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Magro Contributo Para Uma Psicologia Do Terror

“The most merciful thing in the world, I think, is the inability of the human mind to correlate all its contents. We live on a placid island of ignorance in the midst of black seas of infinity, and it was not meant that we should voyage far. The sciences, each straining in its own direction, have hitherto harmed us little; but some day the piecing together of dissociated knowledge will open up such terrifying vistas of reality, and of our frightful position therein, that we shall either go mad from the revelation or flee from the light into the peace and safety of a new dark age.”

— H.P. Lovecraft, The Call of Cthulhu

Falar de terror enquanto género padece de um mal universal: o mundo não é limpinho, bonito e organizado, com uma ontologia clara de escolhas inambíguas. Por muito que o queiramos, é difícil enquadrar uma obra numa categoria só. Que o diga quem já tenha tentado organizar uma colecção de filmes pornográficos. O “Anal Couples Swap”, de 2015, vai para a pasta do sexo anal, do sexo em grupo, ou das MILFs? Imagino que seja uma escolha difícil.

A prova de que o terror enquanto categoria é uma definição limitativa está na própria história das definições. Quando Mary Shelley escreve o “Frankenstein” o género “terror” nem sequer existe. Aliás, Frankenstein nem sequer é uma obra de terror – é uma obra de reflexão sobre a natureza e a ciência, sobre o divino e o humano, sobre os limites do ético, sobre a divisão de classes, sobre a consciência. E 200 anos depois, após tentativas várias de definir o terror, a inefabilidade dos géneros levou-nos a tais subdivisões como o suspense, o thriller, o gore. Já nada é simplesmente “de terror”, tal como em outros géneros já ultapassamos largamente essa simplificada linha. Enquadrar um policial no espaço com sustos e monstros torna-se tão complexo como arrumar o “Anal Couples Swap”.

O terror não é, obviamente, um só género. Nem todo o terror tem sustos, nos faz saltar da cadeira. Algum só nos obriga a acender a luz, nos faz ter medo de ir às escuras para o quarto. Só nos faz passar a recear certas coisas para a vida inteira, dá-nos um weltamschaung mais negro, menos seguro, mais receoso. E é talvez esse o melhor terror.

O efeito do terror no ser humano tem sido objecto dos mais variados estudos, tentando esclarecer o que nos leva a procurar algo que nos assusta. A conclusão que mais sentido faz para mim é a de que procuramos o terror como quem faz bungee jumping ou vai a uma montanha russa: queremos o susto, a sensação de medo, sabendo que estamos seguros. É isso, a meu ver, que explica porque há mais gente a ver filmes que se passam à noite em cemitérios do que gente que vá à noite a cemitérios. Queremos ser assustados por algo que não nos magoa realmente, que não é real. Um estudo dos anos 90 (Haidt, McCauley, and Rozin, Individual Differences in Sensitivity to Disgust: A Scale Sampling Seven Domains of Disgust Elicitors, 1994) concluiu que a maior parte de nós não gosta de ver cenas de terror real: chacinas de animais, operações cirúrgicas nojentas. No entanto, as mesmas pessoas não reagem negativamente ao terror, porque introduzem uma componente de distanciamento que, ao mesmo tempo, que lhes dá medo, lhes dá segurança.

Zillman e Mundorf, nos anos 80, já tinham estudado o comportamento humano quando vemos terror acompanhados (Zillmann, Dolf, Weaver, James B. ,Mundorf, Norbert, Aust, Charles F., Effects of an opposite-gender companion’s affect to horror on distress, delight, and attraction, 1986), descobrindo que os homens (alfa, estereotípicos, afinal eram os anos 80) apreciavam mais os filmes de terror quando uma companheira do sexo feminino reagia emotivamente ao filme, ao passo que as mulheres os apreciavam mais quando uma companhia masculina se mostrava calma e serena. O terror, afinal, serve para trazer ao de cima os estereotipos de género e mostrar que, mais de 12000 anos depois, dois milhões de anos de Paleolítico são difíceis de apagar.

Claro que a sociedade evoluiu desde aos anos 80 e 90. A internet trouxe uma maior globalização da cultura, e o terror vê nisso uma vantagem dupla: por um lado, a reacção ao medo é uma das mais basais e profundas, e é portanto menos dependente de uma matriz cultural. O medo, tal como riso ou o sexo, ancoram-se nos centros de processamento mais profundos e instintivos do nosso cérebro. O riso tem uma patine cultural mais espessa: parte do que nos faz rir é baseado na linguagem e na cultura, e até o humor mais físico é visto diferentemente por distintas civilizações. o humor baseado em quedas e acidentes, por exemplo, não faz rir toda a gente, e muitos europeus não entendem a piada que os americanos acham à flatulência. Até no sexo há diferenças culturais vincadas, especialmente em culturas mais isoladas da colonização e do mainstream cultural, e coisas tão integrais ao acto sexual ocidental como o beijo ou o sexo oral são, algures em África ou na Ásia, vistas com repúdio e reprovação.

Por oposição, o terror tem bases largamente universais. Abstraíndo alguns tropes que assentam em expectativas sociais (explicar a um índio Tupi do Amazonas porque é que estar no meio da floresta sem rede no telemóvel é assustador), e outros que requerem ancoragem cultural (é difícil ter medo de vampiros até ver o primeiro a atacar alguém, e ninguém entende porque é que uma ilha é um bom refúgio contra zombies se não souber que os zombies não sabem nadar (yõ) ), é fãcil ir de encontro aos medos primordiais: o escuro, a impossibilidade de fugir, a futilidade de lutar, os répteis, as coisas que nos prendem os pés no escuro, os mortos mal mortos, o medo do invisível.

É por isto que tanto temos medo de vampiros europeus como do chupacabra, do yeti, das raparigas mortas dos filmes japoneses, do Chthulhu ou de aliens maléficos. Marcha tudo, desde que saibamos que não é a sério. Um filme sobre voltar para casa a pé, à noite, em Chelas, isso é que não.

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