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A Erosão de Eros

looking at the desertNunca me apaixonei por ninguém por ela não ter celulite.
E nunca me desapaixonei de ninguém por ela a ter.

Já gostei de mulheres magras, gordas, altas, baixas, com celulite, sem celulite, de olhos castanhos, de olhos azuis, louras, morenas, com mamas grandes, com mamas pequenas, bonitas, feias, seguras de si, inseguras, exuberantes, recatadas, brilhantes, limitadas.

Percebi duas coisas:

Percebi que o que te atrai e o que te faz ficar (ou partir) são coisas diferentes.

E percebi que não há receita – a atracção é um conjunto de factores e muda com as pessoas e com o tempo e com o contexto.

É verdade que entendi que mais depressa se foge do que achamos negativo do que se persegue um suposto ideal. Há até negativos que, em certas circunstâncias, funcionam como elementos absorventes e reduzem a zero todo o interesse que se possa ter por alguém. Mas no caso geral, na soma de tudo um qualquer factor isolado conta pouco no processo de atracção.

A atracção não é um processo matemático, longe disso. Tipicamente na atracção destacam-se de início um número reduzido (não sei quantos – dois? três? cinco?) de vectores que se tornam desmesuradamente grandes. São esses os factores determinantes que alavancam a atracção, e são diferentes em cada caso. Podem em alguns casos ser perfeitamente físicos, ou podem ser traços de personalidade, ou posturas, formas de ser ou de estar. Podem nem ser intrínsecos, e ter a ver com estatuto, profissão, status, posses. Cada um sabe de si e sabe o que o atrai (embora nem sempre tenha consciência disso). Podem até ser perfeitamente conjunturais – ter passado por determinadas experiências juntos, a partilha de interesses comuns, e por aí adiante. Normalmente, são combinações disto tudo (por exemplo, sentir-nos atraídos por alguém porque é sexy, divertida, gosta de viagens e tem umas mamas uns olhos lindos).

Imediatamente após este processo inicial continua a haver evoluções e a surgir outros focos de atenção, vectores complementares mas mais raramente determinantes. Podem ir no sentido de reforçar a atracção, e podem até surgir novos vectores determinantes à medida que se conhece mais da pessoa. Este é o processo de apaixonamento, o processo no qual os vectores de referência se estabelecem e se instalam. Mas interessa-nos analisar o oposto – os vectores de sentido negativo, que diminuem ou anulam a intensidade dos primeiros.

Um caso interessante é o dos vectores que contradizem directamente um dos determinantes, e assim o anulam. Exemplo: conhece-se uma mulher por quem nos interessamos vivamente, e que afinal é um homem. A mentira, especialmente quando associada a um dos vectores que escolhemos, tem frequentemente o efeito de anular o vector de interesse, por vezes anulando totalmente o interesse, sob qualquer vector. Descobrir que nos mentiram exactamente sobre aquilo que nos fez apaixonar destrói normalmente qualquer motivação. E no entanto há excepções, porque o ser humano tem concentração selectiva, e se os vectores restantes forem suficientemente fortes e importantes, por vezes avança-se assim mesmo, embora a mácula exista.

Outro caso interessante é a omissão, que, embora não se revista da mesma mácula que a mentira, pode ter um efeito similar. Não falo da omissão explícita, e.g. alguém que se comporta como solteira e afinal é casada – essa é, para todos os efeitos, e a partir de um certo ponto, equiparável a uma mentira, mas sim de omissões implícitas que o receptor equipara a mentiras pelo facto de lhe frustrarem as expectativas; por exemplo as mamas 38 pelas quais ele “se apaixonou” serem na verdade um kit “32+6 do Wonderbra”, ou ela descobrir que ele passou a noite toda com um par de meias dentro dos boxers (acredito – quero acreditar – que acontece mais a primeira que a segunda; mas não sei o que usa o homem típico dentro dos boxers, limito-me a repetir mitos urbanos. se alguém sabe se é mito ou não é, conto com a vossa ajuda para me esclarecer). As omissões implícitas, sendo menos lesivas que as explícitas, são ainda assim tão fortemente negativas quanto a relevância do vector que afectam. Se um homem se sentir atraído por uma mulher mas o tamanho das mamas não fizer parte dos vectores determinantes, o tal 32+6 pode ser encarado com naturalidade e até com boa disposição. É caso para dizer que perceberes porque é que ele se foi embora é meio caminho andado para entenderes o que ele queria afinal. Pena é que normalmente isso só aconteça a posteriori.

