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Contributos Para Uma Semântica da Traição

siamese_twins_by_nakedbloomsinsnow-d3i2b20Há quem diga que a traição é subjectiva, e têm razão. Há quem diga que a traição, por poder ser muitas coisas, não tem definição universal – isso é mentira.

Traição é violar a confiança de alguém, e confiança é uma expectativa justificada porque é conhecida, aceite, acordada entre as partes. Trair alguém é faltar ao que se acordou com o outro, seja isso faltar a um encontro ou foder com o padeiro. O que varia não é o significado de traição mas sim a quanta traição estamos dispostos a fechar os olhos.

Todos aceitamos, vendo bem, alguma dose de traição. Ele chegar atrasado a um jantar com a namorada, desses que têm hora marcada, vá, perdoa-se, em certos casos até se entende. Ele chegar atrasado porque ficou a falar com a colega sobre os planos de férias dela, já pode ser uma coisa diferente. A diferença aqui é que, além de violar a confiança de que haveria de chegar à hora combinada, violou a confiança que a namorada tinha de que ele havia de pensar nela antes de pensar nos outros, que havia de pôr o bem estar dela, o não a fazer esperar, à frente da vontade de fazer a colega feliz por se gabar das férias, ou da vontade dele de flirtar com a colega, olhando-a e ouvindo-a tão atento e sorridente, ou de lhe galar as mamas enquanto ela lhe fala do Dubai.

Para algumas pessoas isto não é nada. A maior parte de nós tem um limite próprio para a traição que aceitamos, tem uma matriz de coisas que nos fazem sentir traídos, e outras que nem por isso. Cada um tem a sua, e a dos outros não é forçosamente igual à nossa; e, no entanto, mesmo numa relação, não a discutimos, provavelmente, com a frontalidade que devíamos. Claro que todos já falámos a alguém dos nossos limites, normalmente ao ver alguém fazer alguma coisa a alguém, comentamos “a mim ninguém me faz isto”, “se fosse comigo não perdoava”, ou “não percebo porquê tanto escândalo, aquilo é uma coisa perfeitamente normal”, mas não definimos, de forma clara, o que estamos dispostos a aceitar. E não o definimos, por um lado, porque tememos que isso se transforme num convite – a traição é a gémea ruiva do ciúme, e mesmo que não consideremos que ir para os copos com uma ex-namorada seja, só por si, uma traição, também não queremos dizer que o achamos uma coisa aceitável, não vá o homem que ouve isto sentir-se “à vontadinha” e a coisa dar-se. Por outro lado, não definimos os nossos limites porque não os sabemos. O que nos parece aceitável nem sempre o é; pensamos que não seríamos capazes de aceitar uma coisa, mas depois acontece e aceitamo-la, com menos estragos do que pensávamos para a relação; ou pensamos que lidaríamos bem com uma coisa, depois ela acontece a não conseguimos viver com aquilo.

A traição é um miradouro sobre o abismo. Temos expectativas sobre o comportamento dos outros, não dizemos quais são, e ficamos furiosos quando os outros não lhes correspondem. Por vezes damos sinais errados, parecemos aceitar bem alguma coisa, mas na verdade isso magoa-nos, como pequeníssimas traições que se vão juntando até um dia rebentarem. Acima de tudo, pensamos que os limites dos outros são iguais aos nossos, e lixamo-nos, porque não são. Fazemos qualquer coisa que achamos perfeitamente aceitável, só para descobrir que o outro a acha detestável, ofensiva, um ataque pessoal, uma traição.

Mas não é por isso que traímos. Traímos sabendo perfeitamente que o fazemos. Ao contrário destas mais pequenas traições que vão desgastando sem, necessariamente, quebrar, a maior parte das traições são perfeitamente conscientes, excepto num aspecto: traímos pensando que o outro nunca vai saber.

Traímos porque por alguma razão egoísta a traição nos dá algo que queremos. Não falo do acto de trair, raras vezes alguém trai com essa intenção explícita, não se acorda um dia a pensar “vou por os cornos ao meu marido”, aquilo que se pensa é “vou foder o padeiro”, o que, parecendo que não, é uma coisa muito diferente.

Trai-se porque isso nos faz sentir bem, porque isso nos faz sentir melhor, porque isso nos faz sentir sexy e desejados e activos, porque não sentimos isso na relação em que estamos, porque o marido nos diz que somos boazonas mas ele diz isso todos os dias e está casado connosco, é diferente, tem outro valor ouvir isso do personal trainer do ginásio; é normal que o marido nos queira foder, estamos ali em casa anyway e para isso não nos tem de levar a jantar fora, é bem diferente que o professor de música da escola dos miúdos, ou o GNR que nos atendeu outro dia, queiram o nosso número de telefone por uma razão qualquer, nos liguem como se fosse engano, aproveitem, já, agora, para nos convidar para um café. Podemos aceitar isto tudo, porque isto não é traição, pois não? É só um café, ele até sabe que somos casadas.

Famous last words.

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