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Le Loup Garou

Olha-las sempre, com o olhar sereno de quem não vê, alguns diriam que o olhar apascentado de quem foi treinado a não ver, mas tu sabes que isso não é necessariamente mau.

Foste treinado, fomos todos treinados, para apaziguar o predador e ser gregários. Fomos treinados a olhar para as árvores e os cães e as ovelhas como iguais, como parceiros num jogo qualquer, não como presas nem como amantes.

Ensinaram-nos a ter parceiros para viver. Que as relações constam de dar, não de comer-nos uns aos outros. Ensinaram-nos a amansar a fera e os instintos e os rugidos, a ouvir e a calar, e a não morder.

Ainda assim há um limite. Nunca podes esquecer, como outros esquecem, que há um olho que vê de dentro do teu olho, um olhar vive por trás do teu olhar, o olhar do lobo. E há um limite, por muito treinado que estejas, por muito impassível que sejas, há um ponto impossível a partir do qual as figuras sobressaem pelo que são, e és e vê-las e são de novo seres sexuais. Abaixo disso nem reparas, que o treino se sobrepõe a tudo. Mas para lá da linha vem ao de cima o que não controlas: o animal em ti, o uivo da fera.

Quem nega o lobo esquece-se que, mesmo esquecido, o lobo come, o lobo tem fome. As luas cheias não são de mês a mês mas acontecem. Onde está o teu lobo? O que lhe fizeste? Escondeste-o? Renegaste-o? Disseste ao mundo que não existia? Apregoaste-te dócil e treinado? Vendeste-te ovelha para que te comprassem?

Ou domesticaste-lo, saíste com ele à rua em frente a toda a gente, controlaste-lhe os esgares e os impulsos, treinaste-o frente a mil bambis que não comeste?

Quando és lobo? Para quem és lobo? Frente a quem és lobo? Onde te libertas e és selvagem, onde, com quem soltas a fome das corças que não mordeste? Aprendeste, como os lobos, a viver num par que é selvagem junto, que se solta junto, com alguém que te conhece e te vê por dentro, te vê no fundo, e sabe que o teu ar apaziguado é só fachada e controlo?

Ou disseste a com quem vives que “já não”, que o lobo em ti já não existe, e essa fome de carne guarda-la para ti, escondida lá no fundo à espera de uma rua escura, uma sala vazia, uma ovelha perdida que te passa dos limites?

Que lobo és?

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