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Cultura, Em Geral

Acredito que boa parte dos clientes do Gambrinus não faça ideia do significado do nome da casa. É verdade que tal não é necessário para se ser cliente, tal como não é preciso saber a nacionalidade de um pintor para lhe apreciar a obra. O que ambas as situações ilustram é um desinteresse pelo autor que é simultâneo com a apreciação da mensagem. Se isso fosse transposto para pessoas, seria o equivalente a gostar muito do trabalho do nosso jardineiro mas não saber sequer o nome dele, ou gostar muito do aspecto de uma actriz qualquer sem ter a noção de se é competente ou não, o que é que já fez, com quem trabalhou.

Num mundo onde é cada vez mais simples saber estas coisas – e ressalvando que não se pode saber tudo, e há cada vez mais coisas para saber –  é perturbador assistir à crescente quantidade de gente que opta por não querer saber nada para além do que lhes é útil no imediato. Isto torna-as menos versáteis, menos úteis, e menos interessantes.

A utilidade dos especialistas é indiscutível, mas o mundo, em certa altura, pareceu voltar as costas aos generalistas, às pessoas que sabem um pouco de tudo. Conota-se o generalista com alguém que, ao saber de muitas coisas, não sabe quase nada de nenhuma delas – o que pode ser falso. Além dos generalistas-especialistas, que são os que além do conhecimento amplo e generalizado de muitas coisas, são de facto especialistas num destes domínios, existem também uma espécie de “especialistas em coisas em geral”, cujo conhecimento transversal lhes permite debater, mesmo que não de igual para igual, ideias e propostas com especialistas de cada uma das áreas do saber.

Mas na verdade, embora precisemos de especialistas com frequência, só precisamos de vez em quando de um especialista em cada coisa. A maior parte da nossa vida, fora de um contexto profissional (da nossa profissão ou da deles) não requer especialistas, e é muitas vezes prejudicada pela hiper-especialização. Todos temos um amigo especialista em qualquer coisa, e que às vezes não é generalista em nada, o que o torna imprestável para tudo o que não seja discutir jogos da Nintendo e o Game of Thrones.

A hiper-especialização, no contexto das relações, é um pau de dois bicos; se tem um lado interessante, especialmente quando o domínio de especialidade do outro é minimamente apelativo (compare-se um especialista em cozinha e história da gastronomia com um entomólogo ferrenho) ou suficientemente amplo (compare-se um especialista em história europeia medieval com um indivíduo que estudou a fundo a aldeia de Manhouce, pode falar dias a fio da evolução populacional da freguesia entre 1864 e 1911, e conhece a palmo a lagoa da serra da Freita, mas pouco mais que isso), por outro lado pode traduzir uma falta de interesse do outro por temas que não os seus comensurável com o seu conhecimento dos que o interessam. A hiper-especialização é, muitas vezes, resultado de uma capacidade de foco em faixas estreitas do saber que resulta, não raramente, da capacidade de excluir o interesse e a aprendizagem de tudo o que o extravase. Viver com um hiper-especialista pode ser simultaneamente uma experiência feliz pelo contacto com tudo o que ele sabe e transmite e ao mesmo tempo uma profunda frustração por ele não se interessar por quase nada do que dizemos ou fazemos: ou porque o tema é fora da sua área, logo não lhe interessa, ou é dentro da sua zona de conhecimentos, e provavelmente é coisa que ele já sabe, e de que sabe mais que nós.

E no entanto os hiper-especialistas têm uma maior capacidade de impressionar, especialmente a curto prazo, que é quando se forma a primeira imagem que temos das pessoas. O seu conhecimento profundo de uma área presta-se a ser exibido, e a sua manifesta ausência de bases em tudo o resto passa facilmente despercebida, ou é até factor de charme. Ao lado deles, os generalistas-profundos passam por tipos normais, e só percebes que o não são com o passar do tempo, quando dás conta de que eles, não sabendo tudo, sabem muito sobre muitas coisas, o que, não sendo tão imediatamente impressionante, é muito mais interessante e útil no longo prazo. Mas até lá, e observando, uma após outra, irem-se afastando as pessoas que nos atraem e que queríamos atrair, que nos encantaram e que queríamos fascinar, mas que vemos esvair-se no engodo fácil de um micro-especialista qualquer, vamos ficando quietos, a ler e a escrever sobre quase tudo, a ir e a voltar de tantos sítios, a fazer, como dizia o anão, o que fazemos bem: “drink wine and know stuff”, mesmo que só nos sirva para ser felizes assim mesmo.

 

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