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Jabberwocky, ed. 14

another fuck from behindNão sei se alguém se veste sem ser para os outros olharem; já ouvi dizer que nos vestimos para nós mesmos, mas não costumo usar gravata quando estou sozinho em casa, e já vivi com mulheres suficientes para saber que não passam os sábados-à-tarde-no-sofá de mini-saia e saltos altos.

Também não sei se alguém escreve um blog para não ser lido; já ouvi dizer que há quem tenha blogs só para si, sem ser para ninguém ler, mas fico sempre na dúvida se essas pessoas nunca ouviram falar da “gaveta”, se não sabem que podem ter ficheiros com textos gravados no disco do computador, ou nessa coisa que há agora da “cloud”, ou que podem ter um blog sem estar aberto a leitores. Mas são à resma, os blogs “só para si” que afinal são para toda a gente.

Mas “para ser lido” é apenas uma das várias dimensões da razão para se ter um blog, e são as outras, essencialmente as outras, que definem o que um blog acaba por ser.

Há quem fale do que sabe, há quem fale sobre o que não sabe, há quem o escreva como um diário, com mais ou menos graça, com mais ou menos drama, há quem acredite que um blog é frontalidade e abertura, há quem acredite que é uma forma de entretenimento. Há blogs temáticos, blogs de personagem, e blogs de autor. Há afinal blogs de tudo, cada um diferente dos outros, por mais copiados que sejam uns dos outros.

Outra diferença fundamental entre blogs é a quantidade de gente que os lê.

A popularidade de um blog é consequência de vários factores: a popularidade do autor, por exemplo; uma figura conhecida da política ou da tv ou de um meio qualquer consegue, apenas por ter um blog, ter leitores instantâneos, que vão atrás da figura só para ver o que ela escreve. Outra questão relevante é a idade do blog. Em tese, os blogs mais antigos, desde que não degradem a qualidade nem a frequência da escrita, têm um capital de “respeito” e de divulgação que falta aos blogs mais recentes, e isso também traz leitores. Mas a questão mais determinante é a divulgação, a criação de grupos de leitores a quem os novos posts chegam de forma regular, e, fundamentalmente, a presença em canais que permitam que novos leitores conheçam o blog e o frequentem.

A qualidade do blog também influi, é claro, mas acaba por ser secundarizada se estiverem presentes estes factores; isso explica porque há blogs muito maus com mais leitores que outros blogs muito bons sobre os mesmos temas.

Em último lugar, temos o tema do blog e o tipo de escrita. Há temas e tipos de blogs naturalmente mais populares que outros, o que faz sentido se olharmos de forma demográfica para os leitores da blogosfera nacional. Os blogs que oferecem promoções e descontos; os blogs de moda; os blogs de futebol; os blogs humorísticos; alguns blogs políticos; poucos blogs literários ou culturais. Alguns blogs atingem sucesso merecido pelo estilo próprio do autor; outros desdobram-se em iniciativas de variável mérito. Cada um encontra nichos, e em alguns desses nichos cresce-se, em outros não.

Muitos dos blogs bons duram pouco; ou não atingem a massa de leitores que o autor imaginava, ou o autor não tem tempo para manter o blog, ou não tem disposição, ou se lhe acaba o tema, ou fica frustrado por não ter comentários, ou fica irritado por os ter. Para a maior parte dos bloggers, o blog é um passatempo, um acto de gosto – se não há gosto, se não se consegue manter e alimentar o gosto, o blog não dura.

Para os que sobrevivem, a massa de leitores é uma coisa dinâmica. Depois de estabelecido “um nome”, há sempre uma base residual de leitores, que vai flutuando consoante se escreve mais ou menos, se escrevem coisas mais ou menos polémicas, se consegue mais ou menos ser falado, comentado, divulgado.

Há quem escreva de propósito para atrair leitores.

Mas não dizíamos que todo o blogger escreve para ser lido?

É verdade, mas há diferenças. Da mesma maneira que o título de uma notícia pode ser criteriosamente escolhido para nos levar a lê-la, um post, o título do post, o conteúdo, o tom, tudo pode ser construído de forma a atrair mais leitores, a provocar mais partilhas, a suscitar mais comentários. Há uma linha ténue entre escrever porque se quer dizer alguma coisa e escrever para atrair leitores. Talvez os melhores bloggers sejam os que conseguem as duas coisas ao mesmo tempo.

