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Maiêutica

Devemos ser dos poucos seres que se ajudam uns aos outros a parir. Na natureza os animais escondem-se em qualquer lado e parem os filhos, e não consta que haja vacas que vão ajudar as outras a ter vitelos. Múltiplas razões fazem que assim seja: somos invulgarmente cabeçudos, nascemos invulgarmente inacabados, temos as ancas invulgarmente estreitas. Desenvolvemos processos e rituais que nos ajudam a ultrapassar isso, a sobreviver apesar disso, sem eles estaríamos extintos, uma evolução, como tantas, que teria corrido mal.

Chegámos ao ponto em que o que é estranho é o parto solitário: é uma raridade e um risco, que só corre quem tem mesmo de o correr. O mundo, que é grande e diverso, e onde ainda há quem ajude a parir filhos com pouco mais que boa vontade e um púcaro de água, vê nascer tendências de “naturalidade” que é tão artificial como outra coisa qualquer – partos sem médico, sem hospital, sem episiotomias, partos dentro de água, mas em água limpa e morna, partos em casa, e não numa gruta qualquer.

Crítico em tudo isto é quem ajude, quem encaminhe, quem apoie, quem saiba para onde temos de ir e nos leve, num momento em que, presumo, nem se sabe bem onde se está nem comos e sai dali.

Sócrates, o grego, foi o primeiro a recontextualizar a arte de parir. Inspirou-se no parir de filhos, sempre – quase sempre – por mão de alguém, e pensou que seria igual o parir de ideias. Pensou que as ideias podem já estar dentro de nós, grandes bolas de coisas que nos deixam inchado, e precisam de quem, com as palavras certas, com as perguntas certas, as faça sair, nos faça pari-las.

Encontramos este conceito mil anos depois, a milhares de quilómetros dali, nos koan do budismo zen. Mais do que ter uma função dialética, é pela sua compreensão súbita que se produz o parir da ideia. O que Sócrates fazia contrapondo, o zen faz sem contraponto, como se fosse o som de uma só mão a bater palmas.

Talvez, mais mil anos depois, o encontremos em tudo. Os pensadores do Renascimento usavam-se uns aos outros, e às ideias dos outros, como catalizador para as suas. Não havia limites nem fronteiras para aquilo que um homem pudesse pensar, excepto a falta de dinheiro e de saúde, (que às vezes as ideias precisam de capital para ganhar corpo), ou a ocasional igreja ofendida a condená-los ao veneno ou à fogueira (como se ela, a igreja, fosse tão frágil que simples palavras fossem para si ameaça, ou como se fosse tão afastada da verdade que simples e observáveis factos a pudessem contradizer).

A maiêutica, no século XXI, continua tão viva como o haver de outro humano que nos apara ao nascer. Ainda falta um pouco para que as máquinas lá cheguem, num caso como noutro – mesmo apoiado por uma máquina, como quem lê um texto num écran pequeno ou grande, são ainda as palavras dos outros que provocam o tal parir da ideia em nós. E é nos outros, mesmo à sua revelia, que procuramos o que nos inspire. Não o que faça por nós, mas o que nos diga o que fazer; não o que nos ponha na boca as palavras, mas o que as faça jorrar lá do sítio de onde vêm, de um qualquer útero profundo que há dentro da mente.

É difícil fazermo-nos parir ideias, como é difícil parir filhos sozinho. Por isso, tantas vezes, nos socorremos de algo, nos inspiramos em alguém. E há quem diga – seja qual for a coisa, haverá sempre quem diga – que isso é menos puro, que isso é menos bom, que isso é menos nosso, como se os filhos fossem fossem mais da parteira do que nossos. E isso dói-nos, não por ser verdade, mas aquela dor velada e surda, como dói sempre que alguém diz mal dos nossos filhos, do nosso povo, da nossa terra, do nosso amor. Como se fossem coisas vivas, as ideias, e as palavras, e os blogs, e os livros. Porque sairam de nós.

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