1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (2 votes, average: 4.00 out of 5)
Loading...

O Menino Também Fala Sobre As Eleições

peace_and_freedom_party_by_uniquenudesÉ verdade que as eleições presidenciais em Portugal servem para pouco; também é verdade que no actual contexto político podem ter alguma relevância adicional: historicamente o Presidente afinal serve acima de tudo para resolver – e frequentemente criar – situações de instabilidade governativa. O fundamental, nestas eleições, é que não haja segunda volta. Não é frequente; não acontece desde o Mário Soares 1 – Freitas do Amaral 0 de 1986, e, este ano, é importante que não aconteça: não por qualquer razão política, mas pela data.

A data das eleições é sempre uma questão discutida. Não é exactamente polémica, porque já se sabe que, qualquer que seja a data, há sempre imensa gente contra – a maior parte dos quais não iria votar de qualquer forma mesmo que a data fosse outra. O facto de as eleições serem aos domingos deveria permitir ao máximo número de pessoas ter disponibilidade para ir votar. Mas o facto é que aos domingos as pessoas têm planos – ir ao shopping, ir à praia, ficar em casa, limpar a casa, ir almoçar a casa dos sogros, levar os miúdos ao cinema, ou qualquer uma dessas coisas que as pessoas estatisticamente normais fazem aos domingos. Votar interfere sempre com estes planos, mesmo que votar leve dez minutos e até seja em caminho para o shopping. Os portugueses votam pouco. Para quem se queixa tanto dos políticos, os portugueses votam muito pouco. Mas nem vou argumentar que votar implica ter uma opinião, fazer trabalho de casa, fazer uma escolha. Votar implica, em primeiro lugar, fazer parte de um processo e de um sistema. A questão dos sistemas organizados é simples: ou estás dentro do sistema, ou estás fora do sistema. O que não podes (não deves?) estar é dentro do sistema para umas coisas e fora para outras, conforme te dá jeito. O sistema do qual as eleições fazem parte é uma coisa chamada “o Estado Português”. É difícil estar fora dele estando fisicamente cá dentro. Estás dentro do Estado ao pagar impostos, ao receber qualquer tipo de rendimento, ao usar qualquer tipo de serviço ou infra-estrutura pública. E também faz parte das regras do Estado que votes numas pessoas ou nuns partidos para escolher quem manda no Estado (devia ser “toma conta do Estado”, mas de facto é “manda”). Ao não votar, estás simplesmente a prescindir do direito a escolher. Não votar não te exclui do sistema. Não estás a protestar contra nada, estás só a demitir-te de dizer o que queres. Curiosamente muitos dos que não votam vêm depois comentar e criticar a actuação dos políticos depois de eleitos. É um caso típico de não dizer o que queres mas vir depois dizer que o que os outros fizeram está mal. Não é um comportamento exclusivo da relação dos portugueses com a política, é mais típico da relação dos portugueses com tudo. Em vez de nos queixarmos da comida nos restaurantes preferimos estar caladinhos e depois vir cá para fora dizer mal. Em vez de fazermos alguma coisa em prol do que queremos sentamo-nos à mesa do café e dizemos mal de quem fez seja o que for. Não sendo uma característica universal, é demasiado frequente para não acharmos que é um traço comum do “ser português”.

Ora os portugueses também são portugueses em casa, e em casa também há destes paralelismos. Há os tipos que não respondem nada quando alguém lhes pergunta “que te apetece jantar?”, mas depois se queixam que o jantar é uma coisa que eles não queriam. Há quem nunca lhe apeteça ir a lado nenhum e depois se admire quando os outros decidem ir a algum lado sozinhos. Há quem só diga mal dos maridos ou das mulheres e depois estranhe que as mulheres ou os maridos não andem felizes com isso, ou que procurem a companhia de quem os faça sentir bem. Há quem não se interesse nunca por nada que os outros escolham ou que os outros gostem mas ainda assim ache que partilham muito e fazem juntos muitas coisas, esquecendo-se que só fazem juntos aquilo de que ele gosta. Há quem ache que basta viver na mesma casa para ter uma vida em comum.

E há quem se esqueça que nas vidas pessoais também há eleições. Há momentos em que temos de dizer o que queremos, o que achamos, fazer escolhas. Nem sempre têm data marcada, mas estão lá, e existem. São estes momentos das escolhas que renovam a confiança e os mandatos, são actos claros que dizem “quero-te a ti, escolho-te a ti, se houvesse eleições hoje, votava em ti para presidente de mim”.

Nestas eleições é fácil absteres-te; basta não fazer nada, basta deixar andar. Basta deixar os dias serem iguais uns aos outros. Provavelmente farás nesta política o que fazes na outra: criticar, não decidir mas dizer mal das decisões, e absteres-te. Até votar em branco é melhor que isso – dizer “temos um problema, mas não o sei resolver” é bem diferente de nem sequer falar. Mas preferes continuar a abster-te.

O fundamental, dizia, nestas eleições, é que não haja segunda volta, porque, a haver, será a 14 de Fevereiro. E entre o ir votar, o dia dos namorados, o acompanhar na TV dos resultados eleitorais, o jantar fora, o mandar farpas nas redes sociais a quem ganhou e a quem perdeu, o sexo temático, é muita coisa concentrada no mesmo dia, e alguma há de falhar. Eu sei quais são as minha prioridades mas também sei que. num dia assim, estamos a facilitar imenso a vida aos abstencionistas – aos das eleições, aos lá de casa, e aos de tudo.

3 thoughts on “O Menino Também Fala Sobre As Eleições

  1. 22/01/2016 at 19:52

    Já na minha opinião, e perante os resultados das sondagens, o fundamental, nestas eleições, é que haja segunda volta!

    Boa noite, Menino :)

    1. 22/01/2016 at 20:07

      Sim, de um ponto de vista político é capaz de ser boa ideia – pelo menos diminui-se a fragmentação de haver dez candidatos (que é uma coisa boa, haver dez candidatos, mas é para isso mesmo que há duas voltas, digo eu).

  2. Lou Alma
    23/01/2016 at 10:10

    A democracia é uma coisa linda, mas demasiados candidatos, grande parte deles sem o perfil necessário, é um factor potenciador da abstenção. Felizmente tenho sempre opinião sobre tudo. Raramente me abstenho mas já votei em branco. Tanto nas eleições como na vida. Quantas vezes se nos deparam problemas que não sabemos resolver? Às vezes nem temos recursos para isso. Mas vamos, como podemos, tentamos estar presentes. Decisões erradas? Já tomei muitas. Mas é com elas que se aprende. Só tomando uma decisão errada é que podes ter a certeza qual é a certa. ( e no final falha sempre alguma coisa porque ninguém é perfeito, mas escolher os erros favoritos também faz parte da decisão) :)

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.