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O Exibicionismo

Robinson Crusoe não fazia a barba. Por mais que o neguemos, fazemos muito em função dos outros. Somos inegavelmente sociais e a nossa imagem, até a imagem que temos de nós próprios, tem muito a ver com a forma como os outros nos vêem. E sempre foi assim, desde o paleolítico; os conceitos de beleza e de imagem é que mudaram desde então.

A internet e as redes ditas sociais não mudaram, portanto, nada de fundamental, só aumentaram o grau e alteraram a velocidade. A imagem, antes, levava tempo a construir e dela só lentamente se ia tendo feedback, hoje é actualizada em realtime e com retorno imediato. Mais rápida a propagar, também se esfumar mais depressa, e por isso faz falta refrescá-la, alimentando sistematicamente as múltiplas máquinas dos likes.

Este processo de projecção da imagem acontece mesmo a quem não é fundamentalista e assíduo. Aquilo que partilhamos – de nós mesmos ou simplesmente os shares de qualquer coisa – constroem e transmitem uma certa imagem de pessoa, a pessoa que pretendemos dar a ver. E, como se a internet fosse um espelho, capitalizamos as respostas de amigos, estranhos e conhecidos como se elas nos validassem, confirmassem que essa imagem transmitida é quem somos, afinal.

Poucas coisas dizem tanto sobre nós como o que partilhamos. Excluindo os casos óbvios das personagens – e mesmo nesses – basta olhar para um Facebook, um Instagram, um blog para poder ler, a múltiplos níveis, quem lá posta. Trocámos, há algum tempo, o ser pelo ter: uma maioria da sociedade passou a julgar os outros pelo que têm, não por quem são. Trocámos o ser pelo mostrar: és o que mostras, és a imagem que dás, ao ponto de, em muitos casos, haver quem já não saiba o que ser quando sai de cena, e opte, frequentemente, por lá estar, em permanência, mesmo quando não está de facto, mesmo quando não devia estar.

Como escrevia Debord, vivemos, cada vez mais, numa sociedade do espectáculo, que vive mais do que exibe que do que sabe, do que tem ou do que é. E partilhar vídeos e posts pode ser mais moderno e mais sofisticado do que usar roupa justa ou sair à rua só de gabardine, mas o exibicionismo fino não é diferente do boçal, só anda melhor embrulhado.

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