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Indículo Dos Mortos

Estar vivo é o contrário de estar morto

— Maria Alice Carvalho Monteiro

A morte define-se contra a vida; e o que é estar vivo? O que é para nós estarem vivas pessoas que nunca conhecemos, com quem nunca falámos? O que distingue, por exemplo, um autor morto de um autor vivo?

A vida dos outros tem, para nós, dimensões variadas: interagimos com eles; dizem-nos coisas, transmitem-nos sensações e ideias; pensamos neles, imaginamos-lhes a vida, e isso de alguma forma reconforta-nos; e, frequentemente, temos expectativas: estarem vivos faz-nos pensar que estas coisas vão continuar a acontecer.

A morte cessa tudo isto. Torna os mortos mudos, mata a esperança. Um poeta vivo não vale mais que um morto, não vale mais que Pessanha ou que Cernuda, mas destes já ninguém quer nada, não espera nada, as palavras que tinham a dizer estão ditas; de um vivo haverá sempre mais, o próximo livro será sempre o tal, será sempre melhor, será sempre mais, até que morram.

Frustra-nos o não ter mais, o não poder ter mais, o não poder esperar ter mais. Por isso nos dói quando se apagam, as vozes e as mãos de quem lemos, de quem ouvimos, de quem nunca conhecemos senão por escrito, como se conhecem os mortos. Dói-nos quando morre quem nunca vimos num palco, quem nunca haveremos de ver.

Às vezes a morte dói só porque é estúpida, porque é injusta, inesperada. Outras dói só porque sim, só por egoísmo, porque nos lixa as expectativas. Se andava por aí quem dissesse que a morte de Cohen, ou de Bowie, ou de Prince, foi como se lhes morresse uma pessoa da família, não ouvi ninguém chorar assim Zsa Zsa Gabor, ou Harper Lee, ou Andrew Sachs, o “Manuel from Barcelona” das Fawlty Towers.

É que os cantores, os actores, os autores, os criadores, deixam de estar vivos quando deixam de criar. Quando ninguém espera nada de ti, podes morrer à vontade, que ninguém dá por isso, não vais ter mais que uma nota de rodapé, dois comentários quaisquer de quem era mesmo teu fã. E depois esquecem isso de teres morrido, e continuas a viver como vivias antes, na obra que deixaste. Pensando bem, se comparares Roberto Leal com Sinatra, juro que em certos dias está mais vivo o Old Blue Eyes que o trovador do Vale da Porca.

 

 

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