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Amor, Princípio, Meio e Fim

blindfolding a womanAo contrário do que algumas pessoas pensam, o amor não nos tolhe os sentidos. Amar não nos deixa cego, surdo ou mudo – as míticas palas nos olhos, que só deixam ver a pessoa amada, são, quando muito, temporárias, e na maior parte dos casos não existem.

Amar não é ser cego, é ser selectivo. Não deixamos de ver outras pessoas, de as achar interessantes, simpáticas, bonitas, fodíveis. Simplesmente não as queremos foder, não lhes queremos dar certos lugares na nossa vida.

Amar, no fundo, é simples. Amar-te é chegares-me e é preferir-te.

Mas cada um é muita coisa ao mesmo tempo: Posso preferir-te como confidente, e chegares-me, não precisar de outro. Posso preferir-te como companhia, e bastar-me a tua. Preferir-te como parceira, como sócia, como cúmplice, e achar que juntos bastamos para nos apoiar, e que será juntos que nos havemos de fazer às coisas, de nos fazer ao mundo, e que mesmo que nos apoiemos em quem e no que tivermos de nos apoiar, isso será algo que faremos juntos. Posso preferir-te como mulher com quem construir uma vida e uma família, e não sentir a falta de mais nada que tu não sejas. Preferir-te como namorada, e não precisar de mais ninguém para piscar o olho, dar as mãos, beijar, passear, sair. Posso preferir-te como amante, e encheres-me todas as medidas, e não ter vontade de foder com mais ninguém.

Mas nem sempre tudo é assim: podes preferir, mas o outro não te ser suficiente. Podes precisar de ter mais amigos para conversar, sair, brincar, falar; podes precisar de um confidente além do teu marido, além da tua mulher; podes ter um terceiro como parceiro para a ginástica, ou para correr, ou no trabalho, ou para as actividades da associação de pais, e terem juntos planos e sonhos e projectos. Podes querer flirtar, de forma mais ou menos inconsequente; isso pode divertir-te, fazer parte do teu feitio. Há quem perca a capacidade de flirtar com quem ama; há quem embora a não perca, ache que não chega. Podes preferir o sexo com o teu parceiro mas isso não te chegar; e quereres mais, quereres diferente, gente diferente. Tudo isto pode ser normal, aceitável, aceite, ou não. Os limites são variáveis, de casal para casal; são pontos de encontro entre as vontades de um e a tolerância do outro, e vice-versa. E não há receitas: se há quem ache o sexo a última fronteira, proibido fora do casal, outros podem aceitá-lo com leveza, achar que sexo é sexo, e que o que conta é a verdade e a cumplicidade – por outras palavras, “fodes com quem quiseres mas contas-me tudo, e a única pessoa que te vê inteira por dentro sou eu”. De facto, cada um tem os seus limites, mas curiosamente poucos falam abertamente deles, até o outro os cruzar.

Às vezes nem se trata de chegar ou de não ser suficiente: Às vezes, para muitas coisas, nem preferes o teu parceiro. Preferes outro, outra, outros, nesta vertente, naquela, ou em várias, ou em todas. E às vezes isto é normal, noutras acha-se isto normal, não se entende que é um desagregar do que torna alguém especial. É mais fácil entender que amas outra pessoa do que ver que já não amas aquela com quem estás. Se o foco das tuas preferências, em várias frentes, se centrar noutra pessoa, sempre na mesma, mais facilmente reconheces os sintomas de te apaixonar por alguém. E quando não é a mesma? Quando simplesmente, caso a caso, deixas de preferir com quem estás? Quando as tuas preferências, em múltiplas frentes, se focam noutras, sempre em outras, quem amas afinal?

Devíamos preocupar-nos em conhecer estas frentes, traçar estes limites. O que achamos importante? Ao que damos valor? O que estamos preparados para aceitar? O que está o outro pronto a aceitar, e ao que dá valor? Devíamos perguntar-nos, devíamos perguntar. No entanto não o fazemos, porque temos medo de falar de amor quando o amor é menos que incondicional, achamos que ao dizer “amo-te” está tudo dito, e que ao confessar ou aceitar que as relações humanas são teias complexas e que às vezes precisamos de outras pessoas, que isso é amar menos, que isso é pôr em causa o amor.

