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Ir Para Fora Por Dentro

Começo o verão perdido pelas coisas simples – chão para varrer, louça para lavar – sem abrir sulcos nos dias onde encaixe à força um livro – chão para varrer, louça para lavar – deixando a mente focar-se no coordenar dos movimentos, na procura do imediato – chão para varrer, louça para lavar – e em mais nada.

A metafísica não cabe nos dias já cheios de outras coisas, e às vezes precisas disso, nem que só por uns tempos, tu que não casaste com a filha da tua lavadeira, tu que não procuraste o consolo no que não existe, tu que vives mais das coisas reais por dentro que das coisas reais por fora, e por isso é mais sobre essas que te dá para falar.

Da minha janela não se vê a rua movimentada, nem gente a passar, nem há tabacarias do outro lado da avenida, e o burburinho e as discussões, da natureza do homem, da semântica das coisas, dão-se do lado de dentro dos pequenos vidros que são os olhos. O meu bulício não é por fora, as minhas férias são por dentro, são o parar da grande máquina infernal do pensamento, distraindo-a no curto e no imediato. Se as férias são um contraponto do ano inteiro, talvez se entenda do que é feito o ano das gentes olhando para as férias que escolhem; ou talvez não, que há muito quem pouco faça o ano inteiro e nas férias vá fazer mais do mesmo para outro lugar.

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