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Geografias Interiores: Bombel, 7080-303

A primeira coisa que o Google te mostra quando procuras Bombel é o código postal, como se a terra fizesse questão de afirmar que existe, que está ali, que tem nome e morada. Bombel, que já perdeu honras de estação, continua a ser mais ou menos a meio caminho de um lugar para outro, mas por uma estrada onde cada vez menos gente passa. É o risco de não ser origem nem destino de ninguém, estar em caminho só é bom enquanto alguém vai por ali, e isso às vezes é coisa pela qual não podes fazer nada.

Há em Bombel um restaurante que agora tem 4 estrelas no Google, e nessa altura tinha a porta aberta às dez da noite. Às vezes mais vale uma porta aberta do que muita estrela algures. Nesse tempo, chegou a porta aberta, e pouco mais. Havia feijoada, da que leva couve, mais couve que outra coisa. Havia pão duro. Havia vinho tinto, e era tão mau que pedia gasosa, mas gasosa não havia. Acabámos a beber vinho tinto com tri-naranjus de maracujá, morno, porque não havia fresco e era verão.

Já não me lembro onde íamos, de onde vínhamos nem porquê, mas isso interessa pouco nas viagens; das viagens sobrevivem as histórias, as memórias, as emoções. Lembras-te de com quem ias, o que fizeram, do que falaram, às vezes lembras-te de como era a tua vida nessa altura, se eras rico ou pobre, o que fazias, com quem andavas, se eras feliz. Outras vezes já esqueceste muito, às vezes porque o quiseste, outras porque a vida é mesmo assim, e o que fica é a cor da terra, o cheiro da couve, o gosto do vinho tinto com tri-naranjus de maracujá, o nome de um lugar que na altura, provavelmente, ainda nem tinha código postal.

Não sei se há uma hierarquia das memórias: se há umas mais importantes que outras, e caso as haja, se são mais importantes as que te transformam do que as que apenas te fazem feliz. O que sei é que há memórias a que voltas sempre, com uma regularidade estranha: sabores, lugares, cheiros, cenas, pessoas, frases. E que podes não ter tido a noção disso na altura, podes não conseguir dividir a vida entre um antes e um depois, podes não ter começado a ser outra pessoa logo ali, mas talvez não fosses o mesmo se não tivesses vivido isso. E isto é tão banal que dói: em cada momento, em cada lugar há alguém que diz “tudo estava escrito, não estaria aqui se não tivesse dado exactamente aqueles passos!”. Pois não, estarias dez metros para o lado, a dizer exactamente a mesma coisa. A causalidade do passado é fácil de reconstruir depois de se lá ter chegado. Difícil é discernir quais foram as grandes decisões: distinguir os passos que, dados de outra maneira, te desviariam uns metros para o lado dos que acabariam contigo noutro continente. Às vezes o impacto só se entende ao longe, e à distância. Nem sempre é sabido, quando saltas, se vais cair de pé ou espatifar-te no asfalto. Só quando aterras se entende, talvez nem isso, só quando tempos depois percebes que foi naquele dia, naquele salto, naquela entorse que começou um desfecho, que se abriu um trilho, que se escolheu um ramo, se traçou um caminho, Bombaim ou Bombel.

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