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Horas Certas

Arbitrário, como são arbitrárias as coisas humanas, excepto a fome, a morte, o sono. Tudo o resto é inventado, decidido de uma maneira que podia ser diferente, como se pintar estrelas num papel organizasse de outra forma o universo. Decidimos ter anos, meses, horas, decidimos números a contar de um falso zero, comemoramo-los como se fossem coisas, como se importassem, como se não fossem fantasias.

Ao fundo as crianças brincam, inventam jogos, inventam regras, olhamos e sorrimos, comentando às vezes para dentro que são jovens, que não sabem, não sabem que o mundo não é assim. Mas o mundo é assim. Só muda, à medida que crescemos, a nossa liberdade de inventar as nossas regras ou de aceitar as dos outros, de comer quando queremos e não às horas certas, de dormir o que quisermos, de assumir e respeitar só os compromissos que escolhermos, e viver a nossa vida em função disso.

Se fossemos crianças amaríamos quem quiséssemos, e saberíamos que gostar e ser gostado são coisas diferentes e uma não implica a outra, mas não faz mal. Beberíamos o sumo aos dias como se amanhã não existisse, como se amanhã houvesse mais sumo e mais frutos para espremer. Escolheríamos o dia das nossas efemérides, das nossas celebrações, sem regras que nos vergassem. Celebraríamos o que para nós fosse importante, fizesse sentido. Faríamos balanços só quando apetecesse, fosse importante, ou se aprendesse alguma coisa. Não faríamos promessas, ou melhor, fá-las-íamos sempre que quiséssemos prometer, que nos quiséssemos  comprometer, e não por ser altura delas. Nada é mais tonto nem mais vão que prometer com horas certas.

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