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O Bronzeado – Um Post Da Silly Season

O bronzeado é uma moda. Se olharmos para o passado, quem se bronzeava eram os pobres, que andavam ao sol no campo. O ar moreno, tisnado, era sinónimo de uma vida bem diferente da dos ricos, passada dentro de portas, em salões, ou em jardins à sombra, ou mesmo em ocasionais caçadas em dias frescos, não no pino do calor.

A moda nessa época era ter um ar puro, nobre, alvo. E foi evoluindo. As mulheres, mas também muitos homens, cobriam-se de pó de arroz, tomavam arsénico e outras drogas que lhes davam um ar pálido e doente, que de alguma forma e por razões difíceis para nós de compreender, eram considerado sexy, sofisticado, chique.

Mudaram os tempos e a classe mais baixa mudou-se também, do campo para as cidades, do sol da lavoura para as fábricas fechadas e sombrias. Começaram, esses da classe mais baixa, a passar mais tempo dentro de casa do que os nobres, e subitamente eram os pobres que eram brancos, magros, olheirentos. A classe mais alta reagiu, como sempre, procurando mostrar-se diferente.procurando exibir o seu status como elite, com a classe média atrás dela, a imitá-la, para parecer fina.

Hoje em dia o bronzeado dificilmente se afirma como marca de status. Ir à praia ou não ir, especialmente para quem mora no litoral, é mais resultado de uma opção que de um impedimento.

E, no entanto, há quem entre em pânico assim que começa o verão, com medo de estar “demasiado branca”.

E é uma pescadinha de rabo na boca: “estás branca, vai à praia” – “não posso, não posso ir para a praia neste estado, parece que tomei banho em lixívia” – “então não vás” – “mas tenho de ir, não posso andar por aí esbranquiçada com este ar de moribunda” – “então vai à praia”…

Só quem já assistiu a uma coisa destas é que entende o conceito de “solário”, que é uma espécie de salão de beleza onde as pessoas vão para se enfiarem dentro de uma espécie de máquina de tostas mistas muito grande e saírem de lá bronzeadas.

Diz quem trabalha nesta indústria das tostas mistas que há duas alturas do ano em que a procura sobe, por motivações distintas: imediatamente depois do verão – setembros, outubros – com a clientela que quer manter e prolongar o bronzeado que trouxe da praia, e imediatamente antes do verão – de abril a julho – com os que vão para lá estagiar para aparecerem na praia já bronzeados.

É um facto que o negócio dos solários parece ter conhecido recentemente uma forte diminuição de procura, motivada, assim espero, pela crescente sensibilização para os efeitos nefastos da exposição excessiva ao sol e seus sucedâneos. Estamos longe dos anos 90 em que até criancinhas havia quem levasse ao solário. Mas a verdade é que continuam a existir e a ter clientela.

Respeito a opção; respeito especialmente quem acha que tem melhor aspecto estando bronzeado, gosta mais de se ver, e lá vai – com moderação – o ano inteiro, tentando manter uma cor que dificilmente conseguirá indo todo nu para o Meco todos os sábados de Novembro. O que não gosto é quem lá vai para enganar os outros, quem lá vai preocupado com o que as outras pessoas irão dizer se for à praia em Agosto a parecer a Branca de Neve, quem lá vai para fingir que faz praia todo o ano – e no estrangeiro, que o novo símbolo de status é aparecer com alto bronze no Natal – quem faz, nisto do bronzeado como noutras vertentes da vida, as coisas pelo aspecto que dá, pelo que os outros vão pensar, pelo que os outros vão dizer.

É verdade que viver em sociedade nos obriga a conviver com muita gente, e que a grande parte dessa gente é parva e faz juízos de valor sobre aquilo que não sabe, baseada no que vê. Também é verdade que é fácil que os outros nos tratem de forma diferente conforme a opinião que têm de nós, mesmo que essa opinião se ancore apenas em coisas que eles acham ou coisas que pensam que sabem. E é igualmente um facto que por vezes a vida nos corre melhor, de forma mais fácil, com menos obstáculos, se os outros tiverem de nós boa impressão. Por vezes nem o fazemos por nós, fazemo-lo pelos que nos são queridos, aturamos as piadas parvas da professora de História da Luisinha para ela não fazer a vida negra à miúda, sorrimos à embirrante da nossa vizinha porque de vez em quando o Toninho a jogar à bola a deixa fugir para o quintal dela e tem de lá a ir buscar, cumprimentamos a amiga chata da nossa mulher porque elas participam juntas em muita coisa e não queremos provocar mau ambiente. Isto é uma coisa. Outra bem diferente é recear a opinião de estranhos na praia, na rua, ou no emprego, por estarmos a por os pés na praia pela primeira vez a 1 de Agosto. Como os pobres que somos, que tiveram de trabalhar até aí.

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