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A Arte E O Outro (ou O Que Acontece Se Uma Árvore Cair Na Floresta Sem Ninguém Ouvir)

tito_trelles_by_catropo-d4xirzrUma questão importante sobre a arte é saber se a arte é objecto ou é comunicação.

α: Se é objecto existe assim que é feita e vale por si.

β: Se é comunicação, produz-se apenas quando alguém a recebe, quando se completa o ciclo autor-arte-público.

As duas interpretações levam a leituras distintas do que é o gosto. Se a arte existisse no vazio, sem público, o seu valor artístico estaria fixado à partida; o bom gosto e o mau gosto seriam coisas objectivas, poderíamos criticar alguém por não reconhecer numa obra de arte o valor que esta objectivamente tem. A segunda interpretação é, pelo contrário, completamente subjectiva, ao ponto de considerar que a arte só está completa – só existe – quando alguém a vê, a lê, a ouve, a sente.

Entender isto implica compreender o objectivo da arte; se acreditarmos que o intuito da arte produzir sensações e emoções num destinatário, fazer alguém sentir, ou fazer alguém pensar, é evidente que a arte só se dá quando isto aconteça, e na medida em que isto sucede. A arte, nesse caso, é tão dependente do público como do autor. No entanto isto não faz do público um co-criador da arte: o papel do público é distinto do papel do autor, e, fundamentalmente, o público pronuncia-se a posteriori sobre algo que já existe, não tem capacidade de influenciar a peça excepto quando vê nela algo que mais ninguém tinha visto, por vezes nem o autor.

Se o objectivo da arte é produzir sensações e emoções num destinatário, até que ponto a arte se deve considerar “conseguida”, “realizada”, até que ponto a arte se deve considerar arte na medida em que essas sensações sejam transmitidas de facto? Será então mais arte a arte “simples” em que as emoções não são complexas mas são efectivamente passadas a quem vê, ouve, lê? Ou será apenas arte o que é complexo? Ou haverá arte de primeira e arte de segunda, com critérios do que é bom e do que é mau distintos em cada categoria? O que transmite afinal as emoções de uma forma mais abrangente e eficiente? A Sinfonia do Novo Mundo de Dvorak ou o “Podes Ficar Com a Casa Mas Não Fiques Com Ela” da Ágata?

Uma das perguntas relevantes quando consideramos a arte enquanto objecto versus comunicação é a antiga e subjectiva questão “para quem escrevemos?”. A resposta de cada autor a esta pergunta implica, de alguma forma, um tomar de posição sobre a arte-objecto ou a arte-comunicação; mesmo que se trate de uma comunicação consigo mesmo – a resposta “escrevo para mim mesmo” é frequentemente mentira, e os autores sabem-no, consciente ou inconscientemente – ou que se trate de uma comunicação com um leitor imaginário, um arquétipo qualquer. Um dos principais critérios para a compreensão e a classificação da arte deveria ser, assim, a identificação e tipificação do público-alvo. Com quem está o autor a querer comunicar quando faz o seu trabalho? Quem imagina ele que completará o ciclo da arte-comunicação e interpretará as emoções e as sensações que ele-autor codificou na peça de arte? Todos imaginamos que poderá ser diferente um texto escrito para teenagers inconscientes e outro escrito para donas de casa desesperadas. Mas até que ponto isto é assim? E até que ponto a arte é mais arte e melhor arte na medida em que é mais universal, mais passível de interpretação por mais pessoas? E em que medida a arte é mais arte e melhor arte se for dela possível extrair múltiplas interpretações e não só uma? Ou o contrário? Ou é estéril falar disto e não há melhor nem pior arte, apenas arte com mais público ou menos público, com mais e com menos nome, com mais ou com menos mediatização?

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