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A Desconstrução Do Natal

Antes do Natal havia o solstício; a primeira consciência era a consciência do medo, de que a noite crescente não se invertesse, que os dias não se alargassem, que não voltasse o Verão. O solstício marcava a esperança de dias melhores, sublinhava a percepção de que só sobreviveríamos juntos, gerava, de forma rude e primordial, a ideia de comunidade. O Natal substitui isto por uma festa formal, decidida do alto, imposta às massas. A igreja diz-te o que fazer no Natal, diz-te o que significa, diz-te o que deves celebrar. O povo, obviamente, celebra o que quer, mesmo que o mascare de outra coisa. O novo significado apaga o velho, mas subsiste a base, e a base é a frase mais portuguesa de todas: “cá estamos”; “mais um ano”. Não interessa a fazer o quê, nem a celebrar o quê, nem se é por causa do Menino ou porque o solstício passou. O importante é que cá estamos, mais um ano, e estamos juntos, os que sobreviveram, e havemos de cá estar para o ano, esperamos nós. E por mais que os novos mestres, os torreões do capital que destronaram as igrejas, transformem o Natal num exercício de consumo, enquanto estivermos juntos o espírito da coisa será o mesmo; se a base do Natal for estarmos juntos, não trairemos o espírito de nada, seja qual for a capa, a casca, o pretexto, o aspecto.

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