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O Clube Dos Bloggers Mortos

A maioria dos autores estão mortos. Mesmo hoje, quando qualquer um escreve e publica online, quando não é preciso editora para ter videoclips, quando se têm programas de TV no youtube, ainda há possivelmente mais autores mortos do que a multidão de criadores vivos.

Reproduzimos online o que tínhamos antes: as livrarias estão cheias de autores mortos, e os mortos, somados, vendem mais que os vivos. O que interessa de facto é quão vivo o autor estava quando escreveu, e não agora. Enquanto um morto me entusiasmar mais que qualquer vivo, é a ele que continuo a ler; e, ao mesmo tempo, leio os vivos, para que encontre algum que me entusiasme assim; um dia também esse há de morrer.

Os autores não morrem como as pessoas. Um homem morre quando pára de viver. Um autor morre quando pára de escrever. Interessa menos quando morre um autor vivo que não escrevia há vinte anos. Há o respeito à pessoa. A homenagem ao que representa. Mas o autor, esse, já tinha ido.

A diferença entre ler um autor morto e um autor vivo, para além da eventual proximidade das referências culturais, é a expectativa que temos dos vivos. A cada novo livro, novo disco, nova peça, nova obra, traçamos mentalmente um percurso, imaginamos o passo a seguir, idealizamos o que queremos ver, o que pensamos vir a ter.

Por isso é irrelevante estar vivo ou morto quando se fecha a loja. Os autores morrem quando termina a expectativa, quando termina a opinião, quando termina a hipótese de saber o que pensam, o que acham, o que dizem.

Os autores morrem quando não têm mais nada para dizer. Fica a obra, fica o que disseram.

Os blogs, como outra coisa qualquer, estão cheios de autores mortos. Literalmente, alguns. Cada vez mais temos de nos acostumar ao facto de que a internet não foi feita para lidar com a permanência, nem com a morte. Os blogs não sabem se os autores morreram, se foram de férias, ou se só desistiram. E ficam, por vezes, órfãos, abandonados algures num canto de um site esquecido, numa plataforma qualquer que não quer saber de vivos nem de mortos, só de page views.

Os blogs morrem quando morre o lugar onde vivem. Morrerão quando morrer o blogger, quando morrer o tumblr, o medium, o wordpress. Morrerão quando algum desses decidir que os blogs dos mortos não dão page views, nem ads, nem clicks. Até lá, mesmo zombies, mal mortos, mal enterrados, continuarão online, nessa espécie de nuvem idealizada que afinal não é nuvem nenhuma, é só o computador de uma empresa qualquer.

Por vezes acontece que alguém tropece num blog morto, o leia, se entusiasme. Esta é a diferença principal entre os blogs e o social media em geral: o blogs ficam, como livros, podem ser lidos, em sequência, anos depois. Podes encontrar um blog e lê-lo, do início, como uma história. Mas ninguém o faz, quase ninguém, Ninguém tem tempo. Lê-se o último post, e só porque nos notificam. Por isso tantos bloggers escrevem, uma e outra vez, o mesmo post, dizem o que já disseram, repetem-se, e ninguém repara, porque ninguém lembra, porque é o século XXI e tudo é imediato, descartável, efémero.

O mundo online não entende as pausas. Não entende quando a fonte seca, quando a vida chama, quando a vontade falta. Na verdade, nem quer saber. A oferta é grande, se não se lê aqui lê-se noutro lado. O mundo online consome enquanto houver, só lê enquanto alguém escrever. Só conhece os mortos se alguém falar deles, só lê Lovecraft em memes, Herberto Hélder em citações erradas. O mundo online não lê os blogs mortos, excepto quando eles se contorcem no que parecia uma tumba, e afinal foi só um leito.

E não entende que muito do que é belo e importante já foi escrito, não está à espera de o ser.
E não entende que há quem fale todos os dias sem ter nada para dizer.

One thought on “O Clube Dos Bloggers Mortos

  1. Olvido
    03/11/2017 at 17:28

    O menino por exemplo devia escrever mais, porque tem coisas para dizer e di-las bem, e há quem goste de ler, e deixe (mesmo que às vezes com pena…) o tempo remar as pausas porque o que depois surge por norma vale a pena.
    (de resto a leitura serviu também para que a carapuça me servisse na medida perfeita…)

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