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A Minha Pátria É Melhor Que A Tua (Quando Ganhamos Coisas)

De vez em quando dá-nos o patriotismo. Normalmente acontece-nos entre uma pizza e um disco de uma banda inglesa. Para mais, por estes tempos, ganhamos coisas, há quem ache que aqui é um bom sítio para fazer coisas, e há quem diga, agora, menos mal de nós. E se há coisa para que nos dá é para ser patriotas quando estamos na mó de cima, já na mó de baixo queremos é que nos deixem em paz e não reparem que ali estamos.

O patriotismo é uma coisa curiosa. Achamos um tanto palerma o orgulho exacerbado no sítio onde se nasceu quando esse sítio é Santana do Campo, ou Ribeira de Pena. Achamos vagamente idiota o culto dos poetas lá da nossa vila, dos dois únicos escritores da freguesia de que o tempo, em dez séculos, consagrou, achamos provinciano o apreço pelas coisas “lá da terra” ou a vontade de para lá se ir morar quando se for velho.

E, no entanto, promovemos à boca cheia isto de “ser Português”, rebuscamos sob as pedras por heróis e inventores e autores de antanho, procuramos ou inventamos algo que nos defina como grupo, que nos una, para além do sermos todos mestiços que calharam a nascer aqui.

Parecemos não entender que à escala do mundo somos meia dúzia, que ser Português, mesmo à escala da Europa, é como ser Mirandês aqui, e que se queremos achar bom um certo orgulho nacional temos de deixar de achar provinciano quem se assume e afirma do Sabugueiro, quem tem orgulho no sotaque alentejano, quem acha que não há praias no mundo melhores que a da Figueira.

Defendemos a “posição nacional” nos conflitos entre Portugal e Espanha ao mesmo tempo que achamos palerma haver brigas entre Crestuma e Lever, entre Santa Clara e São Martinho do Bispo. Opomo-nos a um modelo mais federal da Europa, com posições rebuscadas sobre a “portugalidade” ao mesmo tempo que fundimos freguesias pelo país fora.

Sofremos todos de uma espécie de patriotismo oportunista. Vivendo num país onde, tradicionalmente, o que é bom é o que é de fora, onde “importado” é uma marca de qualidade, onde ir “ao estrangeiro” é um símbolo de status (nem que seja um fim de semana na Isla Cristina), deixamo-nos levar de vez em quando pela vaidade nas raras vezes em que um português ganha alguma coisa, e de repente somos todos da selecção, gostamos todos muito da eurovisão e das músicas do festival, somos todos adeptos de judo e do triplo salto. Por uns tempos, Portugal é o maior, e juramos que sempre tivemos o maior orgulho do mundo em ser portugueses. Depois o glamour passa, deixa-se de falar no assunto, perdemos o próximo jogo, o cantor diz ou faz uma alarvidade qualquer, ou passa um mês sem campeonatos de atletismo, e esquecemo-nos todos do nosso fugaz orgulho patriótico, voltamos a ouvir música estrangeira, a comer lasagna e a usar t-shirts da Coca-Cola, e a mergulhar no desporto nacional de dizer mal do vizinho, criticar as escolhas dos outros, metermo-nos na vida das pessoas, ter opiniões sobre tudo, fazer política de café ou nas redes sociais, fugir a qualquer iniciativa séria que vá para além de mandar umas bocas, fazer uns likes, vá, na loucura, ir a um concerto.

Talvez seja, afinal, isso que nos define – não fazermos nada a sério, termos muitas ideias e muito blá-blá e pouca capacidade de concretização, só concretizarmos quando estamos mesmo entalados e nos temos de safar de qualquer forma. Somos provavelmente o povo mais eficaz a inventar, a criar e a fazer e mais incompetente a planear e a organizar. Talvez por isso funcionemos tão bem lá fora, quando a coisa é organizada por outros. Quando somos nós a coisa faz-se, mas à custa de muita ineficiência, custos estapafúrdios, e da capacidade individual de cada um quando a organização falha.

Espantamo-nos muito quando alguém no estrangeiro consegue vender mais laranjas que nós se afinal as nossas laranjas são melhores, consegue ser uma referência mundial no azeite quando o nosso azeite é bem melhor, consegue ganhar campeonatos disto e daquilo quando nós temos jogadores melhores. Não nos devia surpreender que outros, por organização, convergência, foco e objectivos consigam o que nós só raramente temos e só nos acontece quando o brilhantismo de alguém se eleva da desorganização normal. É que os outros congregam-se em torno de coisas mais permanentes e actuais: fazem as coisas com rigor alemão, com fleuma inglesa, com design italiano, com sofisticação francesa. Nós fazemos as coisas como calha, da forma que dê menos trabalho, e só nos lembramos de ser portugueses quando alguém aparece na televisão e aí vamos a correr pôr-nos em bicos dos pés e dizer “eu conheço aquele! andou na minha escola! mora na minha rua!” como quem diz “olhem para mim! sou português! somos os maiores!”, como se o nosso sucesso fosse, de alguma maneira, iluminado pelo sucesso dele. Como se fôssemos luas errantes, e o nosso único brilho fosse o brilho dos outros, quando se reflecte em nós. Como se ser português fosse, sobretudo, isso.

One thought on “A Minha Pátria É Melhor Que A Tua (Quando Ganhamos Coisas)

  1. Florbela
    02/07/2017 at 08:57

    Quanto e tanto azedume, Menino!

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