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Love Engineering

naked engineer“Teoricamente, não há diferença entre a teoria e a prática. Na prática, há.” Seja a frase de quem for, é obviamente verdade, tal como é verdade a diferença de abordagem entre as ciências teóricas e as experimentais, entre a engenharia e a matemática.

Acompanhem-me numa pequena experiência intelectual:

Todos aprendemos na escola que o número pi é a razão (ou quociente) entre o perímetro de uma circunferência e o seu diâmetro. Isto significa que se medirmos o perímetro da circunferência e o dividirmos pelo seu diâmetro, obtemos o número a que chamamos pi. Pi é um de muitos números “especiais”, é classificado matematicamente como um número irracional e transcendental, que pode ser aproximado mas nunca calculado exactamente.

Vamos à tal experiência:

E se pegássemos em todos os átomos do universo inteiro, e os dividíssemos em dois: a maior parte deles íamos pô-los ao longo de uma circunferência gigantesca, todos à mesma distância uns dos outros; os restantes, à mesma distância uns dos outros, iam ser postos ao longo do diâmetro dessa mesma circunferência, para os podermos contar e medir o diâmetro. Se dividíssemos o número dos primeiros pelo número dos segundos, encontraríamos pi***.

Os matemáticos dirão logo que isso seria, ainda assim, uma aproximação. Mas, por um lado, não havendo mais átomos no universo, não poderíamos aumentar a circunferência para conseguir uma aproximação maior. A aproximação que obteríamos de pi seria a maior aproximação fisicamente possível de aplicar no universo, tudo o que fosse mais que isso**** seria perfeitamente teórico e não teria qualquer significado real**.

Em resposta aos matemáticos, dirão os engenheiros que tudo na vida são aproximações, tudo é uma questão de escala, que chegas a um ponto em que amplias tanto que entras em conflito com a própria realidade: se a tua medida ideal, aproximada ao cagagésimo* do milímetro, ainda não te chega, não estarás mais preocupado com a perfeição teórica do que com a utilidade prática do que fazes?

A engenharia ensina-nos onde parar, até onde ir, até onde aproximar. Ensina-nos que nada é perfeito, mas não precisa de o ser, só precisa de ser bastante.

Se o amor fosse coisa de engenheiros, aprenderíamos que o amor, como pi, não tem limite; pode sempre haver mais amor, pode até haver amores maiores; o importante é sabermos de que tamanho é o amor que nos basta – sem entrar em compromissos, sem fazer descontos, sem acharmos que somos menos do que somos – sabermos o tamanho do amor que nos basta, e sabermos reconhecê-lo quando o vemos.

Se o amor fosse coisa de engenheiros, aprenderíamos que só há três coisas importantes nisso do amor:

  1. Saber quanto nos basta
  2. Saber reconhecê-lo quando o vemos
  3. Saber que, depois de achar, o truque é parar de procurar

Se o amor fosse coisa de engenheiros, haveria mais amor feito e menos gente a andar por aí a comparar a quantas casas decimais já calculou pi.

* um cagagésimo é, em termos técnicos, a fracção mais pequena imaginável

** antes que se levante outra questão: se fosse possível medir com precisão absoluta tanto o perímetro como o diâmetro de uma circunferência, não estaria pi calculado de forma irredutível? E se pi é irracional, como é que pode ser uma fracção, diâmetro/perímetro? O facto de pi ser irracional, na verdade, o que nos diz é que nunca conseguiremos obter a medida exacta do perímetro de um círculo, por mais que tentemos. Se quisermos ir mais longe, ainda podemos ir: usando matéria nunca poderemos construir um círculo, porque a matéria tem forma e insiste em ocupar espaço e em se ligar uma à outra em ângulos específicos. É como tentar construir um círculo com LEGOs quadrados.

*** não precisam de me explicar que não há qualquer garantia de que a dimensão exacta do diâmetro viesse a ser um múltiplo da distância arbitrária entre os átomos, e que é exactamente desse facto que decorre o facto de este pi ser apenas uma aproximação: eu sei disso, mas a essência da questão aqui não é essa, é outra.

**** na verdade bastam 62 casas decimais de pi para conseguir calcular com rigor o perímetro do universo a partir do seu diâmetro. Qualquer aproximação de pi superior a isto é inútil para todos os efeitos práticos.

4 thoughts on “Love Engineering

  1. 19/11/2014 at 11:14

    Concordo na medida em que se o amor fosse coisas de Engenheiros, seria muito mais racional, seria racional ao ponto de ser adaptável à pessoa e à situação que pretendemos seja ela qual for. Quer isto dizer que a Engenheira é uma ciência prática que engloba todas as ciências exactas e assim sendo é a forma mais racional que podemos que podemos encontrar da Ciência.
    A Engenharia consegue adaptar todo o problema/questão para ir no sentido da resposta que mais nos for conveniente assim sendo, e se o amor fosse realmente coisas de Engenheiros, era prático e adaptável entre quaisquer duas pessoas escolhidas ao acaso dentro da Terra (isto porque se falarmos de ciência aeroespacial já teríamos de extrapolar certas condições que ultrapassariam a ciência exacta), ou seja no fundo a essência do meu argumento é que poderíamos pegar em duas pessoas ao acaso e através da racionalidade e da procura de pontos comuns (ou da resposta que mais nos convier fazendo paralelismo com qualquer problema da Engenharia) poderia haver amor.
    Posto isto, ainda bem que o amor não é coisa de Engenheiros.
    (Isto foi apenas um dos muitos pontos de visto por onde se pode pegar neste texto!)

    (Este comentário foi escrito ao abrigo de uma licenciatura e de um mestrado em Engenharia ;) )

    1. 04/12/2014 at 08:41

      Margarida,

      É um ponto de vista, defensável, mas rebatível… ;)

      Mas ainda bem que há coisas que são como são, admito :)

  2. Filipa
    19/11/2014 at 21:40

    A propósito (caso eu tenha interpretado bem, senão, é mudar para a despropósito :))

    Ele: Encontrei a mulher mais linda, mais simpática, mais inteligente, mais boa pessoa, mais tudo do mundo inteiro
    Ela: Como é que sabes?
    Ele: Como é que sei? sei, sinto, nunca tinha conhecido ninguém assim
    Ela: Sim, acredito, é o que sentes, mas não podes dizer que ela é a mais tudo do mundo inteiro, porque para isso tinhas de ter conhecido todas as mulheres que existem no mundo, olha, é como nos concursos de misses, em que se elege a mais bela do Universo, que, e mesmo assim não é consensual, é só a mais bela de entre aquelas que concorreram
    Ele: Estou apaixonado como nunca estive antes, de todas as mulheres que já conheci e conheço, prefiro-a a ela, é a ela que quero ter do meu lado para o que der e vier…
    Ela: Pois é isso, de entre as pessoas que tens a possibilidade de conhecer na pequenina parte de mundo em que te moves, ela é a tua preferida, nunca podes é dizer que ela é a melhor do mundo, nem sequer que é a única certa para ti, nem sequer que é a única a poder dar-te o que desejas, sonhaste, e por aí fora…
    Ele: Sim, claro, isso é tudo verdade, mas o que eu sinto, é que, mesmo que tivesse a oportunidade de conhecer todas as mulheres do mundo, continuaria a ser ela a minha preferida.
    Ela: Ah! então que bom para ti, isso, para mim, também seria o bastante

    FIM

    1. 04/12/2014 at 08:41

      Filipa,

      É por aí, é :)

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