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Cem Coisas Que Precisas De Saber – Coisa #52 – A Pessoa Do Lado Está-Se A Cagar Para Ti

https://www.facebook.com/ritarochaphotography/Somos todos egoístas: ao longo de milhares de anos, desde o paleolítico, o altruísta que deu a alguém o último bife de mamute acabou por morrer de fome. Nós somos os filhos dos que comeram o bife, somos egoístas por evolução e por natureza. Até o altruísmo é uma forma de egoísmo. Somos bons para os outros porque isso nos faz sentir melhor. Somos gentis porque dá menos trabalho que ser brutos, ou porque a longo prazo achamos que isso vai ser melhor. Para nós, obviamente.

Uma parte evidente desse egoísmo é acharmos que a nossa opinião é importante. E é, de facto, importante, mas só para nós. Vá, pode ter valor para um grupo muito restrito de pessoas. (O nosso valor mede-se melhor depois de morto, contando o número de pessoas que foram, sem ser por engano, à nossa missa de trigésimo dia.) No campo aberto que é o mundo, e que inclui os colegas, os amigos, os conhecidos, os vizinhos, ninguém quer saber da tua opinião. Claro que a podes dar, e certamente a dás, frequentemente sem que ta peçam, e frequentemente o destino que lhe dão é o mesmo que tu dás aos panfletos dos Prof. Karamba que te dão à porta do metro. Agradeces, olhas dois segundos, e lá vão eles a contribuir para que Portugal seja tão bom na reciclagem.

Se viermos para a internet, então, isso é duplamente verdade. Ninguém quer saber o que tu achas, nem como te sentes. O que escreves, o que dizes, o que partilhas, serve sempre um fim mais simples, mais directo e imediato: ou informa alguém de alguma coisa, ou é giro, divertido, ou provoca uma emoção qualquer, ou serve para gozar contigo, ou te invejar, ou te odiar, ou a outra pessoa qualquer, ou então não serve mesmo para nada. Em qualquer dos casos, tudo aquilo que partilhas, as opiniões que dás, valem o tempo que leva a lê-las. É raro alguém pensar sobre o que leu, é raro alguém lembrar-se de que alguém, num canto qualquer da internet, escreveu ou disse alguma coisa que nos abriu uma porta, que nos abriu um olho, que nos fez pensar de outra maneira, ou agir de outra forma.

E se é fácil esquecer o que se lê, mesmo quando é mais denso, estruturado, mais pensado (ninguém lê os posts longos, dão demasiado trabalho, não há tempo para coisas que dêem trabalho, ninguém se quer dar ao trabalho, porque toda a gente se está a cagar para a tua opinião) mais fácil é esquecer os comentários, que servem para entreter, na esperança de que alguém se pegue com alguém e nos possamos rir de alguém, odiar alguém, apoiar alguém, nos emocionar por dez segundos com alguém.

É talvez esse o fascínio das redes sociais, o comentário curto que não consome tempo, o texto que é abreviado se passar das cinco linhas, para não cansar ninguém, para não maçar ninguém com blocos de texto tão grandes, sem imagens, cheios de opiniões de gente, que não interessam nada, só se forem curtas.

Talvez tenham razão, os que não querem saber da tua opinião. Todos achamos que sofremos muito, que nós é que sabemos como é difícil, porque o gaijo do lado, com a perna amputada, o cabrão já não tem dores, não sabe o que se sofre com uma unha encravada, o filho da puta, e está para ali com merdas; e o outro, o da cadeira de rodas, se o estupor soubesse o que é acordar estremunhado e bater com o dedo mindinho do pé na cómoda. As nossas dores, obviamente, são maiores que as dos outros. Aquilo por que passámos ensinou-nos mais do que o outro alguma vez vai saber, e é alternadamente um choramingas, um mete-nojo, um cobarde, um privilegiado, um merdas. Nós é que sabemos o que é ser discriminado. Nós é que sabemos o que é pobreza. Nós é que sabemos o que é a dor, porque a ele morreu-lhe a família toda mas foi só de uma vez, deu perfeitamente para ultrapassar, a nós morreu-nos o peixe e o periquito com três anos de intervalo, foi uma década a sofrer.

A pessoa do lado lê estas merdas e está-se a cagar para ti. E provavelmente faz bem.

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