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Natal

Só na quadra natalícia se ouve dizer que o Natal é quando uma pessoa quiser, e que pode ser Natal todos os dias do ano. No resto do ano ninguém fala no assunto. Na quadra natalícia, com o Natal à porta, ninguém quer fazer o Natal três dias antes; mais vale esperar e fazer o Natal na mesma altura que toda a gente. Ultimamente é esse o espírito do Natal, é o que resta do Natal: uma ocasião que todos celebramos juntos, ao mesmo tempo, mesmo que o Natal, para cada um, seja uma coisa diferente. Para alguns o Natal ainda é a família alargada, a ida à terra, feliz para uns, penosa para outros, dependendo de quão fácil de aturar a família é. Para outros é uma coisa mais pequena, mais íntima, a família dita nuclear e pouco mais. Outros ainda juntam amigos, sempre os mesmos, num Natal que é talvez mais familiar que o de muita gente do mesmo sangue. Para além do nosso Natal particular, temos do Natal a imagem que nos sirva; unimo-nos voluntariamente em torno de um estereotipo, e não questionamos de facto o que o Natal é para os outros; se fizermos muitas perguntas arriscamos quebrar a ilusão, perceber que, mesmo no Natal, ninguém está unido em torno de nada, já nada é universal. Se para alguns o Natal ainda tem alguma âncora religiosa, para outros é só uma reunião da família, para outros é uma tradição, outros só vêem a festa das crianças, outros sentem-no como uma festa grande, um pretexto para uma reunião de gente que gosta de estar junta. A universalidade, essa, perdeu-se, como se perdeu a universalidade de tudo. Talvez sobre a passagem de ano – menos polémica, menos fracturante. Mas a mim não me tiram o Natal, porque o meu Natal é meu, e é bom.

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