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O Foder E O Poder

DGN_Photoshoot___Dominatrix_1_by_HyperAkiO sexo e o poder confundem-se, demasiado. Há quem diga, como Oscar Wilde, que o sexo tem sobretudo a ver com o poder, mesmo que tudo o resto, no mundo, tenha essencialmente a ver com sexo.

A maior parte do sexo, no século XXI, tem a ver com interactividade. A finalidade do sexo não é o orgasmo enquanto sensação física, não o pode ser, quando a masturbação e os seus derivados são tão fáceis, tão disponíveis, com múltiplos acessórios (visuais, mentais, físicos) que a facilitam, e finalmente livre (para todos, espera-se, embora no fundo se saiba que ainda não) do estigma perverso e pernicioso que a Igreja lhe quis dar durante séculos.

A finalidade do sexo tem assim de ser outra coisa, algo para além do instinto animal básico e paleolítico do “calhas a estar aqui a jeito”.

Há quem diga que a maior parte do sexo tem a ver com poder. Mas o que é o poder? Que poder é esse?

Comecemos por distinguir dois tipos de relações, ainda antes do sexo: em alguns casos, uma das partes tem poder efectivo ou apercebido sobre a outra – seja porque há uma relação de hierarquia laboral entre elas, seja porque uma delas é consensualmente (ou acha que é) “superior” porque é mais bonito, mais sexy, mais popular, mais rico, seja porque uma delas tem “rabos presos” e isso a deixa numa posição vulnerável, seja porque uma delas está apaixonada e a outra não.

Aqui, tantas vezes, o sexo é uma forma de poder; seja o poder de quem impõe, explicita ou implicitamente, o acto sexual como requisito para benefícios ou para evitar consequências, seja o poder de quem faz sexo como quem faz caridade, seja o poder de quem faz sexo para se sentir superior e desejado, seja o poder (inverso) de quem faz sexo sentido-se “especial” por o fazer com alguém que considera “superior”. Há mais disto do que se admite, há mais disto do que se fala. E nem sempre é imposto por quem tem mais poder, há em muitos casos o tal “poder inverso” que é sentido por quem está na posição aparentemente mais fraca, e que acha que o sexo com alguém “acima” o traz para cima, lhe dá poder, por complicada que seja a volta psicológica que dá para achar isso (veja-se o fenómeno das groupies das bandas de rock, veja-se os homens que orbitam à volta das mulheres bonitas à espera que ela escolha um para levar para casa essa noite, veja-se o caso do assédio laboral “de baixo para cima” – que existe mais do que se quer admitir).

Por contraste a estas relações, temos aquelas onde dois participantes são iguais, paritários, e ninguém é (nem se acha) mais que ninguém. Aparentemente, o sexo aí é uma partilha de sensações e de emoções, é um acto voluntário de parte a parte, e não uma afirmação de poder. E, externamente, pode ser tudo assim. Mas o próprio acto em si é um acto de poder e de exercício de poder.

As motivações no decurso do acto sexual propriamente dito (desde o seu início, nos preliminares e mesmo antes deles – os preliminares do sexo começam logo após o orgasmo anterior – até ao final) são várias:

quero vir-me; quero fazer-te vir; quero que me faças vir; quero que queiras que eu te faça vir;

Focámo-nos aqui no orgasmo, embora o sexo seja muito mais que isso, mas mesmo com esse foco estreito observamos aqui quatro motivações completamente distintas: duas formas completamente distintas de ver o próprio orgasmo, e duas formas distintas de encarar o orgasmo do parceiro.

Dizíamos que o sexo é interactividade, que o mais significativo no sexo é a dimensão psicológica da actividade sexual com alguém. É isso, principalmente, que distingue o sexo da masturbação: o sexo com alguém cujas sensações nos são completamente indiferentes é uma forma de usar o corpo de alguém para nos masturbarmos, é, questionavelmente, a forma mais baixa de nos aproveitarmos de alguém, tratá-la como um invólucro vazio, uma casca.

Mas se as sensações e a vontade do outro nos importam, e devem importar-nos sempre, é interessante analisar a forma como interpretamos essas vontades e a forma como interagem como a nossa.

quero vir-me; quero fazer-te vir; quero que me faças vir; quero que queiras que eu te faça vir;

Arrisquemos chamar ao primeiro caso o mais banal: é, de longe, o menos interactivo, o mais semelhante ao orgasmo solitário que não precisa de ninguém. Isto não o menoriza, desde que feito com plena consciência de com quem estás e do que estás a fazer; querer vir-se é uma coisa boa, especialmente se essa vontade tiver tanto a ver connosco mesmos como tem a ver com o outro. Quanto mais te quiseres vir porque ela é boa, porque te dá tesão, porque é bonita, porque te excita, porque é uma maluca, porque te faz coisas doidas – atiremo-nos agora para fora de pé: porque a amas e isso te dá tesão – mais prazer poderás tirar de um “quero vir-me” como motivação.

Outra coisa diferente é o “quero fazer-te vir”: entramos aqui solidamente no sexo enquanto poder.