O terceiro caso não é contextual, e tem a ver com os preconceitos, os condicionamentos, os traumas e os fetiches, com tudo aquilo que nos constrange a priori. Funcionam para os dois lados, podem constituir factores negativos, até nulificadores (alguém que fique completamente turned off por piercings, por exemplo, e que descubra um piercing no último momento), ou pelo contrário podem constituir, até, factores determinantes da atracção (desde o fetiche por mulheres que gostam de livros até ao questionável mas plausível “ela é igualzinha à minha primeira namorada”).

Tudo isto acontece naturalmente e sem nos apercebermos. Não são opções conscientes. E uma vez tomadas, ou persiste atracção de parte a parte, ou a coisa se dissolve quase sem começar, ou após um início breve, por vezes não mais que uma noite.

Nos casos em que persiste durante tempo suficiente entram em acção outros factores.

O mecanismo dos vectores positivos e negativos não cessa após a fase inicial, mas é complementado por factores de acção normalmente mais lenta, cumulativa, que vão actuando dia após dia sobre o espaço desenhado pelos vectores iniciais. Estes vectores quotidianos, com o tempo, podem assumir – e assumem muitas vezes – dimensões bastante superiores às dos vectores de atracção inicial. É disto que falamos quando dizemos que as relações conhecem uma fase de “paixão” que é limitada no tempo, e uma fase subsequente, a que alguns gostam de chamar “amor”. Na verdade não há duas fases, apenas dois mecanismos de atracção distintos – o que não significa que a atracção seja distinta ou por tipos de coisas diferentes, apenas muda o mecanismo pela qual ela se produz.

É comum dizer-se que a atracção inicial tem uma natureza mais física e que vai perdendo essa característica ao longo do tempo – no entanto isso é uma premissa falsa. É verdade que até desde o século XVII e até à primeira metade do século XX, nas relações ditas “convencionais” e na chamada “sociedade”, a atracção pelas características físicas fazia geralmente parte do naipe de vectores iniciais e determinantes. Obviamente juntava-se-lhe algo mais – a atracção de uma reputação, de um estatuto social, um vislumbre para dentro da mente da pessoa, através de cartas, pequenas conversas públicas – tudo isto era o terreno em que se jogava a atracção num tempo em que homens e mulheres era mantidos firmemente à parte, e quase sem temas de conversa em comum. É disto que nos falam os romances, e é disto que se povoa o imaginário colectivo. Todos os outros factores que constituem uma pessoa – nomeadamente os que dizem respeito à personalidade, ao raciocínio, à índole – eram conhecidos apenas após o assumir de uma relação, e muitas vezes apenas após o próprio casamento.

Assim se foi associando o que é exterior à paixão e o interior ao amor, e se criaram os mitos de que a paixão se consome, de que o verdadeiro amor nasce da convivência, e outros lugares comuns do género.

E no entanto tudo isto está errado. O que se passa de facto é que nos podemos atrair inicialmente por factores “exteriores” ou “interiores”, e que tanto uns como outros continuam a evoluir positiva ou negativamente durante a relação. É possível alguém apaixonar-se – atracção inicial, do género “coup de foudre” – pela bondade ou pela sagacidade de alguém, e continuar a ver essa atracção reforçada todos os dias à medida que vai convivendo com ela, e isso pode nunca ter fim. Como é possível apaixonarmo-nos todos os dias pelos olhos ou pelas mãos ou pelas pernas ou pelas mamas da mulher amada, porque todos os dias elas nos fascinam e nos encantam e nos dão mais tesão, porque nos atraem verdadeiramente e não por qualquer factor de “novidade”, e todos os dias o vector inicial que nos fez apaixonar por elas logo na primeira hora sai reforçado, e não diminuído.

Ainda assim o que frequentemente acontece é o oposto:
Os vectores iniciais deram o que tinham a dar nos primeiros tempos, e há um conjunto de vectores negativos que se vão acumulando dia após dia, até serem de tal forma intensos que ofuscam as razões iniciais. A argumentação interior que fazemos é variadíssima: desde não conseguir entender que fomos atraídos por factores que à data tinham peso, mas hoje parecem minúsculos face à dimensão dos pontos negativos (e.g. “não sei como te conseguia achar bonita, estás sempre zangada e irritada”), até mesmo a confundir o desconhecimento – à data inicial – dos factores negativos com uma característica positiva e um atractor (e.g. “quando começámos a namorar pensei que não gostavas de novelas, aliás foi uma das coisas de que gostei em ti, e agora é isto todos os dias!”).