Sabendo de antemão tudo isto, o blog do Menino De Sua Mãe posiciona-se desde o seu início num terreno “difícil”: falar de forma séria e desassombrada sobre sexo, sobre a vida, sobre amor, sobre literatura, ser, portanto, um blog “de autor” porque o fio condutor, o que une os textos, é a visão do autor sobre o mundo. Ao mesmo tempo, o autor não dá a cara, esconde-se atrás de um personagem, do Menino, sem idade, sem rosto, sem profissão definida, sem amores assumidos nem lugares a que chama seus. O blog, sendo o blog de uma personagem, não é um blog “de personagem” – faltam os lugares comuns, os trejeitos, as frases recorrentes, a pose. Os temas também não ajudam, porque um dos temas é avassalador: o sexo. A opção, no Menino, é sempre tratar as coisas pelos nomes, dizer “foder” quando é foder e “amar” quando é amar. Não ter medo de dizer que há quem faça minetes a mulheres com o período e goste, por exemplo. Mas ao mesmo tempo não ser um blog de textos eróticos, nem de fantasias sexuais, nem daqueles blogs onde as caixas de comentários estão cheias de “belo texto, meu lindo, chupava-te todo” e de “obrigado, bela princesa tesuda, amanhã vou escrever um texto a imaginar o meu caralho entre as tuas mamas” (isto existe, acreditem). Encher o blog de textos sobre literatura, sobre semântica, traduzir Rilke, nada disto é feito para “contrabalançar o sexo” – é feito porque são essas as coisas que me apetece escrever no momento em que as escrevo, mas acaba por ter o efeito de descaracterizar o Menino como blog de sexo e sobre sexo. A posição como blog “temático” fica desde logo comprometida. Mas, ao mesmo tempo, é um blog cheio de imagens de gente nua, mesmo quando se fala de poesia, um blog com palavrões, um blog que não se pode recomendar aos amigos, um blog que não se pode partilhar no Facebook.

Esta semana, alguém partilhou um post do Menino no Facebook. A seguir, muitas pessoas partilharam esse post do Menino no Facebook. E isso explodiu geometricamente: na quarta feira vieram aqui mais de 35000 pessoas, num total de 83000 page views. O Menino De Sua Mãe, blog pequeno, de trazer por casa, blog ambíguo, coisa lida por uma dúzia de amigos e outros tantos fiéis que por cá passam, teve os seus quinze minutos de fama.

E a seguir, o Facebook, no seu critério puritano habitual, entendeu que as mamas e os cus que aqui se mostram podem ser prejudiciais aos Facebookianos leitores, e passou a censurar os links para o blog com a mensagem enganadora de que se trata de um site “potencialmente perigoso”.

Acabaram os quinze minutos, e podemos continuar descansados a fazer o que fazemos há três anos: escrever, e ler, e comentar e discutir, e a postar mamas e cus e gente nua, e a discutir a vida, e o amor, e o caralho, e a semântica da batata frita, apenas porque nos apetece, apenas porque achamos que há coisas que são importantes e de que se fala pouco ou se fala mal, apenas porque achamos que há coisas que valem a pena ser ditas.

Se calhar, o Facebook tem razão: se calhar o Menino é um blog perigoso, neste mundo onde é cada vez mais perigoso ser a ovelha fora do rebanho, neste mundo onde é cada vez mais perigoso ter ideias, cada vez mais mal visto pensar pela própria cabeça.

13 thoughts on “Jabberwocky, ed. 14

  1. Filipa
    18/10/2014 at 03:41

    Este blog é perigoso porque uma pessoa aproveita todos os bocadinhos para vir ler o que de novo se escreve por aqui, mesmo que seja a uma hora destas, o facebook é que tem razão, está a zelar pela higiene do sono das pessoas…

    Então foi isso…durante esta semana quando por cá passei (e que o arreliei com aquilo das curvas ;)) parecia que Portugal aqui tinha desaguado para falar alegremente de minetes. O que é certo é que quem cá veio já ficou a conhecer o blog e provavelmente vai voltar e recomendar aos amigos, pode-se recomendar Menino preparando-os previamente para as imagens :) e dizendo-lhes para irem primeiro directamente ao post do “cuidado com o cão” e assim ficam preparados para o resto da visita, antes de ficarem de olhos esbugalhados a olhar para nós e a perguntar mas o que é que tu andas a ver? foi assim que eu fiz, não aguentei ter encontrado este oásis e guardá-lo só para mim, ( nesta altura já estou desculpada por causa daquilo das curvas não estou? ;)) bem e agora este post ainda é mais esclarecedor, agora é de indicar este para apresentação.
    E quanto ao é para nós que nos vestimos, posso dizer que no meu caso visto-me para os outros, visto-me de uma determinada maneira por exigências da profissão, de outra para um acontecimento que requeira uma elegância especial, noutros casos porque a ocasião exige roupa mais descontraída e por aí fora, se fosse para mim, num verão quente nem sequer me vestia, só calçava sapatos para não magoar os pés, no inverno, estava sempre com aquelas coisas polares sem nada de sexy, mas fofinhas, confortáveis e macias e com aquelas pantufas muito quentinhas em formato de bonecada e que matam qualquer tesão :) e se escrevesse num blog gostava que me lessem e que comentassem e se gostassem ainda melhor.

