1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (No Ratings Yet)
Loading...

Futurismo Russo, Vibradores E Sexo Anal

Poucas das actividades humanas têm apenas a finalidade para que nasceram.Vejamos, por exemplo, o comer. As formas humanas de alimentação ultrapassaram há muito tempo a simples nutrição. Comer é muito mais do que matar a fome, e cozinhar é muito mais que uma alavanca do comer. Cozinhar é uma forma de arte e de expressão, é uma ciência experimental, é um passatempo e uma fonte de prazer. Comer é muito mais que uma necessidade, é um prazer, é, sendo prazer, é por vezes compensação de coisas que faltam por outro lado, mas pode ser uma aventura ou uma colecção de quem queira provar pratos de todos os povos da terra.

O mesmo raciocínio de se ter ultrapassado em muito a finalidade original se aplica a quase tudo o que tem a ver com a actividade humana, desde o beber ao vestir passando por um lugar onde morar ou pelos meios de transporte de de comunicação.
Os humanos são talvez a única espécie do planeta que inventou a estética e a arte, que definiu a beleza enquanto conceito, que a aplicou a quase todo o espectro da sociedade. E mais: que dentro da arte define periodicamente estilos, e tendências, e usa a arte, que é das poucas actividades humanas de produção primária (por primária entenda-se: que produz alguma coisa em si, e nao se limita a prestar serviços a outras) sem utilidade física, para lhe tentar redireccionar o propósito e torná-la arauto de uma filosofia ou de uma concepção de vida qualquer.
Não estou a falar de correntes como o construtivismo russo que tentam a terciarização da arte tornando-a uma ferramenta ao serviço de outra coisa qualquer – no caso russo era a política. Algumas destas correntes da “arte útil” tentam usá-la para vender um conceito que é estranho a próprio processo de produção artística. Mas outras nascem dentro dos próprios movimentos artísticos e tentam usar a arte como forma de promover na sociedade um determinado ideal social através de um ideal estético.

Já que falámos de construtivismo, talvez o melhor exemplo seja o futurismo russo. O futurismo advoga a arte como expressão e arauto da modernidade, o corte com o passado, a experimentação formal como meio de encontrar a verdadeira voz do artista, livre das grilhetas conformistas. Ninguém o leva tão longe como Malevich, na verdade. Malevich e o suprematismo levam o futurismo às suas últimas consequências, à negação do representativismo, à procura da expressão pura do sentimento do artista primeiro na cor e depois só na própria forma, seguindo as pegadas do (ainda?) futurista Kruchenykh e dos inventores da língua Zaum, ainda futuristas porque ainda procuravam um sentido, se bem que disjunto da forma anterior, enquanto Malevich já só queria exprimir emoções.
Nenhuma actividade humana está isenta desta subversão das suas finalidades, subversão essa que por vezes se torna mais importante e mais frequente que o fito original. Quantas vezes comemos por ter realmente fome, e quantas o fazemos apenas para manter um ciclo alimentar mais ditado pelo racional que pela necessidade física? Quantas vezes bebemos vinho por ter sede, e quantas pelo prazer de o beber ou pelo efeito do álcool em nós? Quantas vezes fodemos para procriar? E quantas vezes fodemos por prazer?

Em muitos organismos vivos com capacidade de acção deliberada há recompensas sob a forma de prazer para um conjunto de actividades fundamentais à sobrevivência da espécie. O sexo é uma dessas actividades, com a diferença que a reprodução não requer que o sexo se faça todos os dias, várias vezes por dia. Para compensar isto, a maior parte das espécies desenvolveu ciclos de atracção/rejeição sexual que fazem com que apenas periodicamente as fêmeas se interessem sexualmente pelos machos e vice-versa. No entanto em algumas espécies de primatas, incluindo os humanos, o período de desejo e receptividade sexual alargou-se para além do estro, numa evolução perfeitamente desalinhada com o objectivo reprodutório da espécie, e aparentemente inútil. Alguma coisa nos humanos fez com que o sexo com finalidade distinta da finalidade básica seja um marcador evolucionário desejável. E ainda bem que fez.

