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Foder O Parceiro

Porque fodemos? Qual é o objectivo do sexo?

Já não fodemos primariamente para nos reproduzirmos, nem por resposta a um qualquer instinto primordial, a uma feromona, a um cio. Somos mais complexos que isso, mais evoluídos, mais controlados e voluntários – a maioria de nós. Também não fodemos pelas endorfinas do orgasmo, para isso a masturbação serviria, e é mais prática, mais rápida, mais conveniente. O que há então no sexo que nos chama e que nos prende? É uma questão de estímulo visual directo, por oposição à masturbação? É uma questão sensorial, agrada-nos o toque da pele, dos lábios, de outras partes do corpo noutras partes do corpo? Ou é uma questão de intimidade e proximidade, uma coisa emocional que dá outro sentido a isto tudo?

Se o sexo faz parte, como chegou a propor Maslow, das necessidades básicas do humano, analisemo-lo, em paralelo com outras necessidades básicas, do ponto de vista da satisfação. A necessidade mais simples é a de respirar; nem se dá por ela, excepto quando nos falta. Dormir também parece bastante simples – ou se dorme bem ou não, e quando se dorme bem fica-se umas horas sem precisar de voltar a dormir. Comer também é, na sua essência, bastante básico – tem-se fome, come-se, fica-se satisfeito. Mas para além desta questão biológica a comida tem as suas complexidades: às vezes não nos apetece comer, às vezes apetece-nos uma coisa específica, às vezes apetece-nos algo e não sabemos sequer o que é. Nem toda a comida é igual, nem toda nos atrai de igual forma. Por vezes temos vontade de comer uma coisa por questões biológicas, por vezes por questões emocionais, por vezes por questões intelectuais, relacionadas com o ego, com o superego, com a imagem de nós mesmos.

Esta atitude crítica e selectiva em relação à comida é muito humana e decorre da complexidade acrescida do nosso cérebro e dos nossos processos mentais.

Se somos assim com a comida, como não o seríamos com o sexo?

Podemos ver o sexo em três principais dimensões: com quem, como, e para quê. Juntas definem a motivação e o que nos leva ao sexo, a querê-lo, a fazê-lo, a apreciá-lo.

Comecemos pelo fim, pela finalidade, e descobriremos que há dezenas de objectivos no sexo: o exercício do poder é um dos principais, seja pela imposição crua da vontade a outrem (de forma consensual, a única admissível) seja por uma manipulação mais subtil – fazer alguém vir-se por nossa acção e por nossa vontade, deixar alguém louco de desejo e permitir o prazer ao nosso ritmo. Além do sexo pelo poder, existe o sexo pelo perigo, o sexo proibido, a fruição psicológica do risco, da exposição, do risco de ser apanhado, de fazer algo ilegal, imoral, incorrecto, quebrar as normas, cometer pecado. Mas nem todo o sexo é poder ou perigo; o sexo pode ser contacto, carinho, uma forma de ter e de aprofundar intimidade, sentir a pele de alguém. E, na verdade, pode ser tudo isto ao mesmo tempo, e muito mais.

O “como” define a forma, os gestos e os actos, os lugares. Não deve surpreender que boa parte do “como” esteja intimamente ligada ao “para quê”. As diferentes posições e os diferentes actos sexuais e sensuais proporcionam sensações físicas diferentes, mas boa parte do seu valor vem da associação de cada uma ao poder, ao controlo, ao perigo, ao pecado, ao carinho, à intimidade. O sexo anal, por exemplo, não dá prazer apenas por o ânus ser estreito e apertar de outra forma o pénis, nem por ter milhares de terminações nervosas, há uma forte associação, para muita gente, a um carácter “desviante” e “pecaminoso”, ou ao domínio e à subjugação, ou como acto especialmente íntimo, ou como acto que, não fazendo parte dos processos reprodutivos, se torna especial por só existir pelo prazer e para o prazer.

O facto é que todas estas coisas não funcionam sem outra pessoa, não se obtém pela masturbação; e nem todas se obtém, sequer, com uma pessoa qualquer. Algumas destas sensações, destas situações, destas percepções podem perfeitamente extrair-se de um one night stand, de um engate de discoteca ou de internet. Há mesmo algumas que se podem obter com uma puta, outras não. Mas muitas delas só se extraem de alguém com quem se partilhe mais que uma cama, de alguém com quem se partilhe, em maior ou menor grau, por mais ou por menos tempo, uma vida. A variedade de papéis, as relações de domínio e de poder, a multiplicidade de géneros, de tipos físicos e psicológicos, tudo isso se pode, com abertura e empenho, obter de uma pessoa só, com mais ou menos cosplay, mais ou menos roleplaying, mais ou menos fantasia. Não é preciso envolver pessoas diferentes para ter expectativa de como é que alguém será na cama, se soubermos ser, de vez em quando, pessoas diferentes. O que não se tem, nem se consegue fingir, ou é estúpido quando se finge, é intimidade, companheirismo, compromisso com quem não conhecemos, com quem não nos conhece. E foder o parceiro pode ser uma coisa boa e especial.

 

 

 

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