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Chego Lá, Ela Ri-Se E Manda-Me Embora

Os homens usam cuecas por três razões, duas de conforto e uma de higiene e conveniência. Usam cuecas porque o tecido das cuecas é mais suave que o das calças, usam cuecas porque lhes segura as partes no sítio e evita que andem ali a abanar e a roçar nas calças, e usam cuecas porque isso permite usar as mesmas calças mais do que um dia.

Admito que possa haver homens que usam cuecas propositadamente para lhes enfiar lá dentro um par de meias enrolado e, com isso, dar ao mundo a impressão de que têm uma pila muito grande. Acredito, no entanto, que estes casos sejam uma reduzida minoria.

O motivo desta reflexão tem pouco a ver com homens, e tudo a ver com mamas e com soutiens.

Imagino que há mulheres que usam soutien por conforto. Porque têm mamas grandes e pesadas, e o soutien ajuda a distribuir o peso pelos ombros. Porque evita que as mamas abanem, saltem, andem de um lado para o outro ao mínimo movimento mais brusco. Ou porque evitam que os mamilos rocem nas camisolas e cheguem ao fim do dia doridos.

Mas muitas mulheres não usam soutien por nada disto, o que nos faz pensar que se não é por nada disto, então porquê?

Se os soutiens fossem maioritariamente vistos como uma coisa confortável, a pergunta seria ridícula. Cada um usa o que quer e lhe apetece, e ninguém tem nada a ver com isso. E, individualmente é de facto assim. Mas, de um ponto de vista sociológico, faz sentido colocar a pergunta – por que razão há tanta gente, uma tão larga percentagem da população de países inteiros, que usa uma peça de roupa que lhes causa desconforto?

Há várias justificações frequentes. Uma é o hábito. Mas questiono-me se o hábito, quando desconfortável, é de facto uma razão ou só um pretexto para não encarar um motivo mais profundo.

E os motivos mais profundos são, a meu ver, essencialmente sociais.

A motivação social é recorrente no vestuário. Quase todos nos vestimos por causa dos outros; numa ilha deserta usaríamos, provavelmente, roupa bem diferente. Mas se há roupa que não chateia ninguém e hábitos que incomodam pouco, outros há, como o soutien, que são para muitas das suas utilizadoras motivo diário de desconforto. E é principalmente aí que estabeleço um limite: provocar o desconforto quotidiano de alguém por razões de convenção social parece-me errado, discutível, condenável. E, como a maior parte das questões sociológicas, tem de ser combatido não o sintoma mas a sua origem mais profunda, a sua base.

Porque há, então, uma motivação social para que as mulheres usem soutien?

Acredito que há duas respostas, uma de natureza restritiva e outra prescritiva.

Em termos restritivos, a moral vigente tem qualquer coisa contra os mamilos. Não contra os mamilos em geral, mas especificamente contra os mamilos das mulheres. Uma das principais razões para usar soutien é não ir para a rua com os bicos das mamas espetados. Faz-me imensa confusão pensar porquê. A mama não é, obviamente, um órgão sexual. Também se usa a boca e as mãos durante o sexo, e ninguém anda de luvas. O pescoço também é uma zona erógena e ninguém o tapa. De forma mais caricata ainda, bane-se o mamilo mas aceita-se o seio: ninguém no mundo ocidental advoga que as mulheres disfarcem as mamas: pelo contrário, a indústria dos soutiens difunde e suporta a imagem da mama maior, mais firme, mais empinada, ao mesmo tempo que esconde o mamilo.

Há mulheres que só usam soutien no Verão – que é a altura mais patética para usar soutien, porque aquece, faz suar debaixo da mama, aperta, etc. e no entanto é no Verão que o usam, porque o Verão convida a roupa mais leve, mais fresca, mais vaporosa, mais transparente. No Inverno as blusas são mais grossas e disfarçam os mamilos. Usam-se camisolas interiores. Não querendo no Verão usar duas blusas, uma por cima da outra, o soutien surge como ocultador do mamilo.

Mas a motivação do soutien não se faz só da punição do mamilo. A sociedade, além de punir, também obriga e constrange, de forma por vezes silenciosa. Há uma prescrição surda e não escrita de que as mamas são bonitas de um certo tamanho, com uma certa firmeza. E há uma competição organizada para que as mulheres tenham um certo aspecto, pareçam bem. Isto não tem nada a ver com homens nem com selecção sexual, embora possa ter começado assim. As mulheres competem, aparentemente, umas com as outras, nas ruas, nas fábricas, nas escolas, nos escritórios. Poucos homens discriminarão uma mulher profissionalmente por ter as mamas pequenas ou descaídas. O tipo de homem que o faz está já a julgar a mulher como ser sexual, o que não pode ter lugar num contexto laboral. No entanto, há mulheres, muitas mulheres, que se preocupam não só com ter um aspecto limpo, saudável, profissional, mas também com o facto de precisarem de uns elásticos e mais ou menos chumaços  para alterar ou “corrigir” a forma natural do peito.

O que nos traz à questão da auto-estima. Toda a gente tem o direito de escolher a sua imagem. O difícil é acompanhar as expectativas – reais ou imaginadas – de terceiros. Vejo toda uma indústria montada em torno de fazer com que as mulheres tenham um certo aspecto, e ao mesmo tempo não vejo essa pressão sobre os homens. Existe, mas funciona de outra forma. Os anúncios têm rapazes com abdominais definidos, mas não há uma mega-indústria das cintas para que os homens na rua pareçam ter menos barriga. Provavelmente os homens não iriam aderir, pensariam todos “então, pareço magro, a gaija interessa-se, depois chego lá, tiro a cinta, ela ri-se e manda-me embora…”. Aparentemente as mulheres não se preocupam tanto com o que pode acontecer se alguém lhes tirar o soutien. Talvez porque não o vistam para que alguém lho venha tirar. Talvez porque saibam que o homem médio, depois de a apanhar sem ele, dificilmente se vai embora.

2 thoughts on “Chego Lá, Ela Ri-Se E Manda-Me Embora

  1. Mariana
    20/09/2017 at 11:00

    Alguém que faça uma TED Talk ou qualquer coisa assim para esclarecer de uma vez por todas que o soutien não é desconfortável. O soutien do tamanho errado é que é desconfortável. De resto, exceptuando nas situações em que privilegiamos a horizontalidade, o soutien, por definição, segura as mamas, o soutien é amigo.

    1. 20/09/2017 at 12:52

      Mariana,

      Não falo por experiência pessoal, portanto o que tenho a dizer vale o que vale. Conheço quem use soutien o dia inteiro e não se queixe, até há quem durma com ele por se sentir mais confortável. Ao mesmo tempo já tenha experimentado diferentes tipos e modelos e tamanhos de soutiens e reitere que se dividem entre os que não fazem o que é suposto (não seguram bem) e os que, fazendo-o, desconfortam.

      Acho lindamente que alguém tenha conseguido encontrar soutiens que lhe proporcionam conforto e apoio. Acredito é que não é uma coisa universal. Aliás, tendo eu já visto muito soutien e uma quantidade não desprezível de mamas, continuo a ver uma diversidade nas formas, tamanhos e implantação das mamas a que a diversidade dos soutiens não corresponde.

      Certamente algumas leitoras poderão comentar sobre a sua experiência pessoal no uso do polémico artefacto. :)

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