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Nota Breve Sobre Os Pares De Cornos

horned maskAparentemente é fácil perceber a traição com pessoas boazonas e mais difícil entender a traição feita com gente feia, gorda, baixa, ou com gente velha, coxa, desdentada, meio careça. Pensando na traição de forma mais primária, menos sofisticada, na traição que é foder com alguém, parecemos achar normal que seja a atracção física o motor de tudo, esquecendo que há tantas outras coisas que nos fazem, metaforicamente, abrir as pernas.

Perguntava um leitor outro dia: o que leva uma mulher de 45 anos a deixar-se seduzir por um homem vinte anos mais velho? Podemos extremar mais: o que leva uma mulher de 30 anos a deixar-se seduzir por um homem de 70?

É certo que há homens de 60 ou 70 anos com muito bom aspecto, em boa forma física; e que o poder de sedução dos homens ditos maduros é mais que apenas um mito. A mecânica da sedução, nas mulheres mais que nos homens, funciona de forma mais complexa que a simples atracção visual, animal, física. Há uma componente de segurança, de estabilidade, de admiração, que faz com que muitas mulheres se sintam atraídas por um homem que é calmo, que é maduro, que é bem resolvido, que lhes transmite paz, que as faz sentir seguras, que lhes fala de coisas que lhes interessam e lhes conta coisas que sabe, e, sobretudo, coisas que fez, que lhes mostra uma maneira de estar no mundo que as faz sentir-se especiais por estar ali.

Isto não é exclusivo das mulheres: há homens, especialmente mais jovens, que se deixam seduzir por mulheres mais velhas sem ser exclusivamente pelo dinheiro ou pelo estilo de vida que elas lhes possam proporcionar; que se deixam encantar pela experiência de vida, pela personalidade, pelo círculo de amigos em que ela se move, pelas coisas que sabe, pelos filmes que viu e pelos livros que leu, pela opinião que ela tem sobre as coisas do mundo, pelos relatos na primeira pessoa que faz dos sítios onde foi, das gentes com quem falou. Isto fascina, fascina de uma forma diferente de um par de mamas 38 aos 26 anos, fascina de forma diferente de um rabo sem celulite – mas, sendo diferente, não é necessariamente pior.

O encantamento por alguém tem muitas formas. Não nos atrai só a pessoa-objecto, a coisa-boa-de-foder. Há a pessoa que nos faz sorrir; a que nos faz rir; sim, também há o parque-de-diversões, mas há mais, há quem nos faz pensar, há quem nos ouve sem julgar e quem nos fala sem gritar, há quem vibra com as nossas vitórias, quem é contra os nossos inimigos sem nunca os ter visto à frente, há o nosso porto seguro. Toda a gente quer isso, toda a gente quer ter um porto seguro, ou ser o porto seguro de alguém.

Mas voltemos ao sexo: se uma mulher de 50 anos responder a um minete com muito mais emoção, com muito mais entrega, com muito mais honestidade que uma outra mulher de 30, qual te cativará mais, a qual quererás voltar a foder? Se um homem de 50 anos mostrar muito mais prazer com o toque da tua boca no seu pénis, mostrar muito mais apreço pelo facto de o chupares do que um outro, de 30 anos, que te trata como se o broche fosse tua obrigação, e, ainda por cima, diz que o estás a fazer mal (em vez de te ensinar como gosta), com qual preferes foder, voltar a foder?

Se um homem de 60 anos tratar a tua companhia com um prazer raro – mesmo que te veja todos os dias – e fizer tudo o que estiver ao seu alcance para teres mais conforto e estares mais feliz, e tornar óbvio quanto te aprecia e te deseja, que efeito tem isso em ti, comparado com o homem de 20 anos que te trata como algo óbvio e banal, que está sempre ali, e se baba pelas mamalhudas da Internet, da TV e do café da esquina?

Reagimos à diferença. Sentimos mais frio quando acabámos de ter calor, sentimos mais ácido quando acabámos de comer doce. A tendência natural, ao olhar para alguém novo, para alguém de fora, é ver nessa pessoa o que não temos na actual, normalmente esquecendo que a pessoa actual tem, provavelmente, algo de bom e que nos agrada, e que nos fez ficar tanto tempo com ele. São normalmente estas diferenças que nos fazem sentir atraídos por alguém; primeiro, como pessoa; e a partir daí, como outra coisa qualquer; se houver interesse da outra parte, pode criar-se um clima, de aproximação, de intimidade, que pode começar como algo intelectual, emocional, antes de se tornar físico.

Façamos um parêntesis e falemos de duas questões essenciais: a consciência e a repugnância.

A consciência é o que nos faz não trair, mesmo quando temos vontade. Divide-se em quatro tipos:

  • a consciência ética ,que nos leva a não violar um compromisso que fizemos para com outra pessoa;
  • a consciência moral, que nos leva a não trair porque isso é errado;
  • a consciência altruísta, do outro enquanto pessoa, que nos leva a não o querer magoar com os nossos actos;
  • a consciência egoísta, do próprio futuro, que nos leva a pensar nas consequências para nós dos nossos actos, se e quando forem descobertos.

