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Das Línguas E Dos Nomes

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPodíamos, tu e eu, criar uma língua só nossa, onde as coisas quisessem dizer o que quiséssemos que quisessem.

As línguas, sabes, criam-se para várias coisas: para esconder dos outros as conversas, ou para dizer coisas só entre nós, ter significados que mais ninguém tem, ou simplesmente acontecem, ao falarmos uns com os outros acabamos por começar a dizer coisas de uma maneira diferente, e isso pega, e fica, e faz-se regra, e a língua nasce.

Ás vezes criam-se línguas para ter isto, um espaço próprio, uma inside joke, uma coisa que nos una a nós e nos separe dos outros; é por isso que os amantes têm frases só entre eles, que escolhem nomes uns para os outros, para traçar um espaço seu. As línguas marcam território; os nomes marcam território; que só é nosso enquanto a ilusão dura, que nos convencemos que é nosso e de mais ninguém.

O nome mais único é o próprio: o que é mais íntimo, Asdrúbal ou Amor?

Pensarás que o nome próprio é o nome da rua, o que os outros usam contigo, que tratar-te pelo nome próprio é dirigir-me à pessoa externa, à versão de ti que todos vêem. Pensarás que conjurando um petit nom invocarás, pelo processo demiúrgico da língua, uma versão privada do amado, um território, um país a dois.

Mas é-o de facto? Quanta gente já trataste por “amor”? Por mais feitos à medida que digas serem esses sapatos, “querida”, “amorzinho”, “bebé”, “meu tarzan”, a quantos já os calçaste, e quantos outros já antes lhos calçaram, ao teu “cariño”?

O facto é que isso não é uma coisa má.

Podes até achar que é uma questão de maturidade, mas não deverias ficar feliz por terem existido as pessoas que fizeram alguma vez feliz quem amas?

O amor é – tem de ser – presente com esperança de futuro; preferir e bastar; não é passado.

E o facto de um mesmo nome poder ser dado, em alturas diferentes, a pessoas diferentes, ou significar, em alturas diferentes, coisas diferentes para a mesma pessoa, isso faz simplesmente parte da natureza contínua e mutável da vida e de nós.

Esquece por um momento os heróis das soluções em lata, dos ready-mades do engate, dos que levam toda a gente a jantar ao mesmo restaurante, a passar o primeiro fim de semana ao mesmo hotel. Nem toda a gente é igual nem gosta das mesmas coisas. Se a maneira como as tratas ou os sítios onde as levas são uma receita sempre igual, ou a) é um esquema, uma rotina, um play (à la Barney Stinson), ou b) és tão centrado em ti mesmo que as tuas opções não levam sequer em conta a outra pessoa, escolhes onde ir e o que fazer e até como lhe chamar com base apenas em ti mesmo, por isso escolhes sempre igual.

Na outra ponta, há no entanto quem insista que não se pode repetir; que cada lugar é só de um tempo, que a cada uma das pessoas com quem se divida a vida haja que dar sempre um nome a estrear.

E algures entre imaginar que isso só é fácil para quem só teve um amor na vida e pensar no criativo à força que terá de ser quem já gastou os nomes bons de que se lembrava, fica-me sempre, afinal, a dúvida:

se evitas, por sistema, fazer algo com quem gostas apenas porque o já fizeste com de quem gostaste; se te forças a não o fazer com alguém, só porque o fizeste antes com outrem; até que ponto, ao fazer isso, não estás a dar mais peso e a ter mais viva e mais sonante a memória da passada do que a presença da presente?

E tal como é com os gestos ou os lugares, também é, queiras ou não, igual com os nomes, e até com as frases. “Amo-te até à loucura” é ao mesmo tempo uma frase e um sentimento. Se o sentes, di-lo. Não deixes que “ah, já dizias isso à outra” te impeça de dizer o que sentes. Não deixes que isso te faça pensar “não, eu a ti amo-te é de paixão, quem eu amava até à loucura era a outra antes de ti”.

Afinal, todo este evitar é ao mesmo tempo um recordar, é deixar que o passado te condicione o presente, é dar mais importância ao que viveste com outros do que ao que gostavas de fazer com quem escolhes agora ter contigo.

Mas tu é que sabes se é isso que queres… baby.

2 thoughts on “Das Línguas E Dos Nomes

  1. 04/12/2014 at 10:13

    Mas um post lapidar, Menino. Sim, senhor.

  2. 04/12/2014 at 10:20

    Já por diversas vezes tenho pensado que há nomes mais ou nomes menos susceptíveis de serem amorosos ou românticos, ou sexuais.
    Asdrubal não é um deles, sei-o agora, nem sexual nem amoroso nem romântico. A minha geração cresceu com as “Gina”, esse sim, para toda a eternidade, pelo menos enquanto a minha geração viver, é um nome sexual. Nunca vi ninguém chamar-se Gina, triste marca de sexo parado em fotos.
    Amar um nome, gostar de um nome, chamar por ele e sorrir é tudo uma questão de hábito.
    Afinal o sexo vai e vem mas o carinho, o sorriso e tudo o que nos une como pessoas e como entidades que precisam de companhia, não precisa de nomes complicados nem de super nomes.

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