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Manual de Instruções, cap. 107 – O Tinder É Para O Que É

Fico com a impressão de que andar no Tinder à procura de relações sérias é como ir ao festival panda arranjar um oftalmologista. Deve lá haver alguns, se calhar bons, mas o sítio não é nada feito para isso. E, no entanto, de cada vez que se pergunta “então, e vieste para andar no carrossel?” a resposta é “não, claro que não, eu procuro é um oftalmologista!”.

Em Portugal um número impressionante de perfis de Tinder de mulheres tem, em gordas letras, disclaimers a dizer “não quero sexo casual, procuro uma relação séria”, como se procurar outra coisa qualquer as marcasse, aos olhos de uma sociedade que, por moderna que se pinte, ainda julga e condena, como umas badalhocas que andam ali à procura de homens. Subsiste a dúvida sobre se o que dizem é um facto, se quem está no Tinder à procura de alguém com quem passar um bom par de horas de sexo são as que têm o perfil em branco (o que daria uma boa percentagem), ou se isto do Tinder das relações sérias é a nova versão de quem compra a Playboy para ler os artigos.

Sim, todos sabemos que as mulheres (algumas mulheres) têm receio de ser “usadas e deitadas fora”, aliás são as próprias, com esse comportamento, a perpetuar o mito de que o sexo é uma coisa que os homens querem e a que as mulheres acedem, porque elas na verdade querem é uma relação emocional. Ao mesmo tempo ninguém fala dos homens, dos homens normais, não só os playboys, que vivem com o receio de ser friendzoned, atirados irremediavelmente para a caixa dos amigos, sem poder dizer abertamente “não, não quero começar por ser teu amigo, quero começar por te saltar para a cueca e, aí sim, quando tiver a certeza que não me vais aldrabar, desenvolver uma relação e uma amizade contigo”.

É bonito pensar que o amor é algo que acontece quando as pessoas menos esperam. E, em muitos casos, é verdade. Mas se o idílico é apaixonares-te e a relação ser consequência, inevitável, disso, o que dizer dos casos em que a predisposição antecede o facto, em que decidimos que queremos uma relação ainda antes de ter alguém em vista, os casos em que vamos para o Tinder dizer que queremos uma coisa estável e para durar?

Não me interpretem mal, acho que querer algo estável e para durar é uma ambição legítima, aliás como o são todas as vontades que não interfiram com os direitos de outrém. Podemos, até, ter essa ambição e isso permear tudo o que fazemos na nossa vida, como aliás o faz a nossa personalidade, o nosso carácter, as nossas crenças e desejos mais profundos. Mas quem se inscreve num curso de olaria deve – devia – querer ir lá aprender a fazer coisas em barro. Quem vai para um escritório trabalhar deve – devia – ir lá fazer o seu trabalho. Quem anda no coro da igreja é para cantar – mesmo que cante mal e lá vá mais pelo convívio, mas – que raio – é o coro da igreja, é mesmo para isso. E a todos estes lugares onde vamos, podemos ir com a esperança e o desejo, lá no fundo, de encontrar alguém de que gostemos, que nos encante, que nos arrebate, por quem nos apaixonemos, com que sejamos felizes.

O que não podemos é ir para lá com essa agenda oculta e ficar muito frustrados porque só aprendemos a fazer jarras de barro. Ou, pior ainda, ir para a jardinagem apregoar a quem nos ouça que detestamos aquilo, odiamos ervas, só fomos lá para arranjar um marido. Pior ainda, a resmungar contra quem nos diga que estamos errados, a quem se diga que “olha que isto é uma cena para outra coisa, não é para arranjar maridos…”,  e responda “ah, mas há aqui gaijos, e eu quero um marido!”,  mesmo que se lhe explique que elas é que se foram lá inscrever, que ninguém as obrigou, e que aquilo é, suponhamos, um curso de técnicos de gás, portanto é normal que lhes perguntem pela bilha e pelas tubagens, e que se não são os outros que são tarados por só falar nisso, são elas que são parvas por achar que lhes iriam falar de outra coisa.

Mas provavelmente dizer isso é politicamente incorrecto, nos tempos que correm.

 

 

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