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As Criancinhas De Hoje Não Percebem Nada Disto

É Jung quem melhor explica a ideia original de Platão: todos temos arquétipos, conceitos abstractos de todas as coisas; e se, em Platão, estas formas eram vagamente místicas, superiores, pré-existentes, com Jung surgem fruto do nosso próprio raciocínio, conceitos herdados, adquiridos, apreendidos dos outros e disto que é a cultura humana, as marcas que fazemos no mundo e que permitem registar e ter acesso às ideias de gente que não vimos, com quem não falámos, que estava morta antes de nascermos. E, porque são produto da nossa própria mente, a nossa visão dos arquétipos é, pode ser, ligeiramente diferente para cada um de nós.

É pelos arquétipos que pensamos quando idealizamos algo em abstracto, e inevitavelmente comparamos cada coisa que vemos, cada pessoa que conhecemos, com essa imagem ideal de algo que só existe intelectualmente.

Todos temos a nossa visão arquetipica do que é ser criança, e tem partes boas e partes más.

Principalmente tem de bom a falta de malícia, o entusiasmo, a capacidade de nos encantarmos com as coisas; de mau tem a irresponsabilidade, a inconsequência, as birras, a falta de noção das coisas.

Comparamos, claro está, as crianças contemporâneas com este arquétipo, e comparamo-las também com as crianças que fomos, ou, sobretudo, com as crianças que imaginamos que fomos, que nos lembramos de ter sido, que idealizámos ter sido. E encontramos diferenças, todas as gerações as encontram, especialmente agora que o mundo anda mais depressa, inventa mais depressa, muda mais depressa.

Damos por nós a pensar que as crianças hoje deixam de ser crianças mais cedo, vemo-las a perder mais cedo o encantamento, a achar tudo banal porque tudo está, desde tenra idade, disponível e acessível. Vemo-las, desde cedo, a tornar-se manipuladoras, interesseiras e egoístas, mergulhadas desde o berço num mundo onde quem manipula chega à frente. Vemo-las perder o interesse muito cedo no que era, há umas décadas, “juvenil”, livros e filmes e arte que tinham, achávamos no nosso tempo, algum conteúdo formativo.

Depois pensamos que hoje, afinal, só se deixa de ser criança muito cedo para as coisas boas, e que, pelo contrário, ficam até demasiado tarde as coisas más. Que as crianças hoje crescem, se tornam bebés de vinte anos, e continuam irresponsáveis, inconsequentes, birrentos, com a noção de que têm direito a tudo e que tudo lhes é devido.

Depois paramos e pensamos, tiramos a máscara de arquétipo à criança e ao adolescente que nós próprios fomos, deixamos que a memória e o real venha ao de cima, e recordamos que também éramos birrentos e egoístas, que brincávamos à química em casa até aquilo pegar fogo, que não havia semana em que o quadro eléctrico não fosse abaixo, que líamos Jung antesd do tempo sem entender aquilo muito bem, mas pensando que éramos brilhantes e aquilo era claro como água, que ouvíamos Pink Floyd com doze e Smiths com catorze, que o Run to the Hills saíu em ’82, que líamos Remarque e Camus como quem lia Tolkien e Bradbury e K. Dick, num mundo onde não havia ainda a internet.

No nosso tempo não ficávamos na net até às duas da manhã, nem passávamos a tarde de domingo a ver youtubers a fazer parvoíces, mas roubávamos fruta, bebíamos cerveja e vinho às escondidas, começávamos a fumar aos onze. Não havia cultos depressivos que se espalhavam online, mas ouvíamos Joy Division e Xmal Deutschland e vestíamo-nos de preto e fechávamo-nos nos quartos, porque achávamos que ninguém nos entendia, que éramos demasiado modernos, que os nossos pais nunca entenderiam aquilo por que estávamos a passar.

Hoje olhamos para as crianças e não nos ocorre que aqueles somos nós, outra vez. Claro que não somos. Eles são muito pequenos e não percebem nada disto.

 

 

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