais evoluídas, já foram vistas como coisas que se possuíam como qualquer outra propriedade, bocados de carne acéfalos sem direito a opinar, sem direito de ter vontade própria e sonhos possíveis de realizar, sem direito a aspirar a nada, ainda hoje, mesmo cá em Portugal, integrante da tão proclamada civilizada Europa, isso acontece, ora isso deixa marcas que passam de geração em geração, e traduz-se na revolta contra o antigo opressor e em muitos casos o ainda opressor.
    Depois, e aqui para nós que ninguém nos lê, sim, há muita mesquinhez, muita pequenez em muitas mulheres e digo isto com pena, muitas vezes, o maior inimigo que uma mulher pode ter é outra mulher, deve vir ainda dos tempos da intriga palaciana (somos meninas das nossas mães). Se em vez de falarmos de homens para um lado e mulheres para o outro, falássemos de pessoas, sem supremacias, em vez de nos focarmos no género, já era um grande primeiro passo, todos diferentes, todos para sermos respeitados de igual maneira, se soubermos merecer esse respeito pela forma como estamos na vida, e mantendo as nossas diferenças de género intactas, porque isso é que tem piada, para nos podermos compartilhar e aprender uns com os outros, e nós homens e mulheres resultamos tão bem quando baixamos as armas.
    Então, tréguas?

    1. 02/06/2014 at 22:36

      Filipa, a propriedade do homem pelo homem é um crime antigo. Aconteceu a todos os povos invadidos e conquistados na antiguidade, na Europa, no Mediterrâneo. Aconteceu aos povos de África, da Polinésia, da América, da China e do Japão. Ainda ocorre hoje em dia, e de uma forma atroz. Não é uma coisa medieval. A história dos últimos 70 anos da Europa está cheia de massacres, de genocídios, da imposição da vontade de um ao outro só porque se é mais forte. E sempre os mais fortes se impuseram aos mais fracos, e desde que a força física se tornou um factor dominante os homens se impuseram às mulheres. E séculos de submissão forçada produzem uma espécie de submissão voluntária, uma espécie de síndrome de Estocolmo. De que forma se entenderá que uma das principais forças opressoras e subjugantes da mulher, a religião organizada, nomeadamente as prevalentes, conte entre as suas fileiras tantas vezes mais mulheres que homens, neste sul da Europa, neste nosso mundo supostamente ocidental?

      Devíamos falar de pessoas. Devíamos simbolicamente e na prática retirar de todas as leis a palavra homem, a palavra mulher.

      Discriminar é distinguir, tratar de forma diferente o que é diferente. O problema não é distinguir, é distinguir mal, usar distinções de sexo para coisas que não têm nada a ver com o que distingue os sexos, que são características biológicas, e não sabemos – ainda se estuda – se características comportamentais.

      Nunca deixaremos completamente de distinguir enquanto a atracção sexual, sensual, de formação de pares, fizer parte da nossa matriz de comportamento. Uma coisa é isso, outra coisa é sermos todos pessoas e termos direito à protecção da lei e das instituições. É uma questão de contextos. É uma questão de direitos, uma questão de dignidade. Dos outros, e da nossa.

      E quanto a tréguas, claro que sim – aliás, muitos de nós nunca sequer estivemos em guerra… :)

  6. Uva Passa
    02/06/2014 at 16:32

    Pois sim, pois sim, que ele também sabe falar sobre homens. Parabén pelo texto. E olha que eu ainda vou entendendo alguma coisa desta merda.

    1. 02/06/2014 at 22:37

      Uva, obrigado pelas tuas palavras. É bom quando quem entende nos entende. :)

  7. 02/06/2014 at 19:32

    Os homens não são todos iguais, claro que não. Assim como as mulheres não são todas iguais. Essa coisa do ambiente de trabalho feminino coiso e masculino outro, não sei de onde veio, mas posso dizer-lhe com alguns anos de experiência, em dois paises diferentes, e algum bom senso, que não é o género que é importante, mas sim a educação. Deixemo-nos de nos queixar de generalizações, fazendo outras generalizações e o debate corre o risco de se tornar credivel.

