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Cinzas

PhoenixEnganas-te se pensas que o amor já vive em ti, e que o dás a quem queres, a quem o quer.

Sabe que o amor não existe antes de amares – não há amor excepto o concreto, com destinatário; tudo o mais é desejo, vontade, ansiedade.

Não há ninguém que esteja “cheio de amor para dar”; até amares alguém, não tens amor nenhum – o amor é todo feito por medida, dia a dia, para alguém e por alguém.

E, quando termina, apaga-se como uma chama; de súbito, por vezes, outras vezes esmorecendo lentamente até não restar nada.

Tens de entender que o todo o amor é uma fénix que nasce das cinzas do anterior. E o amor novo nada tem do antigo, nada há na chama nova da chama extinta.

Pelo meio existem cinzas. As cinzas que restam quando o amor morre. Se o amor nasce do mais fundo de nós mesmos, essas cinzas são o que há no centro.
Talvez não as tenhas até teres amado e perdido. Talvez se tornem mais finas e puras, à medida que ardem de amores sucessivos. Talvez todos os amores antes do último sejam, apenas, a purificação das cinzas, a preparação da última fénix.

Tantos se encantam com o fogo, e não vêem que a beleza está na essência humana, essa que é tanto do fogo como das cinzas, num ciclo que se repete até haver um ciclo que não termina.

E se não tens fogo por dentro, sai à rua, na mesma, com orgulho, como se ardesse em ti uma promessa, como se soubesses que o que te faz andar é muito mais que um monte de cinzas frias que trazes dentro do peito.

11 thoughts on “Cinzas

  1. N
    05/03/2014 at 21:12

    do amor, entendo pouco. mas o teu texto fez-me lembrar as palavras do magnífico eduardo galeano,

    “…Cada persona brilla con luz propia, entre todas las demás
    Hay fuegos grandes y chicos y fuegos de todos los colores
    Hay gente de fuego serenos, que ni se entera del viento
    Y hay gente de fuego loco, que llena el aire de chispas
    Algunos fuegos,fuegos bobos, no alumbran ni queman
    Pero otros…
    Otros arden la vida con tantas ganas
    Que no se puede mirarlos sin parpadear
    y quien se acerca se enciendea”

    http://www.youtube.com/watch?v=I0TvcalhRFc

    beijo

    1. 05/03/2014 at 21:30

      N,

      Eu do amor não entendo nada, e da vida ainda menos, só percebo um bocadinho de cair e de levantar-me. E de sorrir.

      Obrigado pelo Eduardo Galeano – mais um com a lucidez dos homens do Sul (do Sul que há por dentro, o Sul que interessa é sempre um Sul que há por dentro).

      :)

  2. 06/03/2014 at 23:30

    Nunca ninguém entende nada de amor eainda assim o busca incessantemente. Acho piada aos teus primeiros parágrafos ( sendo que piada é uma forma de expressão irónica) , que bom seria se todos os amores fossem correspondidos, serão amores para ti? Percebi que sim. E o que se faz com as cinzas de um amor que arde mas que já queimou tudo o que havia para arder? Ou seja, como é que se esquece alguém que se ama se não aparece ninguém interessante em que valha a pena apostar, acreditar? É complicado, tens noção? Às vezes acho que deviam haverppílulas de desapaixonamento…

    ( viajei agora… :D )

    1. 06/03/2014 at 23:42

      Tita,
      Não há amor que já tenha queimado tudo o que havia para arder. Se queimou tudo, apagou e são cinzas, mesmo que tenha queimado a alma e a carne e o osso.
      O amor, correspondido ou não, existe enquanto o alimentas, enquanto lhe dás, e/ou quem amas lhe dá, lenha para arder.

      As cinzas, essas, já não são amor, por isso não são de ninguém senão tuas. Podem estar cheias de memórias, e são diferentes do que eram, por causa de todos os amores que arderam e que acabaram, mas são exclusivamente tuas, não fazem nada por ninguém.

      Ver amor e ver alguém nas cinzas, ou é ilusão, ou são é brasas mal apagadas lá por baixo.

      E o amor, já sabes, só nasce das cinzas frias.
      Só é bom e justo nascendo das cinzas frias.
      Ninguém quer ter uma chama que vem das brasas que ardiam por outro alguém.

      (é cruel, é triste, mas é assim)

    2. 06/03/2014 at 23:44

      (e podia dizer-se muita coisa sobre o amor que nasce sobre brasas mal apagadas, e tecer mil teorias sobre como não tem nada a ver, como é tão genuíno como outro qualquer, como suplanta o primeiro, como as brasas ao fim de um tempo já não estão lá porque a nova chama as consumiu, mas… na verdade nunca sabes.)

      1. 06/03/2014 at 23:53

        Eu sei.
        De não saber e dúvidas percebo muito. Entendi perfeitamente o que quiseste dizer.
        Talvez a grande diferença, esteja no facto de achares que para se amar verdadeiramente ser necessário querer estar ( e isto pode ser dúbio) . A coragem é uma coisa extraordinária. E para amar alguém verdadeiramente é preciso muita coragem. Ninguém gosta de ouvir um não.

      2. 07/03/2014 at 02:28

        Tita,

        O amor com destinatário não significa nem que sejas correspondido nem que o consumes. Podes amar verdadeiramente e nunca o dizer sequer – porque és tímido, porque não podes, porque ela não pode, porque tens medo, por mil razões.

        O amor requer coragem. Para arriscar iniciá-lo, e para o manter todos os dias. Coragem não significa esforço – significa assumir o risco de abrir o peito, de tirar o coração lá de dentro e depositá-lo inteiro nas mãos de alguém. Correndo o risco.

        1. 07/03/2014 at 14:08

          E quando correr o risco já implica um enorme esforço? ( por inumeras razões das quais não consegues tirar o peso? ) Há pessoas para quem arricar de novo perder, pode ser uma tragédia Grega.

  3. 06/03/2014 at 23:53

    Isto do amor é sempre assunto delicado mas esta metáfora das cinzas está bem elaborada, e é também com o acumular das cinzas que uma pessoa vai aprendendo para fazer renascer essa tal fénix sempre melhorada, se bem que há quem nunca aprenda mas isso é toda uma outra temática.

    1. 07/03/2014 at 02:29

      Margas, é verdade, isso é a porta para outro tema, quase da mesma dimensão deste…

  4. eu
    07/03/2014 at 17:49

    Talvez sem querer nos últimos anos tens-me ensinado muita coisa. Dantes achava que viver sem amor não valia a pena. Tentei encontrar esse amor, substituí-lo por outros tipos de amor, diferentes do amor conjugal , e compreendi que não se pode substituir. Hoje descobri que é bem melhor viver sem querer amor conjugal. O fogo que provoca, quando não se extingue, queima muita coisa, especialmente o amor próprio e esse é de todos o mais difícil conquistar. Admiro a coragem de quem consegue estar constantemente a recomeçar, já que não sou capaz de o fazer. Admiro quem consegue conquistar , perder , reconquistar sempre com a mesma força de vontade.
    De qualquer das formas aprendi aqui que não cheguei a ser amada e que não há nada que se possa fazer para que alguém nos ame. Ou ama ou não ou quer ou não. Assim aprendi a viver sem o sonho do amor conjugal ( o que não significa falta de esperança significa esclarecimento) obrigada!

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