1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (No Ratings Yet)
Loading...

Amar Em Caso De Incêndio

nude-woman-on-fireO amor não se extingue porque tudo arde, e na história do mundo nunca houve um dia, um dia apenas, em que nada ardesse e tudo fosse sereno. Apenas muda a distância a que o fogo irrompe, apenas muda a língua em que os homens gritam por socorro enquanto as casas se lhes dissolvem em chamas, enquanto as vidas se lhes escorrem em cinzas. Parece-nos menor quando não nos gritam na língua do berço, na língua da mama, a tragédia dos outros tem sempre um travo a frutas, um certo pitoresco, capta uns e outros de outras tantas formas, seja o fascínio ou a piedade ou o baço especulativo que há em nós. Muito é diferente quando nos arde a roupa, quando nos arde a pele, quando nos arde a casa – como os penhascos, que são imponentes vistos de baixo, assustadores vistos de cima, e não são uma coisa nem outra para quem cai lá do alto e mergulha no vazio, vazio vazio até se encher tão subitamente de chão.

O amor não se extingue quando tudo arde, não se apaga no sopro da queda no abismo, não se deixa absorver pelo breu da noite, nem pelo frio branco das manhãs. O que se perde na chama, se apaga na queda, se entorna ao cair no chão, é outra coisa: é a conveniência, é a ilusão, é o egoísmo, o altruísmo falso, a inércia, a teimosia.

O amor não se extingue nas chamas, não se afoga nas cheias, não se quebra nos destroços, porque não se ancora na paz, na serenidade, nem na abundância. O amor é outra coisa, e é por ser outra coisa que permanece, quando existe, enquanto tudo arde. O amor que sucumbe nas tragédias é outra coisa, pode ser uma das muitas que se confundem com o amor, não o sendo. Sim, às vezes o próprio amor não chega para fazer frente às vagas, ou para atravessar as chamas. Só nos poemas é que o amor conquista tudo; a vida nem sempre é assim tão simples. Mas se o amor não resolve tudo, muito menos o complica – é ortogonal. O amor é, na vida, tão útil como ser poeta é útil num incêndio. Não te salva o corpo, mas pode salvar-te a alma.

7 thoughts on “Amar Em Caso De Incêndio

  1. anonimo
    08/08/2014 at 21:09

    Escreves mesmo muito bem. Ao ler este texto tive a certeza que sei exactamente o que não é o amor. O que faz com que este comentário não acrescente nada de especial mas é só para perceber que entendo e concordo com quase tudo o que se diz por aqui, a prática é que é mais difícil. Práticar o amor depois de o desaprendermos é muito muito difícil. Embora eu, preferencialmente goste de incêndios que nos mostrem a verdadeira dimensão das coisas ( essas e outras. …)

    1. 26/09/2014 at 21:46

      Obrigado pelas tuas palavras :)

  2. anonimo
    08/08/2014 at 21:13

    esta coisa dos comentários é tramada. Já não se pode fazer um comentário anónimo que isso escarrapacha logo a foto lol. ..

    1. 26/09/2014 at 21:46

      é, é uma coisa muito traiçoeira, sim :)

  3. Alexandra
    05/09/2014 at 11:34

    “O amor não se extingue nas chamas, não se afoga nas cheias, não se quebra nos destroços, porque não se ancora na paz, na serenidade, nem na abundância. O amor é outra coisa, e é por ser outra coisa que permanece, quando existe, enquanto tudo arde. O amor que sucumbe nas tragédias é outra coisa, pode ser uma das muitas que se confundem com o amor, não o sendo. Sim, às vezes o próprio amor não chega para fazer frente às vagas, ou para atravessar as chamas. Só nos poemas é que o amor conquista tudo; a vida nem sempre é assim tão simples. Mas se o amor não resolve tudo, muito menos o complica – é ortogonal. O amor é, na vida, tão útil como ser poeta é útil num incêndio. Não te salva o corpo, mas pode salvar-te a alma.”. Talvez a melhor “definição” de amor que já li (se é que é possível definir, por si só, o que é amor, quando cada ser humano é um mundo, sempre diferente do outro que se encontra ao seu lado).
    Gostei muito do que li, tal como muitos outras coisas que tenho lido neste blog, mas apenas com este post é que me apeteceu comentar :)
    Continuação de boa escrita (à qual ninguém consegue ficar indiferente).

    1. 26/09/2014 at 21:47

      Obrigado, Alexandra :)

      (normalmente não costumo levar um mês para responder, acredita. vou tentar pôr a culpa nas férias, pode ser? :) )

      1. Alexandra
        02/10/2014 at 09:03

        Claro que pode! Essa é sempre uma óptima desculpa. :D

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.