    Quanto a querer mostrar que não se percebe que é diferente ser-se homem e ser-se mulher, que vivemos numa sociedade machista, que as meninas são educadas de maneira diferentes dos meninos, que as estatisticas mostram que a violência contra a mulher é muito superior do que contra o homem, que uma mulher é mais sujeita do que o homem a ser humilhada na rua com comentarios desrespeituosos, que registam-se muito mais casos de violação da mulher do que do homem é uma tremenda falta de consciência social.

    Concordo consigo é injusto colocar-se todos os homens no mesmo saco, mas poderiamos concentramo-nos, uma semana que fosse no essencial ?

    1. 03/06/2014 at 01:40

      Carla,
      Obviamente que qualquer generalização é provocatória, até esta. ;)
      E se por “educação” entende, de facto, “educação” e não “instrução”, concordo largamente consigo.

      Quanto às estatísticas, valem o que valem.
      O que é um facto, e que aponta com imensa razão, é que as meninas, embora instruídas da mesma maneira, são educadas de forma diferente dos meninos – deixe-me ser provocatório mas realista e acrescentar “normalmente, pelas suas mães”.

      A agressão é um problema que começa muito antes dos actos. Começa na ideia de agredir, no estado mental que permite achar que se pode agredir. Começa, talvez, por se achar nas escolas que as brigas “são naturais”, por achar que se pode roubar o iogurte, a sandes, o lápis, o dinheiro do lanche, o telemóvel, a mala ao colega e que se apanha uma reprimenda, quando muito uma suspensão, que até é fixe, são uns dias sem aulas.

      Antigamente quem não queria estudar ia para o campo, para a estiva, para as obras, ia servir. Aprendia que a vida é um sítio lixado e que as acções têm consequências. Agora parece que se tenta ensinar isso dizendo-o às crianças, nunca o demonstrando. E as crianças, como todas as pessoas, ocupam uma distribuição normal ao longo de uma escala que vai desde o socialmente responsável até ao sociopata. O papel da educação é tentar levar a maior quantidade possível de pessoas a integrar-se responsavelmente na sociedade. E tem falhado redondamente, desde as leis, passando pelas instituições, mas sobretudo os pais.

      Os violadores são, em grande percentagem, sociopatas. Os assaltantes também, os agressores, os membros dos gangs onde a violência é um posto. Comparemos isto com os assassinos, que frequentemente não são sociopatas, isto é, não têm uma falta de empatia que os leva a não ver mais ninguém além deles como sendo uma pessoa, nem sequer considerar os sentimentos do outro, a nem sequer considerar que esses sentimentos existem ou que o outro os pode ter. Ao contrário de muitos assassinos, que atacam uma vítima em especial, normalmente por razões pessoais, não repetem o crime, e o cometem por achar que as suas razões para o fazer se sobrepõem a qualquer outra no caso concreto, os sociopatas não têm, normalmente qualquer consideração pela vítima enquanto indivíduo, enquanto pessoa.

      No limite inferior, são “apenas” profundamente egoístas. E preocupa-me o facto de estarmos, como sociedade, a criar cada vez mais egoístas, auto-cêntricos, com uma noção distorcida de “direitos” que reclamam seus mas que não têm qualquer adesão à realidade.

      A violação é um crime sem paralelo, ou de paralelo difícil. Porque tem como alvo prevalente uma metade bem definida da população. Porque se reveste de múltiplas formas, em infinitas gradações, vai desde a violação na rua por desconhecidos, à violação por conhecidos ou recém conhecidos, explorando ou não circunstâncias específicas, à violação pelo parceiro, no próprio lar, ela própria revestindo-se de variadas formas e gradações. Seria mais fácil se tivéssemos um critério linear e objectivo para definir a violação, mas não temos. Deparamo-nos com a mesma dificuldade em definir a violência psicológica, ou certas formas de maus tratos como a privação de direitos, liberdades e garantias. Parece que a violação é muito mais simples, mas não é. Uma das coisas que define a “simplicidade” de um crime é facilidade com que se faz queixa. A violação é, vista por um certo prisma, tal como a privação e os maus tratos psicológicos, um crime contra a vontade. E a vontade é sempre muito ´mais difícil de provar. Metade do drama é este.

