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Da Régia Nudez E Das Moças Simples Do Campo

Sei demasiado sobre a manufactura do álcool, dos vinhos, dos gins, das aguardentes; não precisava de saber tudo isto, simplesmente acho-o belo, a compreensão das geringonças da natureza, do processo alquímico que se dá em frente aos nossos olhos, sem o vermos. Não consta que seja necessária a compreensão dos factos para a sua apreciação; tal como há leitores que não sabem escrever bem, e não seja preciso saber compôr para apreciar uma canção.

Há quem diga, ainda assim, que há dois tipos de apreciação das coisas: a imediata e naïve, que não requer saber, apenas gostar, e uma outra, que obriga a conhecimento e estudo. Uma aprecia as coisas pelo que são, outra o entendimento do trabalho de as fazer. Se há comida que sabe bem, há outra que requer que se lhe adivinhe a confecção, a inovação, a complexidade. Se há literatura que soa bem, histórias que cativam,  há outra onde há que entender as figuras de estilo, as formas de narração, o enquadramento na época, na vida do escritor, e mais umas tantas outras coisas de que os textos, dizem alguns, são feitos.

É fácil ver dois campos:

Os simples acham que o bom é perceptível a qualquer um, e se é preciso estudar e aprender para ver que algo é bom, então é porque não é bom, é só complexo, ou elaborado, ou complicado, mas não é bom;

Os complexos acham que o bom, quando óbvio, é apenas fácil, que a verdadeira qualidade tem de ser explorada e apercebida de uma forma mais profunda, a percepção imediatista é rasca, boçal, infantil.

Quer uns quer outros acham que têm razão, que o inverso é estúpido, e cada um tem os seus motivos, mas nenhum está inteiramente certo; estúpido é achar que há receitas universais.

A complexidade permite ver coisas para além do imediato, permite gostar das coisas a múltiplos níveis, mas há que gostar desde o início, é preciso gostar de forma simples para chegar ao complexo. Será aceitável gostar de alguém desagradável porque é uma pessoa com admiráveis complexidades? de vinho mal-saboroso porque tem um fabrico fascinante? de pintura feia porque o autor a explica com mil motivações? Será aceitável defender uma beleza invisível com suposta sofisticação complexa? Ou será que o rei, na sua suposta complexidade, vai nu? Que o sublime não se esconde, afinal, no simples?

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