Entre um extremo e outro é onde vamos encontrar os casos reais, e é dos casos reais que entendemos que, se pouco podemos interferir nos vectores da atracção dinâmica (a que nos faz aproximar) , há sobretudo formas melhores e piores de explorar os mecanismos da atracção estática, a que nos faz ficar a longo prazo numa relação:

A primeira coisa a fazer é falar, e ouvir.
Digo primeiro “falar” e só depois “ouvir” porque há uma tendência em certas pessoas para dizer que “os outros não ouvem” quando na verdade elas não falam. Resmungam, fazem birras, queixam-se aos amigos, mas na verdade não falam.
Passem a falar. Falem sempre. Não deixem que aquilo que vos afecta de forma negativa se acumule sem que o outro o saiba, sem falarem sobre isso. Muitas vezes são comportamentos que o outro pode alterar, e frequentemente são questões que uma vez debatidas podem ser geridas e deixar de actuar negativamente na percepção que têm do outro.

A segunda coisa a fazer é abrir os olhos e olhar para o outro. Olhar realmente, como se fosse todos os dias a primeira vez que o vêem. Deixar-se encantar por aquilo que gostamos no outro, como se fosse a primeira vez. Acima de tudo, nunca banalizar o que o outro tem de bom, nunca deixar de lhe dar valor, nunca fazer com que isso deixe de contribuir todos os dias para o crescimento dos vectores do que nos atrai.
Esta “banalização” que muita gente deixa acontecer – porque deixa de olhar para o outro como uma pessoa inteira – faz com que muitos dos vectores positivos “deixem de contar” e acabem soterrados debaixo das pequenas coisas negativas que mais tarde ou mais cedo surgem em todas as pessoas. Se deixarmos de olhar para quem amamos como a pessoa por quem nos apaixonámos e passarmos só a ver a pessoa que se esquece de ir ao supermercado comprar leite, se deixarmos de valorizar tudo o resto só porque “é igual a ontem”, é fácil deixar que o negativo se aproprie da nossa percepção – mas isso acontece em muitos casos porque deixamos de dar valor ao que é positivo, a atracção esbate-se porque nos esquecemos dela, porque deixamos que seja assim.

A terceira coisa que se tem de entender é que o amor não é uma coisa separada das pessoas. Não há “o eu”, “o tu” e “o amor”. O amor é nome para muitas coisas, mas simplifiquemos, que já ajuda: amor também é atracção. Sem atracção não há amor completo. E a atracção é uma coisa muito concreta – é a atracção que tenho por ti, é a atracção que tens por mim. É a inicial, dinâmica, que nos faz juntar, é a quotidiana, estática, a que nos faz estar juntos. Tens de saber isto, e tens de saber que a atracção não é coisa para fechar no armário, nem para te esqueceres que a tens e só reparares nas coisas chatas, na espuma dos dias, na erosão de Eros.

A celulite, essa, raramente é um factor de atracção imediata. Mas há casos em que, com o tempo, não consegues olhar para a celulite da mulher que amas sem te apaixonares por ela all over again. E o amor é isto.

3 thoughts on “A Erosão de Eros

  1. Espiga
    25/02/2014 at 15:11

    Bom, está visto que voltarei cá mais tarde :-)

    1. 25/02/2014 at 16:16

      Hoje foi dia de “lençol de texto”, Espiga. Há dias assim :)

  2. 26/02/2014 at 21:37

    Por acaso concordo contigo. E a atração quando não complementada com factores positivos intrinsecos ( como tu lhes chamas) também se esvai, deixando à tona a vulnerabilidade das emoções humanas. Se não proporcionarmos um ao outro um reforço dos “”vectores positivos “ e logo que eles “deixem de contar” e acabem soterrados debaixo das pequenas coisas negativas que mais tarde ou mais cedo surgem em todas as pessoas, a vontade de ficar. esbatece-se e eventualmente morre.

    Muito boa esta tua reflexão!

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