1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (No Ratings Yet)
Loading...

A Lésbica de Schroedinger

Há quem diga que só sabes se tens um lado lésbico depois de experimentares.

Por outro lado há quem ache que há certas coisas que se sabe à partida se se gosta ou não: por exemplo, há quem ache que não precisa de ser sovado por estivadores para saber que é coisa que dificilmente apreciará. Outro bom exemplo são as crianças que juram que não gostam de ervilhas, e a quem os pais, insistentemente, convencem que só pode saber isso depois de provar.

A negação apriorística, que é isto de se dizer que não se gosta sem nunca ter provado, pode ser justificada com alguma base causal. Nega-se, por exemplo, por extrapolação: já experimentámos coisas parecidas, ou a mesma coisa em menor grau, e a partir dessa experiência concluímos que não vamos gostar, portanto nem vale a pena experimentar. Também se nega por aversão, quando o simples conceito da coisa nos causa repugnância, como, para algumas pessoas, a ideia de comer insectos, túbaros ou peixe cru. Podemos estar a incorrer num erro e isso ser uma coisa fantástica, e até pode haver causas psicológicas mais profundas que possam vir a ser resolvidas  mas, até o serem, não há volta a dar-lhe e insistir faz mais mal que bem. Finalmente, nega-se por associação: associamos a experiência a alguma coisa de que não gostamos, e metemos tudo no mesmo saco. Por exemplo, um homem pode associar o sexo anal (na vertente, em português de rua, de ser ele a levar no cu) à homossexualidade masculina, que lhe causa aversão, e, por isso, nunca experimentar ter uma mulher a inserir-lhe um vibrador no cu enquanto lhe faz um broche, a massajar-lhe a próstata.

Fora destes cenários de negação, há todo um espectro de atitudes perante as coisas, e o sexo entre duas mulheres não é excepção. Desde quem tem curiosidade e só nunca achou a pessoa certa ou esteve nas circunstâncias certas até quem acha a ideia estranha e a afasta quando pensa nela, embora não a repugne, há de tudo.

Obviamente que usar o termo “lesbianismo” é liberdade poética; não falamos aqui de uma preferência clara por mulheres, que normalmente é algo mais profundo, mais sólido, mais ancorado na personalidade; aqui fala-se claramente do mítico fetiche masculino da mulher que gosta de homens mas que também gosta de mulheres, em doses homeopáticas, e de preferência com ele a participar ou pelo menos a ver, ou, vá, no mínimo, que é época de saldos, a contar-lhe depois tudo em pormenores.

Curiosamente não são estes homens a usar com mais frequência o termo “lésbica de Shroedinger” e a falar das mulheres que só experimentando descobrem se também gostam de mulheres. O termo surge com relativa frequência nos meios mais liberais e no discurso feminino, e em certos fóruns chega a parecer um conceito com crescente aceitação.

Efectivamente, é um rótulo. “Lésbica de Shroedinger” é um termo que só nasce da moderna necessidade de nos definirmos, nos rotularmos, assumirmos aquilo que contemporaneamente se chama “identidade” e que na verdade implica etiquetarmo-nos, o que é um retrocesso civilizacional. Na verdade, toda a gente é potencialmente capaz de tudo, de gostar de tudo, tudo tem a ver com oportunidade e com contexto, e com escolhas. E no sexo, se tivermos a mente aberta, é mais complexo assumir posições definitivas de “isto sim” e “aquilo não”; é mais fácil tentar adivinhar se gostaremos de comer ervilhas do que tentar imaginar se gostaremos que outra mulher nos lamba os mamilos.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.