Não entendemos que é o contrário disso, que o amor se ancora na verdade, cresce pelo conhecimento, que a dinâmica do amor é mesmo esta de querer mais e de ao mesmo tempo ser feliz assim. Que amar talvez tenha mais significado se não fores a única mulher do mundo, mas sim a preferida, se eu não for cego, mas de entre todas, todos os dias, te prefira a ti.

Amar no fundo é simples – é chegares-me, e eu preferir-te, e que o saibamos.

12 thoughts on “Amor, Princípio, Meio e Fim

  1. Joana
    19/05/2014 at 22:35

    Interessante, deveras interessante a forma como vês o amor. A minha dúvida é, quantas pessoas, quantos casais é que tu conheces que tratem de facto este assunto com sinceridade? Tenho os meus limites, que dentro do considerado “normal” hoje em dia são até bastante rigidas no que se refere à entrada de outras pessoas dentro do casal exactamente porque não conheço nenhum caso em que a sinceridade que aqui abordas exista de facto.

    1. 20/05/2014 at 15:11

      Joana,

      A sinceridade é uma coisa, os limites são outra.
      A sinceridade devia ser a base de todas as relações; não há necessidade nenhuma de duas pessoas estarem juntas se é para se andarem a enganar e a esconder coisas uma da outra.
      E a sinceridade começa exactamente por falar dos limites, por os tornar claros, por os tornar explícitos, desde o princípio. A pior coisa que se pode fazer é não dizer nada e ficar à espera “que a outra pessoa mude” de livre iniciativa, e depois vir muito ofendido tempos depois reclamar que se esperou e se sofreu em silêncio para nada. As pessoas não são adivinhos. Toda a gente concorda com isto. No entanto se formos analisar comportamentos há por aí imensa gente que deve achar que casou com videntes… :)

      Quanto a haver ou não sinceridade nos casais, não sei quantos haverá. Quero acreditar que muitos, embora saiba que não são a maior parte. Mas se eu consigo viver assim, e fazê-lo assim, quero pensar que há mais quem o consiga fazer. No entanto, não tendo um consultório sentimental, não tenho números estatísticos para dar… :)

      Quanto ao resto, e voltando aos limites, nota que se pode ser completamente sincero e aberto e ainda assim ter limites muito “apertados”; aliás, não é por os limites serem mais apertados que a sinceridade é menos importante, ou é? Se tens limites mais apertados do que aquilo que dizes “normal hoje em dia”, se, por exemplo, achas que um namorado que conversa no chat do facebook com uma amiga dele é algo que te incomoda, não precisas de mais sinceridade do lado dele para te sentires mais confiante e mais segura, portanto, mais feliz?

  2. Magali
    19/05/2014 at 22:47

    Talvez seja o não conseguir lidar com a existência de outra pessoa numa relação, mesmo que sem sexo à mistura, só o facto de existir outro alguém ( geralmente feminino) com quem se possas preferir estar que me faça desistir de tentar as relações a dois. Ou então será apenas o medo de ser por algum motivo preterida, o medo de perder o lugar, medo da competição ( sou absolutamente avessa a competições por corações e atenções) percebes isso menino?

    1. 20/05/2014 at 15:23

      Magali,

      O ponto é exactamente esse, o de que o preferir é algo que ocorre em múltiplos planos diferentes, e as pessoas 1. não se apercebem disso 2. não tem a frontalidade e a abertura para dizer ao outro quais as suas necessidades e limites em cada um desses planos.

