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Felicidade: Pequena Semântica Dos Verbos Auxiliares, Seguida De Minetes

licking ice creamEstá outra vez na altura do ano em que muitos começam a falar sobre felicidade, a apregoá-la ou a lamentar-lhe a falta, alguns até a tecer considerações sobre o que é ou deixa de ser. Sistematicamente no início das primaveras e dos outonos uma série de gente, como se ouvisse um tiro de partida em ultra-sons, se começa a perguntar o que é ser feliz, ou, mais frequentemente, a reafirmar a sua felicidade como se dela se tentassem convencer. Em contraponto, outros choram amargamente a sua ausência, ou exteriorizam um angst existencial que mais não é que uma bandeira que clama tristezas mas na verdade grita “aqui! olha-me aqui!”.

A felicidade é uma atitude, não é um estado. A felicidade de facto é ser feliz, não “estar feliz”. “Estar feliz” é algo episódico, um termo infeliz que só ocorre nas línguas complicadas dos povos complicados como o nosso, que distinguem “ser” de “estar”. Mas é esta distinção que nos ajuda a compreender a felicidade de uma forma que os ingleses ou os franceses não conseguem atingir.

A distinção entre uma coisa e outra é conhecida e frequentemente abordada, e no entanto a maior parte dos que a citam continua a não fazer sentido nas conclusões a que chegam. Estar feliz é algo que pressupõe motivo, a existência de um nexo de causalidade entre um qualquer facto e a felicidade. Ser feliz, pelo contrário, é uma atitude, decorre da maneira como processamos os factos e os contextos e os interpretamos, e como gerimos o seu efeito em nós. Esta atitude e o seu contrário, a não-felicidade, sugerem a dicotomia entre o optimista e o pessimista, e o clássico exemplo do copo. Perante os mesmos factos, no mesmo contexto, alguns são felizes e outros não o são, e isso não tem nada a ver com o contexto nem com os factos, apenas com eles mesmos.

E no entanto debate-se ainda se o dinheiro traz a felicidade, se o amor traz a felicidade, se uma casa nova ou o bom tempo ou os morangos trazem a felicidade. Mas tudo isto são factos que nos fazem estar mais ou menos feliz, mas não afectam o sermos ou não felizes. Eliminada a causa próxima, passado que é o efeito da novidade, este “estar feliz” esbate-se rapidamente.

Obviamente que há coisas que afectam até a pessoa mais feliz do mundo – a doença, a miséria, a injustiça, a indiferença. Por mais equilibrada e positiva que seja a nossa percepção do mundo, também nos sentimos tristes. A diferença é que vemos o mundo a direito, as coisas grandes e as coisas pequenas, as boas e as más, e não deixamos que as coisas más se sobreponham no nosso campo de visão. Não nos deixamos dominar pelo que falta, mas sim pelo que existe. E sabemos, ainda assim, ser felizes por isso.

Talvez só seja feliz quem é optimista. Talvez aquilo a que chamamos felicidade seja até uma falácia, seja o mero efeito que o optimismo tem em nós. Por isso talvez se diga que o dinheiro não traz felicidade, um pessimista rico continua a ser um pessimista, como um optimista com cancro pode não deixar de o ser.

Não confundamos, porém, optimismo com criancice: não basta acreditar que as coisas vão correr bem, a técnica da avestruz só muito raramente dá bons resultados; o que há é que ver o lado bom das coisas, o lado real das coisas, mas fazer o que tivermos de fazer para que aconteçam. Talvez me defina, nas palavras do filósofo Jorge Palma, como um optimista céptico: alguém que vê o lado positivo das coisas, mas sem acreditar que o destino se faz sozinho sem nossa intervenção. Nada está escrito. Ou está, não sei.

O que sei é que quando vejo advogar que a felicidade tem esta ou aquela origem, que vem daqui ou vem dali, que só podes ser feliz se encontrares deus ou achares a tua alma gémea ou te sair o euromilhões ou se ganhares super-poderes, percebo que é alguém que ainda não entendeu a coisa; que ainda pensa que a felicidade é coisa que tem causas, e que é tendo causas todos os dias que se é feliz. Não é verdade. Pode, assim, estar-se feliz muito tempo. Mas só se é feliz de outra maneira, daquela maneira que nos deixa ser feliz sem causa alguma, e faz, por isso, com que encontremos nítidas à nossa frente todas as causas todos os dias que nos fazem, além de ser, estar.

PS: Minetes.

