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Fernando Pessoa Havia De Adorar A Internet

Noutros tempos tinha de se ser deus para ter mil faces.
E mesmo para ter uma dúzia era difícil – gerir a credibilidade em forums distintos e disjuntos, criar background stories resistentes, não era para qualquer um.
A Internet mudou isto tudo, e hoje qualquer cão ou gato produz a eito heterónimos, pseudónimos, personagens, engenheiros navais solteiros, um perfil de Facebook a dizer que se é pastor.
É bem diferente hoje em dia ser um poeta de heterónimos; a Internet não mata a poesia, mas ser poeta de heterónimos nesta era é uma coisa diferente.
Ser poeta na era da internet é conviver com as centenas de personagens de toda a gente, com citações mal enjorcadas e com fotos de gatinhos, e com gente que escreve sobre a dor de barriga que teve hoje.Mais do que conviver, pode até ser competir, que nem todos escrevem só para a posteridade e há quem gostasse de ser conhecido e amado antes de morto.
Se ao mesmo tempo a Internet nos dá isto de se poder facilmente ser quem se quer, de construir personagens que passam tão facilmente por uma pessoa qualquer, ao mesmo tempo desvaloriza-nos num mar de gente e de palavras.
O Orpheu foi uma coisa épica e só editou dois números. Hoje em dia nascem e morrem sites e revistas e fanzines todos os dias e ninguém liga nenhuma. Talvez erradamente, mas é o que temos.
Fernando Pessoa, esse, havia de adorar a Internet. E, vai daí, talvez não.

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