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Blanks For When Words Gone

Durante anos, tentei escrever um livro em Novembro. Falhei sempre, e não tenho a certeza de ter falhado cada vez melhor. Reflicto sobre o valor do branco, da frase não escrita. O valor do que não fazes, é comensurável com o que terias feito? É diferente não escrever uma frase e não escrever um livro? A diferença entre perder um autocarro e perder um avião não é o tamanho da viatura: é a frequência, é o destino, é o custo. A diferença entre não escrever e estar quieto é decidir ter escrito, e as frases curtas não se decidem, só se fazem. Só se falha o que é grande. Só se falha o que tem momentos próprios, o inadiável. Quase tudo é adiável mais um dia, somos maus a impôr prazos a nós mesmos. O último limite da procrastinação é a morte. Só aí entendes que aquilo que não fizeste não o farás mais. E é esta a consciência que dói, a do ter falhado. Quanto mais vale a morte súbita e sem consciência do que essa morte planeada, conhecida, antecipada, do que a degenerescência, do que a perda consciente da capacidade de fazer, de alguma vez vir a fazer. E no entanto sabe-lo: que tudo passa, que a morte é certa, que nada dura. E ignora-lo, como se a consciência disso fosse o seu próprio antídoto.

One thought on “Blanks For When Words Gone

  1. Paulo Silva
    17/11/2017 at 16:17

    Lindo texto, para não falar na escolha da foto.
    U R The Best!

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