PPS: Parece que quando se fala de minetes isso melhora os page views :P

18 thoughts on “Felicidade: Pequena Semântica Dos Verbos Auxiliares, Seguida De Minetes

  1. 07/10/2014 at 19:24

    A primavera e o outono são sempre uma boa desculpa para se discutir a felicidade. Eu já desisti de pensar nela. Prefiro senti-la e vive-la.
    Ps: não vim por causa dos minetes mas acabei de ler o texto e desatei a rir . Boa táctica :)

    1. 07/10/2014 at 19:32

      Oh, Imprópria, toda a gente diz que não vem por causa dos minetes, mas eu é que bem vejo as os logs do Google… ;)

      1. Miss10000Souls
        18/10/2014 at 11:46

        Eu vim por causa dos minetes, confesso… há muito mais literatura sobre felicidade do que sobre minetes o que é uma pena.

    2. 07/10/2014 at 19:34

      Agora a sério, eu também me preocupo mais em a viver que em a discutir, mas a reflexão sobre estes temas faz parte do que fazemos aqui no blog…

      Uns sacrificados do serviço público, é o que é! ;)

  2. Filipa
    07/10/2014 at 19:54

    Com que então um título para cativar gregos e troianos, muito bem…alguns vão sentir-se tão enganados, boa partida :P

    Dizem que existe uma propensão para a felicidade, que a genética também tem aí o seu peso e que alguns de nós somos abençoados com umas substâncias a mais que nos tornam mais felizes e nessa perspectiva acaba até por ser uma injustiça, uma questão de uns terem vindo da fábrica mais bem apetrechados que outros. Costumo dizer que tenho uma tendência inata para ser feliz, vai-se a ver e são as tais substâncias, mas acho que também contou, terem sabido dizer-me não, quando era preciso, terem-me explicado que a vida nem sempre é cor de rosa, terem-me feito perceber que embora em casa não me faltasse amor, eu não era a rainha do mundo e lá fora podia ser tratada às três pancadas, terem-me ensinado a não esperar dos outros aquilo que eu própria não fosse capaz de dar e terem-me dito que por princípio, se tratasse os outros bem, como gostava que me tratassem a mim, se lhes sorrisse, seriam muito maiores as probabilidades de receber sorrisos de volta, disseram-me também para assumir a responsabilidade pelos meus erros e não dizer que a culpa era de tudo e de todos menos minha quando alguma coisa menos boa acontecia e estou em crer que tudo isso contribuiu para a tal felicidade “sem causa alguma” que muitas vezes passa por mim e se instala.

    Obrigada Menino, por mais um belo texto.

    1. 07/10/2014 at 20:11

      Filipa,

      Pegaste exactamente num dos temas centrais de tudo isto, o das expectativas. Já o disse algumas vezes aqui, e repito-o, que um dos maiores problemas das pessoas é não saberem viver no presente – viverem no e do passado, o que leva á depressão, ou viverem no e só para o futuro, o que leva à ansiedade.

      É extraordinariamente fácil não ser feliz quando se está numa situação destas.

      Outro par de situações que, não tendo a ver com a linha temporal, tem ainda assim a ver com expectativas, são a expectativa quanto ao mundo e a expectativa quanto a nós mesmos. É exactamente nesse ponto que tocas, e muito bem. Esperar que o mundo seja exactamente como o queremos, e que sejamos o centro dele, é uma fonte enorme de frustração. Lamentavelmente, muita gente, especialmente nas gerações mais recentes, é educada de uma forma que leva precisamente a isso. Por outro lado, criar expectativas demasiado altas em relação a nós mesmos, altas ao ponto de serem impossíveis de cumprir, leva-nos, na outra ponta do extremo, a parecer controlador e obsessivo quando na verdade temos péssima opinião de nós, e usamos as obsessões como forma de esconder essa insegurança, esse desgosto com nós mesmos.

      Se calhar ser feliz é apenas conseguir evitar isto tudo… ;)

      Obrigado eu pelo teu comentário e pelas tuas ideias.

  3. M
    07/10/2014 at 20:31

    o meu namorado não passa tempo nenhum comigo e ainda se queixa de que lhe roubo tempo. é isto que tenho a dizer em relação à felicidade. Acompanhado de um “foda-se!” Mas pronto, I have too look deep inside of my soul and shit….I guess.

    1. 07/10/2014 at 20:44

      M,

      E quem disse que tu é que tens de look inside your soul, e o diabo a sete? Isso é a malta do “vem meditar connosco, tens de aceitar a individualidade dos outros, la la la”, essa treta não é aqui.

      Há aqui no blog um post (vários, até) que dizem “Amar é chegares-me, e preferir-te”.
      Não há cá mais treta nenhuma no amor. É tão simples como isto, por muito que se escrevam livros e se façam filmes e haja blogs inteiros sobre a matéria, quando vais a ver, tudo somado, é isto.

