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Aquilo Que Te Digo, E Que As Facas Não Cortam

É sempre longe e de noite, é sempre ao longe e no escuro que nascem as palavras. Nascem das bocas abertas e das mãos fechadas, das bocas que sopram e das mãos que brandem, dessas mãos semicerradas que brandem as penas. É sempre de noite, no escuro, que nascem as palavras, nascem as palavras negras que depois brotam brancas, da terra das bocas, da terra das mãos.
Para que servem as palavras?, perguntavas. E eu não sabia dizer-te para que era. Não antes de te amar, não o sabia antes de me dar a ti inteiro e não ter mais para te dar e não te saber mostrar quanto me dava.
De não te saber dizer que te amarei amanhã, que quererei dormir hoje querendo querer amar-te amanhã.
O amor, há um amor que é feito de palavras.Um amor feito de palavras que só por palavras se dá, que só por palavras se corta.Os corpos, sabe-o, encostam-se por actos, mas atam-se por palavras.Os actos não mostram vontades, não furam o passado e o presente.As palavras, as palavras inventaram o futuro. O futuro existe só nas palavras. O futuro que há fora de nós existe só nas palavras.
Acha-las frágeis, as palavras. Que são frágeis alicerces para a casa do amor. Mas casa não é onde vives, casa é para onde voltas. E o voltar é um acto feito de futuro, do futuro que se constrói nas palavras. E as palavras são matéria que quase nenhum gume corta. Nada corta as palavras, senão gumes feitos delas. O gume que talha o futuro é o mesmo que esculpe o amor. O mesmo que corta o amor.
As palavras são a luz no escuro, e são as mãos, que se dão e ficam dadas, mesmo ao longe.
Faca alguma corta o escuro. Nem o fio mais fino dilacera a escuridão. Nem faca alguma corta o longe, que só fica tão mais longe se mais facas se interponham. Faca alguma corta o corpo das palavras senão aquela que esculpes de palavras afiadas, que enterras contra o peito de si mesmas e que puxas, desvairado, desfazendo em palavras o futuro, desfazendo em palavras o amor.
Faca alguma corta o escuro.
O escuro é o que resta quando o futuro se apaga.

6 thoughts on “Aquilo Que Te Digo, E Que As Facas Não Cortam

  1. 06/11/2013 at 08:30

    adorei o teu texto. de alguma forma, fez-me lembrar este: http://xilre.blogspot.pt/2013/11/a-faca-nao-mata-palavra.html

    :)

  2. 06/11/2013 at 08:39

    nAn,

    Obrigado :)

    Foi escrito depois de ler o do Xilre e este teu aqui:

    http://anonimadosenes.blogspot.com/2013/11/descubro-dois-meses-do-fim-qual-minha.html

    Não sendo uma resposta, pode haver ali um mote, que pode :)

    1. 06/11/2013 at 11:34

      :)))

      «Pobre do aluno que não ultrapassa o mestre.» com as devidas adaptações, fui magnificamente ultrapassada pelos dois ;)))

    2. 06/11/2013 at 11:45

      Ah, e eu que continuo a achar que nisto de escrever ninguém ultrapassa ninguém… :)

  3. 19/01/2014 at 00:56

    Tiras-te-me as palavras da boca e não foi a primeira vez. Descreves o teu sentimento de uma forma tão madura que me sinto muda diante disto tudo que aqui vejo. As palavras são muitas vezes o sossego que procuro e as facas que utilizo para me manter segura no vazio que realmente,como dizes só se preenche de palavras. Mas não é fácil. É bom saber que tu menino ( meu guru do. Amor) acreditas que as mãos se podem manter dadas, mesmo ao longe. ( e ficava aqui a dizer mais uma série de coisas-falo pelos cotovelos – mas acho que para coragem de primeira vez já não está muito mau :D )

    1. 22/01/2014 at 09:33

      Tita,

      Bem-vinda ao grupo dos que comentam – falar pelos cotovelos não é necessariamente uma coisa má :)

      E sim, as mãos, quando são realmente dadas, são dadas por dentro – a cumplicidade não é uma coisa que diminua com a distância, se houver vontade de parte a parte. Além disso para nós é tudo mais fácil, o século 21 anula alguns dos efeitos da distância…

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