Obviamente que os humanos (e alguns dos outros primatas, diga-se de passagem) levaram isto mais longe. O lado experimentalista veio ao de cima, esse lado experimentalista que transforma a fome em culinária, a sede em cocktail bars, o sexo em puro prazer.
O sexo anal, provavelmente descoberto por acidente durante a pré-história, é um exemplo de actividade inovadora completamente desalinhada da função primária e reprodutiva do sexo. O sexo anal alarga o leque das opções de prazer, e fá-lo de duas formas. A primeira, com raízes profundas na antiguidade clássica e provavelmente mais atrás, permite aos homens copular uns com os outros, dispensando para esse efeito as mulheres. A segunda, que me interessa mais, permite que homens e mulheres alcancem formas distintas de prazer, enriquecendo a explosão sensual em que transformámos o sexo.

O sexo anal traz consigo uma segunda vertente, curiosa e dupla, e que toca directamente na componente psicológica da líbido: Por um lado, o sexo anal não serve para reprodução, e como tal sabe-se que é algo que se faz pura e exclusivamente por prazer, mais, que foi inventado pura e exclusivamente para o prazer, subvertendo a função de uma parte do corpo que não era bem para aquilo. É uma sensação equivalente a comprar um rebuçado e ganhar outro grátis. Não se estava à espera, soa a brinde.Por outro lado, e especialmente nos países de matriz cristã, o sexo anal é uma coisa proibida – aliás, todo o sexo o é, especialmente o sexo por prazer, e muito especialmente o sexo não vaginal, que só existe por prazer. E em algumas pessoas, recalcado lá no fundo, está esta coisa do proibido, do pecaminoso. E curiosamente, se isso a algumas as demove, a outras dá-lhes é tesão.

Outra coisa de que os futuristas haviam de gostar especialmente era de vibradores. Foi uma pena para eles a tecnologia não ter evoluído à velocidade que eles queriam, porque os vibradores seriam uma forma divertidissima de combinar o sexo com a tecnologia e o primado da máquina, coisa que agradaria a qualquer futurista. Se um futurista visse produtos como o Ladygasm Wow Vibrator , as Berman Vibrating Panties ou o mais clássico Trinity Vibes 10-inch Super Rabbit, já para não falar do and-now-for-something-completely-different Sqweel, era pessoa para ter um orgasmo mental ao ver tão excelente uso da tecnologia ao serviço do bem estar individual e colectivo.
E se somássemos tudo, futuristas, vibradores e sexo anal, teríamos subitamente uma abordagem tão inovadora ao sexo que isto, para um senhor ou uma senhora de 1920, os teria mantido entretidos durante tempo suficiente para nem darem pela repressão do regime dos sovietes a todas as formas de arte que incentivassem as pessoas a pensar “fora da caixa”.

E ainda assim, o anti-futurista Bogdanov andava por lá a advogar a proletkult, o destruir da cultura burguesa e a construção de uma nova forma de arte exclusiva do proletariado. Não sei se o Bogdanov acharia muito proletário andarem os camponeses a enrabar as camponesas enquanto as masturbavam com um rabbit vibe. Mas que a mim me parece uma coisa mais divertida que muito do que se diz que por lá faziam, isso parece. E se calhar as camponesas eram miúdas para ser da mesma opinião. Digo eu.

5 thoughts on “Futurismo Russo, Vibradores E Sexo Anal

  1. 24/06/2013 at 23:39

    Gostei do texto, mas não sairia desiludido se tivesse aqui passado só para dar uma vista de olhos pelas ilustrações.

  2. 25/06/2013 at 15:00

    “O sexo anal, provavelmente descoberto por acidente durante a pré-história, ” achei especial piada à parte do “acidente”. Se fosse num jogo de futebol seria um caso de “falta para amarelo”, pá.

    abraço, a tua ilustração de entrada está do melhor.

    PS- Por acaso ando há uns tempos para falar de sexo anal lá pelo blog. Apenas ainda não tinha decidido por onde pegar, desculpa, por onde começar. Mas talvez tenhas razão. A pré-história é sempre um bom ponto de partida.

  3. 25/06/2013 at 19:03

    Caro shark,
    Obrigado, és sempre bem-vindo a esta tua casa :)

  4. 25/06/2013 at 19:09

    Caro Pulha,
    era coisa para isso do amarelo, que era.

    E obrigado :)

    (e quanto ao sexo anal, como aliás com tanta coisa, acho que o princípio é sempre bom sítio para começar)

  5. 25/06/2013 at 19:10

    (e era coisa para amarelo se não desse logo para vermelho directo, imagino eu)

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.