Até que ponto o objectivo do sexo não é fazer vir o outro? É exactamente aí que se marca a primeira diferença entre sexo e masturbação, em que se atinge algo que é impossível atingir sozinho: dar prazer a alguém, e não simplesmente tê-lo. Há de haver uma diferença entre o sexo em que damos prazer a alguém e quando o não damos. Semanticamente, no entanto, não temos uma palavra para isto – e se o nosso ponto de vista sobre as coisas é condicionado pelas palavras com que as conseguimos designar (cf. Orwell, 1984), provavelmente deveríamos inventar, com urgência, uma palavra para o “sexo feito sem finalidade de dar prazer ao outro”.

O poder de fazer vir o outro é talvez a forma mais pura e mais directa de obter do sexo a sensação do poder. É este, em grande medida, o atractivo do sexo oral para muita gente: conseguir levar o outro a níveis de profunda excitação, de uma forma completamente controlada por quem chupa e lambe, algo que também se consegue pela masturbação do parceiro, algo que, se pensarmos bem, as mulheres conseguem alargar ao sexo penetrativo de uma forma mais fácil do que os homens – fazer vir uma mulher por penetração vaginal não é exactamente uma ciência exacta, ao passo que fazer vir um homem saltando-lhe para cima e enfiando o caralho dele em algum lado é – comparativamente – uma coisa com resultados mais previsíveis.

Mas também há o aparente contrário disto: “quero que me faças vir” é algo de muito mais profundo; implica que quero, voluntariamente, dar-te o poder de me fazeres vir, mas ao mesmo tempo significa que eu é que tenho o poder, que te posso pedir, ou ordenar, que me dês prazer, que tenha eu o controlo dando-te o controlo. “Quero que me faças vir” é a versão light do dom-sub (o D e o S de BDSM), e é a segunda manifestação óbvia de poder numa relação sexual.

Em quarto lugar, o “quero que queiras que eu te faça vir” é o poder ao mesmo tempo indirecto e mais pleno, o poder da manipulação e do controlo da vontade do outro. Controlar os actos é comparativamente fácil: nada mostra mais poder que o controlo da vontade de alguém. É esse o alvo da sedução, da provocação: querer que me queiras, querer que te queiras vir, querer que queiras que eu te faça vir, controlar-te fazendo-te querer controlar-me, controlar-te fazendo-te querer-me.

Podíamos continuar:

quero sentir que te controlo; quero fazer-te sentir que te controlo; quero sentir que me controlas; quero fazer-te sentir que me controlas;

E mais ainda: fazer-te querer, mas ser eu a decidir se vou dar ou não.

4 thoughts on “O Foder E O Poder

  1. Filipa
    17/11/2014 at 19:28

    Sabe aquelas frases, o amor é? então aqui vai uma adaptação…
    Maldade é: “… fazer-te querer, mas ser eu a decidir se vou dar ou não.” Fazer alguém querer, sem ter intenção de dar, seja o que for, acho eu, que é maldade, mas sim, quem faz isso tem o poder e daí a subjugar o outro deve ser um passo.

    1. 17/11/2014 at 20:02

      Filipa,

      É também disso que estamos a falar: o sexo é poder, e, como todo o poder, poder ser abusado – dando, não dando, fazendo querer e não dando, pedindo fidelidade mas não querendo sexo mesmo que o outro queira, querendo sexo mesmo que o outro não queira…

      (este é daqueles posts que é para continuar um dia destes…)

  2. Espiga
    22/11/2014 at 22:55

    Sexêntrico, sexo feito com a finalidade de dar prazer, exclusivamente, a si próprio (bons efeitos secundários no parceiro n contam :-))Mas confunde-se com sexo excêntrico, diferente daquilo que quero dizer, que é sexo feito de forma egocêntrica. E isso do poder, isso do poder…nada contra, mesmo qdo se é aquele que se deixa subjugar. A coisa complica-se quando se quer sair duma relação desse tipo. Mesmo que a relação aconteça num contexto consciente, de aceitação. Parar e sair é sempre difícil. Mais difícil do que noutro tipo de relação em que as questões do poder estão mais esbatidas.

    1. 22/11/2014 at 23:57

      Espiga,

      É mais uma constatação do que uma profissão de fé. O poder não é, pelo menos conscientemente, a minha motivação, tal como não será a motivação de muita gente. Se faço um minete faço-o porque gosto, não me ponho a dissecar as razões porque gosto. Se o fizesse, talvez algures lá no fundo, para lá de gostar da coisa em si, para lá de gostar de provocar prazer, haveria uma certa satisfação pelo facto de conseguir dar esse prazer, conseguir provocar reacções, levar o outro ao ponto do orgasmo, e para lá dele.

      Fora do sexo as questões do poder são muito mais complicadas, especialmente quando implicam subjugação e/ou dependência. Talvez um dia aqui escreva meia dúzia de linhas sobre isso, algures entre o afirmar que o poder sobre os fracos é sinal de fraqueza e não de força, e que permitir a alguém que se coloque (quotidianamente) numa situação de fraqueza perante nós não é gostar dessa pessoa…

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