Ninguém está livre de sentir desejo, intangível – como o que se sente por um actor ou por uma escritora, pessoas que não se conhece e com quem a intimidade e o sexo são fantasias distantes – ou mais tangível – por pessoas conhecidas, colegas do trabalho, o carteiro, a vizinha do lado. Normalmente o desejo é apenas isso, mais ou menos fugaz, sem levar a nada, impermanente: pode reparar-se várias vezes na vizinha, pode fantasiar-se brevemente uma foda em qualquer lado, mas isso não a torna um foco primordial de atenção; só pensamos nela quando a vemos passar na rua, e trinta segundos depois já nos esquecemos. E se não passamos disto não é a consciência que nos impede, é a natureza do desejo, fugaz, inconsequente, um processo límbico e instintivo, quase inconsciente.

Para além do simples desejo situa-se a atracção; procura-se a companhia do outro, o contacto, uma aproximação. As formas e modalidades são variadas: do flirt no emprego até aos olhares trocados num bar a sugerir que há espaço para dois na casa de banho, a fase de atracção pode durar minutos ou anos. E por vezes nem se entra propriamente nela, porque uma das partes, simplesmente, não está interessada nisso.

E é só nesta fase que a consciência começa a intervir; pode levar a que a situação não progrida, ou a que regrida inteiramente, mas, se não for superior ao entusiasmo de estar atraído por alguém e de sentir que essa atracção pode ser correspondida, é provavelmente aí, para a maior parte das pessoas, que começa a traição, mesmo antes do primeiro toque.

A única coisa mais poderosa que a atracção é a repugnância. Até o medo, instinto primordial, se subjuga à atracção; a repugnância, essa, evita ab initio o desejo. Quem nos repugna não é necessariamente feio ou disforme – simplesmente cumpre um critério pessoal que nos afasta, nos destrói a libido, que não encaixa nas categorias, sempre pessoais, a que o desejo se subordina. Talvez o termo repugnância seja demasiado forte, mas tem de excessivo o que tem de ilustrativo – há quem sinta repugnância pelos velhos, pelos gordos, mas também pelos magros, ou pelos demasiado novos. Se há homens a quem interessam raparigas de 20 anos, há outros que as acham repugnantemente imaturas, quase crianças, e não olhem duas vezes para uma mulher abaixo dos 30. Há formas de repugnância que são quase anti-fetiches – quem não suporte pés feios, tornozelos grossos, orelhas mal feitas. E há, significativamente, formas de repugnância intelectual, ou comportamental, como alguém a quem repugne quem dê erros de ortografia, ou a falta de educação, ou o ar de pintas, ou quem tire cera dos ouvidos com a unha do dedo mindinho.

Falávamos, no início, das mulheres de 30 e dos homens de 70, ou de 60, e da dificuldade que alguns têm em compreender que possa aí haver atracção; normalmente, para quem vê de fora e não entende, há alguma repugnância num homem de 70 anos. Há algo que nos desgosta numa pele menos lisa, com mais rugas, nos músculos sem tónus, num pénis que, imaginamos, já não fica duro tão depressa, nem tão duro, nem durante tanto tempo.

E, no entanto, os critérios não são iguais para todos. Se pensarmos, em vez de 70, nos 60, nos 55, nos 50, haverá uma idade da qual pensamos “ah, mas isso é diferente, com essa idade ainda não se é assim tão velho” – e encontrámos aí o limite da nossa repugnância.

Não é de espantar que o que é repugnante para uns não o seja para outros, nem que os critérios pessoais mudem ao longo da vida. Talvez aos 16 anos achássemos que uma mulher de 50 anos era uma velha, com rugas na cara e as mamas caídas, e aos 60 achemos que a mesma mulher é um petisco e está muito mas muito bem.

O importante é entender que é a repugnância e não a idade que é obstáculo para o desejo. E, mesmo na ausência de um desejo inicial, a atracção pode nascer de muitas fontes, incluindo a simples convivência.

Diz-se, quando são mulheres que se envolvem com homens mais velhos, que o fazem, muitas vezes, por substituição de uma figura paterna, motivada ou não por um trauma de infância qualquer. Independentemente das ramificações psicológicas, que existem e são, muitas vezes, reais, a “father figure” é, frequentemente, apenas uma âncora para o tal fascínio do homem sereno, do homem que toma conta de ti, do porto seguro.

Diz-se também, numa certa corrente de pensamento, que quem trai é porque anda mal fodido; acredito que nada pode andar mais longe da verdade, e que a traição, regra geral, não se dá por falta do foder, mas de outra coisa qualquer – incluindo a falta de nos sentirmos desejados, com que às vezes a falta de sexo se confunde.

Se te perguntas porque é que uma mulher trai um homem, procura entender o que é que ele lhe dá que ela não tinha. A resposta pode ser tão simples como “tempo”, “paciência”, “atenção”, “compreensão”; ou, por outro lado, pode ser “excitação”, “risco”, “adrenalina”, “tesão”; ou “segurança”, “conforto”.

Se te perguntas porque é que um homem trai uma mulher, não olhes só para as mamas da mulher com que ele trai, ou para a facilidade com que ela abre as pernas. Olha, por exemplo, para a maneira como ela olha para ele, como o faz sentir: desejado, forte, útil, competente.

Em ambos os casos, sabes sempre o que falhou: falhou a consciência. Trair é sempre uma questão de consciência, só varia porquê, e com quem.

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