      Claro que há razões e razões, e é importante saber no que é que ele ocupa o tempo que não tem para ti. Se está, por exemplo, a trabalhar de dia e a estudar de noite e a tomar conta de um filho pequeno de um primeiro casamento ao fim de semana, o tempo pode não chegar para tudo. Ainda assim estaria á espera que ele dissesse, no mínimo, lamentar ter pouco tempo para estarem juntos.

      Qual é a história afinal? É que ou tem boa desculpa ou parece que nem lhe chegas nem te prefere… queres mesmo alguém para quem tu não és nada disso?

      (e esquece aquela cena de rapariga de que “os homens mudam, eu consigo mudá-lo”. não mudam nada, a menos que queiram, e não vão querer só porque tu queres. não vão não.)

      1. M
        07/10/2014 at 21:14

        Obrigada pela resposta :) é uma situação delicada e também não vale a pena estar aqui a expôr todos os detalhes- ninguém tem paciência para isso- tirando os amigos, claro e esses lá me vão ouvindo…. Também concordo com a tua última linha até porque não acredito que as pessoas mudem muito na vida, não só homens. Mas posso dizer que, de facto. não, não há putos nem trabalho que justifique. O amor está a ir-se embora pelo menos da minha parte e isso é algo que não consigo evitar: esforço-me para que tenhamos tempo de qualidade juntos, mas na verdade acho que ele não precisa de alguém ao lado dele- há pessoas que não precisam mas acham que sim porque a sociedade gosta de nos ver “arrumados”- e eu, aos poucos, estou a ir à minha vida, emocionalmente, pelo menos. Eu costumo dizer que entro em “shit mode”, ou seja, passo a ter uma atitude de “i dont give a shit about anythng” e depois não volta atrás, mesmo que eu queria…

        1. 07/10/2014 at 21:39

          Lembra-te que a única pessoa responsável pela tua felicidade és tu.
          E a única pessoa a quem podes pedir contas no final és tu.

          O que mais faz desaparecer o amor, esse amor de “chegares-me, e preferir-te”, é quando percebemos que ao outro não lhe chegamos, nem nos prefere.

          Lembra-te, de vez em quando, de pensar se o tempo cura ou melhora de facto algo, ou não.
          Um barco que se afasta do cais dificilmente volta para trás apenas por deixarmos passar mais tempo.
          E o tempo é a única coisa que temos – é aquilo de que é feita a vida.

          Boa sorte (embora a sorte tenha pouco a ver com isto) :)

  4. M
    07/10/2014 at 21:49

    Oh! Obrigada! Só para rematar: apesar do primeiro comentário poder sugerir o contrário, eu considero-me feliz; quanto mais não seja porque sinto que não me perdi pelo caminho, olho-me ao espelho e sorrio, ponho o meu cd preferido de Nina Simone e danço like nobody is watching because they’re probably not :D

    e…
    Gosto muito deste blog :)

    1. 07/10/2014 at 21:55

      Gosto disso :)

      E dança sempre como se alguém te observasse, e aprende a soltar-te e a ser tu própria mesmo assim :)

  5. 07/10/2014 at 22:24

    Bem, eu confesso que o binómio felicidade / minete me fez ler o texto todo, num dia com pouco tempo para blogs. É que, parecendo que não, a coisa pode ter uma relação causa efeito…

    Falando a sério, acho que a felicidade é um conjunto de momentos altos e a respectiva capacidade de os saber aproveitar, a capacidade de ver as coisas pelo ângulo positivo, há sempre um ângulo positivo, por mais negativa que pareça a situação. Eu tenho tendência a ver o copo cheio, ainda que ele esteja só dez por cento preenchido. E isso faz toda a diferença.
    Por mais cliché que pareça, felicidade pode ser saborear uma cerveja gelada, num dia de calor em que tivemos um furo e mudámos um pneu à torreira do sol. Há quem se concentre no aborrecimento do furo, há quem se concentre no prazer da cerveja gelada, derivada do furo. Simples…

    1. 07/10/2014 at 22:31

      Mais Picante,

      É de facto uma questão de atitude – talvez suceda que quem vê o copo meio vazio esteja a dar mais importância à sua expectativa, decorrente do tamanho do copo, do que aos factos concretos, à água que contém.

      Quanto aos minetes e ao seu efeito na felicidade, é coisa para dar outro post… :)

  6. Raja
    06/11/2014 at 21:23

    muito bom o seu texto, sempre acho interessante o debate sobre a “felicidade”, por mais incrédulo que possa parecer.

    1. 04/12/2014 at 14:24

      Raja, obrigado :)

  7. 30/01/2015 at 09:36

    muito bom o seu texto, sempre acho interessante

  8. 30/01/2015 at 09:39

    muito bom o seu texto, sempre acho interessante, incrédulo que possa parecer.

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