1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (1 votes, average: 5.00 out of 5)
Loading...

A Resistência

O corpo da mulher é escondido porque representa poder. É escondido pelos homens, por temerem a sua capacidade de manipular, de seduzir, mas, sobretudo, para evitar a demonstração de poder que é a afirmação da feminilidade, da individualidade da mulher. Ao longo das épocas é fácil entender onde e quando os homens se sentiram mais frágeis olhando para a indumentária “aceitável” para as mulheres. As regras de dress code perpetuam isto: as mulheres são proibidas de expor o corpo nos lugares onde o poder é relevante – no trabalho, na sociedade civil, na rua. Vestir-se de forma mais exposta só é aceitável nos lugares de lazer, nos locais onde, na cabeça do homem, ele se quer focar na sedução e na conquista e não na liderança. Esconder o corpo, da forma e na proporção socialmente aceite, é obrigatório para um lugar na sociedade. Quem o não esconde, definiu-se, são as prostitutas, que fazem disso profissão. A criação de um locus social inferior para a prostituta serve não só para menorizar as próprias mas, sobretudo, para evitar que as mulheres em geral tenham a liberdade de fazer do corpo o que queiram, até mesmo de o mostrar, por receio de serem relegadas para essa categoria “inferior”. Das burkas aos saia-casaco, dos soutiens aos fatos vermelhos da Handmaid’s Tale, a objectificação da mulher faz-se tanto pela prisão nas roupas como pela nudez usada para vender carros ou telefones. E se o combate a isto é importante, há que entender que há dois caminhos, o de dar a nudez às mulheres, para que a usem como e quando entendam, livres das regras manipuladoras duma sociedade de homens, e o de a combater como um tabu, retirando às mulheres esse direito com o argumento de proteger a sociedade.

A roupa das mulheres, que deveria ser ao mesmo tempo um objecto protector e uma forma de expressão da individualidade, é, pelo contrário, um jugo repressivo oligarquicamente imposto e socialmente aceite, incluindo pelas próprias.

E, das duas vias do combate, há sempre quem escolha a guerra e quem escolha a submissão.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.