  2. Maria
    18/10/2014 at 06:37

    Já partilhei textos teus no FB. Gosto de vir aqui. Gosto de te ler. Não te trago muitos leitores porque sou anónima e com poucos leitores. Escrevo, cito, publico o que me apetece. Gosto que me leiam mas não sou muito lida.
    Acho este blog fantástico.

  3. 18/10/2014 at 06:47

    Linkado! Sem medos nem pudores… medo é de pessoas com mentalidade suja por preconceitos, que pensam que as suas ideias é que são certas… de pessoas que negam sexo e amor, que é tão natural como tantos actos do nosso dia a dia… há quem viva sem, mas há quem não abdique e que mal tem? Que mal há se há quem consiga escrever sobre o que lhe apetecer? Aproveitemos é os bons momentos que a vida nos dá e seremos pessoas melhores e certamente felizes. O Menino continua… e quem não gosta tem uma boa solução “mude de canal”!

  4. 18/10/2014 at 06:48

    Ah e já agora o post do minete é realmente uma bela arte! Parabéns!

  5. Miss10000Souls
    18/10/2014 at 12:20

    Menino, eu estou nessa enxurrada de gente mas vim para ficar. E Menino, estou tentada a considerar este teu talento um serviço público. Um bem-haja e que a inspiração esteja contigo =D

  6. 18/10/2014 at 17:18

    Aliás, na linha de Roth, ou de João Ubaldo Ribeiro, ou de Vargas Llosa, que nunca tiveram medo de nomear a pele e o que ele destapa por palavras com vogais longas, abertas.

    Parabéns, como sempre, caro Menino.

  7. 18/10/2014 at 21:27

    Eu descobri o Menino porque me disseram que aqui se escrevia bem. E realmente não fui enganada. Ninguém me disse que havia imagens indecentes e de bom gosto. Enquanto gostar, hei de cá voltar. :)

  8. lina
    20/10/2014 at 09:26

    Não sei se foi por minha causa, mas de facto eu partilhei o com algumas pessoas que por sua vez também adoraram e partilharam e logo no mesmo dia passadas umas boas horas, de facto, foi censurado… Mas era impossível não partilhar um texto tão Bom! E um Blog assim, merece, não quis ser egoísta! Parabéns! ;)

  9. Grilo Falante
    20/10/2014 at 11:04

    Eu fui dos que vim na enxurrada do minete no facebook. E parece-me que vou ficar leitor deste blog. E vou recomendá-lo aos amigos, aos reais e aos facebookianos, isto apesar de me verem como um conservador. Mas sou um conservador subsversivo, que gosta de fazer um (espero) bom minete e de empregar uma caralhada quando a mesma se justifica, e já vi que por aqui, se usam as caralhadas quando devem ser usadas. E isso é sinal de inteligência. É por fazerem falta blogs e bloguers inteligentes que eu vou passar a seguir este blog.

  10. 20/10/2014 at 13:10

    Não se apoquente com isso dos contadores de visitas, eu pessoalmente não gosto de blogs onde os contadores mostram números astronómicos e onde as caixas de comentários ultrapassam as várias dezenas. Gosto de blogs pequenos e inimistas, onde sei que a aquilo que comento é realmente lido pelo autor. E deixe-me que lhe diga Menino, o seu blog é delicioso na escrita e no conteúdo. (Deixe os 15min de fama para a Jessicas deste mundo…)

  11. 20/10/2014 at 22:13

    Olá Menino,
    Cheguei aqui através de um link que segui do Facebook, gostei do estilo, da abordagem e é merecido o elogio que esse tipo de partilhas demonstra ao autor.
    Continuarei a apreciar um tipo de leitura que, infelizmente, nem todos são capazes de “oferecer”.
    Obrigada.

  12. Marta
    05/11/2014 at 20:22

    Confesso que fui uma das 35000 pessoas que aqui chegou devido ao post partilhado no FB. Não conhecia o blogue e gostei muito. Tanto que me tornei leitora assídua. Claro que os textos sobre sexo são atrativos mas o que me cativou foi o tipo de escrita inteligente e extraordinariamente sensível sobre temas como o amor, as relações humanas e a literatura. Gosto das referências culturais que são mostradas, gosto do tom do blogue, da frontalidade, da forma como o sexo é tratado sem tabus. Acho que não há nenhum outro blogue português assim. Por isso fui ficando. Parabéns, Menino! O blogue é realmente muito bom :-)

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