1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (1 votes, average: 4.00 out of 5)
Loading...

Manual de Instruções, cap. 94 – A Globalização Do Desejo

light_above_ladder_study_69_by_studio4496O problema actual das relações, para quem as não tem, é a globalização.

Senão vejamos: O problema da globalização é a concorrência. Uma loja qualquer consegue, com esforço, competir com as lojas da sua rua, mas perde sempre ao medir-se contra as Primarques, as Chanéis e as Amazones. Vai lá pela proximidade, pelo desenrasque, pela vizinha que leva agora mas só paga no fim do mês, ou no outro a seguir. E, mesmo assim, quem compra vem cheio de expectativas sobre coisas que viu na internet. O vizinho da drogaria vende cola, mas o freguês viu no site do Aki que ali é mais barato, e assim não leva, ou leva menos, ou leva porque tem de ser, mas resmungante e contrariado. O exemplo do comércio é extremo mas acertado: a mulher que hoje procura um namorado fá-lo com um conjunto diferente de expectativas e critérios. Não são só as mulheres que estão mais exigentes, a globalização e a internet dão-lhes amostras e exemplos de homens – hipotéticos e distantes – que de uma forma inconsciente definem a fasquia com que os outros são medidos.

Os homens são, historicamente, menos exigentes. Não é comum ver homens queixar-se que “não há mulheres de jeito”, até porque, pela lei geral da fodibilidade, as mulheres sobem imenso na consideração de um homem quando ele imagina que poderão querer ter sexo com ele (podem descer logo a pique depois da coisa se dar, mas isso é outra questão).

Mas as mulheres, que desde o paleolítico se impõem o dever de escolher o melhor homem (falhando, com frequência, redondamente), encontram na globalização e na internet (que é para os homens um fantástico facilitador) uma fonte de acrescidas dificuldades. E explicamos porquê.

Antigamente, antes das rádios e das televisões, era relativamente fácil uma mulher pensar que o Jorge – chamemos-lhe Jorge – era o homem mais bonito que alguma vez tinham visto. De facto, em certos meios, uma rapariga teria visto, até aos 18 anos, umas escassas centenas de homens, talvez umas dezenas deles de perto. O critério do mais bonito, do mais simpático, do mais charmoso, do mais inteligente, trabalhador e correcto, qualquer uma destas lutas se travava entre duas dúzias de tipos, nas aldeias ainda menos. E as mulheres escolhiam – as que escolhiam, mas algumas escolhiam – convictas de que escolhiam o melhor artigo da vitrine.

O cinema vem mudar isto; os galãs abrem as portas a outros critérios, e os olhos a muita gente. Subitamente o Jorge já não é comparado ao Carlos da oficina, ao Vítor-chofer-de-praça, ao Nelinho ali do banco. Medido contra Errol Flynns e Bogarts, o Jorge sabe – prefere ignorar mas sabe – que a Alzira, mesmo que o queira, vai pensar que ele “não é nenhum Clark Gable, mas pronto”. A televisão aprofunda este fenómeno da exposição a outros homens, outros galãs, outras vedetas, aos intelectuais, aos cantores. A concentração nas cidades faz, pelo seu lado, outras transformações, alargando o horizonte da potencial escolha. Com mais homens na sua rua, e tantos na televisão, a Alzira e as amigas dificilmente casarão, ao contrário das suas avós, com o homem mais bonito que haviam visto na vida.

A juntar a isto, há as revistas, que não só mostra homens bonitos e charmosos como contam histórias do que eles fazem e do que eles dizem; mostram o casamento de um, o noivado de outro, um terceiro a passear num iate, o anel de noivado que um quarto deu a uma quinta, um sexto a visitar aldeias e a fazer festas a meninos órfãos. É uma espiral mortífera para o homem da rua, que tem de se medir com tudo isto, com esta imagem de homem bom, de homem ideal, que ele nunca vai ser, ele que tinha conseguido chegar ao que era um homem bom no tempo do seu avô: tinha um ofício, ganhava para alugar uma casa, andava com roupa lavada, sabia dizer duas frases sem palavrões sem se engasgar.

Se a coisa ia mal, ainda piorou com a internet. Já não há só vinte actores conhecidos, há centenas ou milhares. E as revistas, que eram cerca de uma dúzia, hoje são milhares de sites e o Facebook e outros que tais, a bombardear as mulheres com a perfeição dos homens do estrangeiro, e mil artigos por semana a explicar tudo o que um homem deve ser, tudo o que um homem deve ter, tudo o que um homem tem de saber.

Não foram os homens que pioraram. Os homens continuam a ser o vinho caseiro, a jeropiga da quinta, a aguardente do tio Quim, que se bebia e de que se gostava. Havia era menos anúncios de Ouzo grego, champagne francês, whisky australiano.

One thought on “Manual de Instruções, cap. 94 – A Globalização Do Desejo

  1. António
    30/10/2016 at 11:34

    há coisas que melhoraram: o vinho verde do minho está tão bom como o albariño da galiza

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.