      Se, por exemplo, namoras com quem goste de cinema, mas tu não gostas, e ele, em certos momentos, prefira falar com outra pessoa sobre cinema do que falar contigo, até que ponto isso não é natural? Claro que se passar o dia inteiro a fazer isso, não é muito bom. Mas qual é o problema real? É ser uma mulher e receares que lá porque prefere falar com ela de cinema (que tu não gostas) também vai preferir foder com ela? Ou é mesmo o facto de estar a dar atenção a alguém que não a ti? E qual é o limite disso que tu admites? E ele consegue e quer viver dentro desse limite? Ou quer, mas não sabe se consegue, e é uma coisa para tentarem fazer juntos? Para perceberem que tentar mantê-lo dentro dos teus limites é uma coisa para fazerem juntos, e não uma coisa em que estejas contra ele?

  3. 19/05/2014 at 23:04

    Eu sou muito básica nestas coisas das relações que supõe atracção, amor, o que lhes quiseres chamar, mas sou perita em homens que sabem dizer não com todas as letras e em outros que me levaram a entender que amor não era nada daquilo que eu pensava ser. ( deve ser por isso que gosto de te vir ler) . È o não saber como investir em algum, impondo os limites necessários para que se não me “cheirar” a sinceridade fugir a sete pés, que me leva a não investir de todo. E se me chegar e preferir e esse alguém não me preferir? broken heart again? E estofo e auto-estima para isso tudo? Recolher pedaços de coração partido é uma actividade que persupõe muito esforço por parte de uma mulher, sabias?

    1. 20/05/2014 at 15:37

      Lou,

      Não penses que custa menos a um homem. Nem tem a ver com o género, acho que são feitios. Não são só os corações das mulheres que se partem.
      E também não se sofre só por coração partido, já vi muita gente sofrer mais por despeito do que por desamor.

      Não jogar para não perder? É uma opção. Acho que há casos de amor que passam por cima disso tudo como se fossem murinhos de areia. Mas é uma opção, tão válida como outra qualquer. Há quem prefira ganhar mil e perder mil, há quem prefira não ganhar nem perder nada. A longo prazo não sei quem ganhou mais – quem arrisca tem sempre a possibilidade de acertar. Mas ambas são válidas, obviamente aceito a posição de cada um.

      O que aceito menos é o síndrome de calimero que se vê muito: são uns desgraçadinhos porque amam e perdem, mesmo antes de perder já são uns desgraçadinhos porque amam e é tão bom, mas já sabem que vão perder, às vezes mesmo antes de amar já são uns desgraçadinhos porque já sabem que vão amar, e depois já sabem que vão perder.
      Perdem tempo nisto que era melhor empregue a ser felizes… :)

      (há quem não consiga fazer de outra maneira e caia sistematicamente nisto, sem saber quebrar o ciclo. o primeiro passo é ter consciência de que isto é assim; o segundo passo é querer sair desse ciclo vicioso; depois disso, há imensas maneiras de se ajudar as pessoas, mas os dois primeiros passos têm mesmo de ser elas a dar sozinhas…)

  4. 20/05/2014 at 10:45

    Acho que o que dói nestas coisas do amor é a ideia que depositamos em que o outro nos escolha sempre, por querermos essa estabilidade, essa certeza, como se o amor fosse vitalício. Só que não é.
    É uma escolha, mais ou menos inconsciente, que vamos fazendo, que vamos pesando, que vamos, ou não, querendo. E mais do que uma escolha nossa, é (tantas vezes) dominada pelo que os outros nos causam, ou deixam de causar. Pelo passado dos dias em que não nos sentimos escolhidas, valorizadas ou queridas. Pelo passado de um amor-mobília, com que contamos, que esperamos que cumpra a sua função, que não saia dali.
    E há um dia em que se muda de casa. E o móvel permanece ali. A ganhar pó.
    Até abrirem as portas de novo e lhe sacudirem o desgaste, lhe darem nova pintura e novo uso.
    Até outra mudança de casa. Ou até uma viagem ao caixote do lixo, perante um último olhar para trás, onde se constata que o móvel desapareceu. Porque o lixo ainda não era o seu final e, mesmo no fim, o lixo de uns é o tesouro de outros.

