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Inevitavelmente Natal

we_are_the_company_we_keepLembro-me de o Natal começar nas férias, lá para dia 17 ou 18, de querer ir à pressa fazer a árvore e o presépio e dos sorrisos complacentes da senhora minha mãe, a abanar a cabeça e a pensar “na pressa que estes miúdos têm”.

Lembro-de de o Natal começar mais cedo, logo depois do dia da mãe – continua a ser em Dezembro, o Dia da Mãe – e de se pensar que era efeito das lojas, que enfeitavam as montras cada vez mais cedo, a tentar roubar vendas antecipando-se aos vizinhos.

Lembro-me de o Natal começar a 1 de Dezembro, por “já ser o mês do Natal”; e havia calendários numerados de 1 a 25, com janelinhas que se abriam e chocolates lá dentro. Lembro-me que a primeira vez que tive um desses o achei muito estranho. Fui abrindo as janelas e comendo os chocolates, no mesmo dia, uns a seguir aos outros, pensando que aquilo era tudo muito bonito mas fazia pouco sentido. Nessa altura, o meu Natal ainda começava lá para dia 16.

Lembro-me quando descobri que o 1 de Dezembro não era feriado em Espanha – quando ainda o era em Portugal – e que era uma excelente altura para ir de compras a Madrid. Ainda não se comprava tudo na Amazon, mas já não havia nada em Madrid, nessa altura, que não se encontrasse em Lisboa, excepto uma coisa: em Madrid as pessoas andavam na rua em vez de andarem encafuadas nos centros comerciais. Em Madrid havia lojas nas ruas, e compravam-se coisas lá. Em Madrid, a 1 de Dezembro, ou no fim de semana que se lhe colasse, as pessoas andavam nas ruas e usavam gorros de pai natal e sorriam. E isso não havia cá.

Lembro-me de quando o Natal passou a começar em Novembro porque as TVs e as ruas se enchiam de publicidade a brinquedos. Passámos a ter mais de um mês de “quero isto” e “quero aquilo”, e os pais e os tios mais incautos não perceberam logo que não se liga ao que os putos dizem um mês antes do Natal. Se comprarmos aquilo que eles nessa altura juram a pés juntos que desejam, invariavelmente no Natal já nem se lembram, já nem ligam, e já queriam era outra coisa.

Lembro-me de ficar chocado a primeira vez que o Natal começou logo a seguir ao S. Martinho, ainda andávamos de veraneante t-shirt e já as montras se enchiam de árvores e as árvores de enchiam de enfeites e as ruas se enchiam de coisas de gosto duvidoso. E lembro-me de ficar ainda mais chocado quando o Natal, um ano, começou antes ainda, no dia depois de Finados.

Depois, já não me lembro. Deixei de ligar a isso de quando começa o Natal, o Natal do público em geral, pelo menos. Se calhar o meu Natal já não é feito nem de árvores nem de montras nem de boas intenções. Se calhar o meu Natal é feito de pessoas, dos sorrisos das pessoas, e do que elas sentem sobre o Natal. Se calhar o meu Natal é o Natal dos outros, e para mim só conta a gente, e é Natal, talvez, porque eles dizem que é Natal e eu só concordo com eles. se calhar o meu Natal começa quando começa o Natal de alguém.

Mas afinal, se pensar bem, lembro-me de o meu Natal me ter começado aí há uns anos, num dia quente de Verão, e não ter acabado ainda.

4 thoughts on “Inevitavelmente Natal

  1. 03/12/2014 at 09:36

    O meu natal começa no dia 1 de Dezembro. No dia em que a árvore de natal é decorada. As decorações são histórias nossas e dos miúdos. Pai Natal de papel, bolas feitas de embalagens de iogurtes e pintados por eles.
    O natal é o sorriso deles, é o frio nas ruas e os abraços de quem se ama.
    O natal é o que cada um de nós quiser que seja e começa quando quisermos.
    :)

    1. 04/12/2014 at 08:20

      imprópria,

      e não são os melhores natais, esses feitos das nossas coisas? :)

  2. Filipa
    03/12/2014 at 20:53

    O meu Natal começa a 8 de Dezembro, dia em que a casa se enfeita para a quadra. Para mim o Natal é calor em tempo de frio de inverno, acontece qualquer coisa dentro de mim todos os anos nesta altura, que não sei sequer explicar, sei que me sinto quentinha por dentro, mesmo que lá fora o termómetro marque zero graus, sendo mulher, continuo a ver o Natal com olhos de criança, o meu Natal, cujas decorações e iluminações me continuam a fascinar, acontece-me por dentro e ilumina-me, no matter what.

    Que todos se sintam quentinhos por dentro (mesmo sem bebidas alcoólicas ;)) neste Natal.

    1. 04/12/2014 at 08:21

      Filipa,

      O Natal é, afinal, um lugar dentro de nós, não é? :)

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