      A outra metade do drama, visível não só na violação como nos maus tratos psicológicos, é a vergonha e a vontade de esquecer o crime e não o reviver. Os crimes que implicam actos contra a vontade obrigam a uma via sacra de declarações, confrontações e esclarecimentos, agravados no caso da violação por exames físicos e por uma exposição do foro íntimo (que não é completamente distinta dos crimes de maus tratos psicológicos, embora possa ser claramente diferente em intensidade).

      A combinação destes dois factores faz com que só uma ínfima percentagem dos crimes de violação sejam reportados, e só uma ínfima percentagem desses tenha consequências judiciais.
      O aumento da repressão poderia actuar como factor dissuasor, mas é mitigado pela dificuldade, no actual estado das coisas, da prova, ou mesmo da queixa.

      Para além dos casos em que o violador não tem sequer a consciência de que estava a cometer uma violação, existe uma sensação de impunidade decorrente da percepção de que a vítima não irá fazer queixa, não se quererá sujeitar a isso. Infelizmente, é verdade em muitos casos.

      E, perante tudo isto, o que fazer? Actuar sobre a origem e criar gerações de homens a sério, de pessoas capazes de fazer parte de uma sociedade com direitos humanos? Actuar sobre a comunicação e estabelecer formas e regras abertas, claras e inequívocas para comunicar desejos e restrições sexuais, num país onde a metade da população é incapaz de falar de sexo trinta segundos sem se rir ou sem corar ou sem se armar ou sem mudar de conversa? Actuar sobre os processos, criando formas mais humanas para que as vítimas de violação possam acusar e confrontar os seus violadores? Actuar sobre os agentes de justiça, e ainda sobre os processos, de forma a que sejam expeditos, transparentes e imparciais? Actuar sobre as penas, dando molduras penais pesadas e específicas, com punições específicas para os crimes de violação? Actuar sobre a sociedade, para que passe, em uníssono, a repudiar os violadores de forma consentânea com a extraordinária gravidade dos seus actos (não se entende que a violação, tal como certas formas de maus tratos psicológicos, tenham molduras penais e mais aceitação social que o terrorismo, de que são uma forma, talvez das mais vis)?

      Gostava, Clara, acredite-me, de me focar no essencial. Mas talvez por limitação minha, não consigo, em termos de debate e reflexão, encontrar um essencial que abranja menos que isto tudo. Mas estou disponível, sempre o estive, para dar o magro contributo que puder em qualquer um destes vectores.

      1. 13/04/2015 at 02:09

        Até fiquei com angústias…

        Já tinha pensado nestas coisas (quase) todas mas não todas de uma vez…
        Gostaria de dizer que achei geniais as ideias propostas como possíveis soluções e que nunca me tinham ocorrido:

        “Se querem começar a resolver os problemas da igualdade no trabalho e na vida, comecem pelos sítios mais simples. Por exemplo, pelo horário de trabalho. Que se torne obrigatório o cumprimento do horário, que acabem as horas extraordinárias, pagas ou não, e que toda a gente seja obrigada a ir para casa a horas certas. Querem produtividade, trabalhem as oito horas regulamentares. Assim não ficam homens a trabalhar enquanto as mulheres têm de sair para ir às compras, buscar os filhos à escola, fazer o jantar. Parece pouco, mas mudaria imenso. Acreditem que é essa uma das principais diferenças entre Portugal e o resto da Europa.

        Querem outra mudança? Licença de parentalidade igual para os dois, pai e mãe, obrigatória, sem excepções. Se a mulher tiver que pedir baixa por gravidez de risco, o homem tem de ser obrigado a ir de licença igual – aliás, se ela vai para casa porque não convém ir para o trabalho, fica lá sozinha? De pé o dia inteiro? Ou faz sentido é que lá esteja o homem a ajudá-la? Que é que se ganha com isto? As empresas que não contratam mulheres com medo que engravidem deixam de ter esse argumento e esse receio, uma vez que as ausências passam a ser iguais para mulheres e para homens. Podem é começar a só contratar solteiros, ou solitários, ou estéreis, mas pelo menos reduz-se a discriminação por via do género.”

        Aprecio a tua lucidez e sentido crítico e agradeço muito a partilha das tuas opiniões e reflexões, além de serem um excelente entretenimento, ainda me ajudam a ver melhor.

        Um bem haja ;)

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