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Como Uma Burqa, Mas Para As Mamas

O Islão define um dress code para as mulheres baseado na “modéstia”, com o argumento de que as mulheres se devem cobrir de forma a não provocar tentação nos homens. Os homens são desresponsabilizados pelo seu mau comportamento, como se considerássemos natural que os homens não se consigam conter ao ver uma mulher sem se lhe dirigir, como se fosse das mulheres a culpa se os homens ficarem excitados ou as tentarem violar. É esta a justificação base da burqa, do niqab, de todas as regras de vestuário impostas à mulher muçulmana.

No mundo ocidental criticamos esta atitude dizendo que é ofensiva aos direitos das mulheres, e que cada um deve ter o direito de vestir o que quiser. E, no entanto, temos e impomos às mulheres ocidentais exactamente o mesmo tipo de regras.

Não há diferença objectiva entre forçar alguém a usar uma burqa ou forçá-la a usar tops, saias ou bikinis. A diferença entre a burqa e um top é uma questão de estilo e uma questão de hábito – o princípio é o mesmo. É hipócrita querer salvar alguém das regras arbitrárias de vestuário de uma civilização para lhes impor as de outra.

E não colhe o argumento de que as mulheres ocidentais escolhem, defendem ou apreciam o dress code que lhes é imposto: também há muçulmanas que defendem o hijab, senão o niqab ou a burqa, e a resposta ocidental é que não sabem o que dizem, que estão endoutrinadas pela patriarquia islâmica, que é peer pressure, aculturação, que foram criadas naquela prisão e agora estão condicionadas pelo hábito. Proponho que o mesmo se poderá dizer da mulher ocidental, que acha que se tem de andar vestido porque sempre viu toda a gente vestida, que acha que os saltos altos são bonitos porque alguém lhes vendeu isso desde pequena, que acha que tem de usar soutien porque tem medo de excitar os homens se mamilos forem demasiado óbvios por debaixo da blusa.

Os muçulmanos do tempo de Mohammed provavelmente excitavam-se se vissem qualquer parte do corpo de uma mulher, tal como os vitorianos se excitavam por ver um tornozelo, ou como se presume que um qualquer frequentador moderno de uma rede social ferve de emoção ao mínimo vislumbre de um mamilo. Ao longo dos tempos foram mudando os critérios do que é aceitável e o que o não é, e hoje as mulheres – mesmo com toda a liberalização de costumes das últimas décadas – ainda andam mais vestidas do que em qualquer corte renascentista, em qualquer taberna medieval ou em qualquer cidade da grécia clássica.

E isso, em si, não tem mal nenhum – ou não o teria, se correspondesse a uma vontade efectiva das mulheres, e não à transposição para a roupa de um conjunto de ideias mais ou menos rebuscadas de uma qualquer facção religiosa. Defendo, com veemência, a liberdade individual, e acho que cada um deve vestir o que lhe der na real gana. Apreciaria um dress code com mais nudez, mas essencialmente com mais liberdade, de todos os lados. Não acho que a nossa sociedade se transformasse da noite para o dia apenas pela abolição de uma ou duas leis. Há demasiada pressão social e cultural; se, por exemplo, houvesse mulheres que, protegidas pela lei, decidissem vir trabalhar de mamas expostas, mamilos e tudo, sofreriam, por um lado, o incómodo de ter nelas os olhares de toda a gente, incluindo alguns com mais ou menos bem disfarçada lascívia, senão comentários directos, e, por outro lado, os olhares reprovadores, imagino, das outras mulheres que não tivessem aderido à moda. É isto que acontece quando uma mulher, em pleno século 21, decide vestir-se de qualquer forma que não lhe esconda o corpo: os homens (alguns, não todos, mas os suficientes para estorvar) babam-se e são incómodos, as mulheres (algumas, não todas, mas as suficientes para estorvar), por uma qualquer dor de cotovelo mal resolvida, falam por trás e chamam-lhe puta.

No meio desta situação, a hipocrisia de muitos, e a de alguns movimentos, é a de gritar a plenos pulmões contra a burqa mas não entender que nós próprios, na nossa sociedade tão moderna, impomos, não só por lei como por pressão social, regras de vestuário tão severas e criticáveis como as de outra civilização qualquer. Que, mutatis mutandis, quando ouvimos falar de famílias no Islão que renegam a filha porque quis tirar a burqa, isso é demasiado parecido com os pais de família portugueses que vociferam, diariamente, pelo país fora, “filha minha não sai à rua vestida assim”.

E não entendem que enquanto a forma de impedir a luxúria de uns, a inveja e o vitupério de outras, for obrigar toda a gente a esconder-se, passar para a vítima a responsabilidade de não provocar nem chocar o malfeitor, a sociedade não presta, por mais que achemos que somos modernos e avançados não o somos, por mais que achemos que defendemos as liberdades e os direitos não o fazemos, apenas perpetuamos, como uns velhos, a pequena moral burguesa dos nossos pais, dos nossos avós.

E, tantas vezes, quem a perpetua e defende são as mulheres, embrulhadas nas suas burqas-para-as-mamas, onde nem os olhinhos se lhes podem ver.

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