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Magros Contributos Para Uma Ontologia Da Implicância

Escrevo pouco porque ando irritado.

A irritação, tal como as alergias, é uma questão pessoal. Dificilmente os alergéneos se organizam para te atacar; estão lá, quer isso te afecte ou não. Espirrares é só problema teu. A irritação com as coisas é ainda mais agudamente problema teu, à primeira vista a irritação é um acto de vontade, e podes escolher aceitar, entender, ou ignorar, em vez de andares incomodado. E é isso que faço habitualmente, aceito umas coisas, entendo outras, ignoro as que posso. E isso funciona, até pensar em escrever.

Queria escrever qualquer coisa sobre o Valentine’s, porque foi dia disso. Já antes queria ter escrito sobre o Carnaval. O que há de comum entre os dois, exceptuando a suposta origem nos ritos e mitos religiosos, é a forma como polarizam as pessoas. Em ambos os casos há quem se divida em campos, os contra e os a favor, como se isso fizesse algum sentido, e há nisso algo que me irrita – não o facto de haver quem seja contra (que é coisa que respeito, e que até apoio), mas o facto de haver muito quem tenha opinião formada sem nunca ter sequer pensado a sério nisso.

Exceptuando quem é sistematicamente contra tudo (que é uma posição dogmática tão respeitável como outra posição dogmática qualquer – ou seja, zero), quando se é contra o Valentine’s, ou o Carnaval, é-se afinal contra o quê? Analisemo-lo numa perspectiva dupla:

Taxonomicamente, pode ser-se:

  1. contra o facto de nos obrigarem a comemorá-las
  2. contra o facto de outros as comemorarem
  3. contra o facto de ser impossível ignorar o facto de elas existirem e haver pessoas a comemorá-las
  4. contra o facto de ser impossível ignorar o facto de elas existirem e acabarmos por levar com o impacto das comemorações.

Semioticamente, pode estar-se:

  1. contra o facto de se comemorar, porque achamos que não se devia comemorar
  2. contra a maneira como se comemora, porque achamos que é errado que haja quem comemore assim
  3. contra a maneira como se comemora, porque não queremos tomar parte nas comemorações da forma como elas existem
  4. contra o facto de não se comemorar de outra maneira, porque gostaríamos de tomar parte nas comemorações caso elas fossem de outra forma
  5. contra o facto de as pessoas em geral não entenderem o verdadeiro significado do evento, o que as levaria a não comemorar / comemorar de outra maneira

Transversais às duas perspectivas encontramos dois focos de preocupação – quem se preocupa com o impacto que algo tem em si, e quem se quer meter na vida dos outros – e duas linhas de pensamento – quem está contra a coisa em si e quem está contra a forma como é comemorada.

Uma análise por quadrantes permite-nos identificar três principais tipos de pessoas segundo a sua atitude em relação à forma de estar contra a comemoração das efemérides:

Os casmurros são contra o facto de se comemorar alguma coisa, normalmente porque acham que não é digna de comemoração, e não querem ser confrontados com a comemoração porque isso os chateia. (ex. não gosto do Carnaval porque é uma ocasião estúpida e irrelevante no contexto actual)

Os quadrados são contra a maneira como as coisas se comemoram, e não querem ser confrontados com a comemoração porque a maneira como ela é feita os chateia (ex. não gosto do Carnaval porque as festas fazem imenso barulho e as ruas estão cheias de pessoas inconvenientes)

Os parvos estão contra o facto de os outros comemorarem as coisas, não porque isso os incomode pessoalmente mas porque acham que os outros não deviam fazer certas coisas simplesmente porque eles são contra (ex. no Brasil comemoram o Carnaval e eu acho isso mal e gostava que fosse proibido)

Existem casos excepcionais de antítese dos casmurros naquilo a que chamaríamos os fanáticos, que consistem das pessoas que estão contra a comemoração de algo exactamente porque acham que devia ser mais comemorado, com mais fervor e um âmbito maior. (ex. não comemoro o Dia Mundial da Couve a 17 de Fevereiro porque acho que deveria ter muito mais significado, ser levado mais a sério, e ter mais projecção mediática – assim no estado em que está, não comemoro em sinal de protesto).

igualmente há casos excepcionais de antítese dos quadrados naquilo a que chamaríamos os tarados; enquanto os quadrados normalmente advogam uma forma mais digna, mais séria e mais pomposa de comemoração das coisas, os tarados estão contra a forma de comemoração por esta não envolver suficiente álcool, festa e gente nua. (acho que não é preciso exemplo, toda a gente tem um amigo assim)

Após esta pequena introdução, e estabelecidos que estão os referenciais comuns, torna-se mais fácil explicar o que me irrita principalmente nas atitudes “do contra”: a sua tendência em resvalar para a parvoíce. Acho lindamente que as pessoas sejam casmurras, que sejam quadradas, ou fanáticas, ou taradas. Irritam-me que sejam parvas, especialmente que sejam parvas em público, e principalmente que o público seja eu. É casmurrice da minha parte – pois é – mas não gosto de gente parva. Acho repulsivo alguém querer dar palpites sobre a vida dos outros – é o tipo de coisa (tal como arrotar, ou dar puns) que se faz em privado, num grupo fechado, cortamos na casaca de alguém e rimo-nos muito, é uma espécie de desporto. Vir para o meio da rua criticar as efemérides dos outros é estúpido. Não gostam, não comam. Não vão aos sítios onde isso acontece. Vão de férias para qualquer lado. Não leiam jornais nesse dia. O facebook não é um direito fundamental, e ninguém tem o direito a que o mundo se desvie para fazer um espacinho onde não se sintam ofendidos. Se o teu periquito morreu e estás mui triste, não esperes que o Carnaval se desvie nem que o mundo faça minutos de silêncio. E se estás encalhado e te aflige o Valentine’s, temos pena. Ah, que não há onde jantar, porque está tudo reservado. Aldrabice. Aposto que a tasca do Zé não tem menus de namorados; nem o McDonalds. Manda vir pizzas. Ou aprende a cozinhar, que já tens idade.

 

 

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