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Magikarpe Diem

magikarp-cosplayQueixamo-nos do tempo, quando não nos queixamos do clima – queixamo-nos de chronos, queixamo-nos muito de não conseguir meter kairos em chronos, até se queixa quem não sabe o que isso é. E enquanto nos queixamos de não ter tempo para nada, usamos o tempo, quando o temos, no que não serve para nada.

Devíamos usar o tempo – raro, escasso – de forma que importe, que deixe marcas; que adiante alguma coisa, que nos melhore a vida, que nos transforme de alguma forma, a nós ou aos outros. É essa a teoria. Quando Homero dizia, há três mil anos, que os deuses nos invejam porque – sendo nós mortais – todo o nosso tempo é especial e mágico, não estava provavelmente a pensar que a consciência da nossa própria mortalidade nos faz dar mais valor ao tempo que passamos a jogar Candy Crush.

Nem todos vamos curar o cancro nem escrever, com o tempo que nos é dado, the great american novel; mas o homem é um ser colectivo e ao mesmo tempo um ser social, e a forma de não morrermos – já o sabia Camões, e outros antes dele – é vivermos nas memórias colectivas, nas memórias sociais, vivermos através do impacto e da influência nos outros, seja escrevendo, deixando obra, mudando a história, ou, simplesmente, interagindo, enriquecendo, dia a dia, a vida de alguém.

Epicurismo à parte, é estéril o que só a nós nos sirva; ou usamos o que somos e sabemos para ensinar, transformar, fazer feliz alguém, ou não sobrará nada ao morrermos e tudo terá sido fútil, tudo terá sido vão.

Há que não ser imediatista: por vezes o que absorvemos leva anos a dar fruto, o que lemos só tempos depois nos é útil, e muito do que aprendemos não serve de facto para nada senão para nos tornar quem somos; tudo isso importa e tem valor.

Mas com o tempo aprendes a distinguir o que te constrói do que só te ocupa, o que te melhora do que te entretém. No fim de contas, conta o que se faz com os outros, e, de alguma forma, aprendes que jogar canasta com alguém é melhor do que escrever para a gaveta sozinho, foder é mais útil que masturbares-te, o Pokemon Go só interessa se partilhado, comentado e jogado em grupo, com gente real e viva.

No limite, andar com alguém às magicarpas pode ser mais íntimo e bom do que foder como algumas pessoas fodem, como se se masturbassem com o corpo do outro.

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