    1. 20/05/2014 at 17:39

      Andreia,

      Concordo em absoluto contigo – a expectativa é a raiz de muita da dor. Sobre a expectativa, a esperança, a legitimidade ou não dela, e a forma de as gerir, de fazer planos sem expectativas ilegítimas, a forma de não sofrer por as ter, e sobre como pensar um futuro sem ter expectativas, sobre tudo isso há muito mais a dizer, muito mais a pensar.

      Mas se vivemos nessa ânsia de saber se amanhã corresponderão às nossas expectativas, muito mais difícil é que isso aconteça se nem sequer dissermos que esperamos; se nem sequer dissermos o que nos importa, o que é relevante para nós.

      Mas também há quem não nos queira ouvir, quem não queira falar connosco; quem nem sequer tenha pensado no que quer da vida, e se limite a exigi-lo aos outros quando lhe passa pela cabeça, a exprimir o seu desapontamento com a primeira coisa nossa que lhes ocorre, bastando para isso estar chateados com outra coisa qualquer da sua vida. Se calhar são esses o lixo, e não nós.

  5. Lou
    20/05/2014 at 17:01

    Ahahaha!! Tu és terrivel :D . Eu bem me tento esconder mas tu não deixas . Olha que coisa linda que aqui ficou lloll. Típico :) !!! Não querendo fazer de ti o meu consultório sentimental, mas fazendo, e uma vez que considero os teus conselhos dos melhores que recebi, tens ideia de como se quebram os ciclos? ( ando meio tipo colimero ultimamente :) e quero muito andar com isto para a frente.

  6. 27/11/2014 at 18:00

    Descobri recentemente o seu blog e desde então tenho vindo a descobrir alguns textos mais antigos.
    Gosto mesmo muito de o ouvir (ler) e por várias razões:
    1ª Porque usa muito bem a língua portuguesa e todas as suas nuances;
    2º Porque aborda temas supostamente tabu com uma frontalidade desconcertante, mas sem cair no vulgar;
    3º Porque me identifico com muitas das suas ideias, mas ao mesmo tempo, acrescenta valor e apresenta sempre um ponto de vista sobre o qual ainda não tinha pensado;
    4º Porque gosto de ouvir pessoas sem medo, que falam abertamente, sem receio de serem julgadas pelo que dizem e pensam
    e por último, porque é homem, e é bom ouvir uma opinião masculina sobre estes assuntos, para variar…

    1. 04/12/2014 at 08:23

      Elsa,

      Obrigado pelas tuas palavras.
      Embora se escreva por razões que não são apenas o feedback, é sempre muito bom tê-lo.

      Obrigado :)

  7. Out
    11/05/2017 at 14:07

    Agradável surpresa a descoberta deste blog.
    E por causa de um post que alguém partilhou sobre a arte do minete.
    Mais agradável ainda foi ler Amor Princípio Meio e Fim desta forma. Livre. Espontânea. Clara. Aberta. Simples. Complicada.
    Complicada quando alguém sente que amor não tem obrigatoriamente a ver com paixão, que sexo é sexo, não precisa de amor e que precisa de amor, sexo e paixão para viver.
    Simples quando encontras alguém com quem sabes que queres partilhar a vida toda e que existem mundos infinitos de coisas boas para partilhar.
    Complicado quando paixão e sexo não fazem parte dessas coisas.
    O que se faz quando se quer aquela pessoa, já se disse o que se gostava de ter daquela pessoa e ainda assim a pessoa não consegue dar mais? Como se consegue perceber onde perdemos menos? Se deixamos a pessoa e vamos à procura do sexo ou se ficamos com a pessoa e perdemos o sexo?
    Raios parta, o que devia ser tão simples é tão complicado.
    As diferenças nos horizontes, nos limites, nas mentalidades podem ser tão redutoras…
    Bom, já deixei o meu desabafo…para a próxima vou ao psicólogo, prometo!!!!

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