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O Mito Da Evolução Das Relações

Construímos, nisto a que chamamos a sociedade moderna, um mito de que as coisas só são boas quando evoluem. As empresas cotadas em bolsa caem de preço se não aumentarem os lucros face ao ano anterior, quando é óbvio que uma empresa que continua a ter o mesmo lucro e a ser líder de mercado não passa a valer menos. Dizem que um produto está em declínio porque o aumento das vendas este ano é menor que o do ano anterior, quando é óbvio que continua a ser um aumento, e que há um tecto de saturação nos mercados, e que não quer dizer que um produto não preste ou que vá acabar só porque toda a gente já o usa. Há empresas que fazem gestão de empregados com uma política “up or out” – és promovido ou vais para a rua – quando é óbvio que uma pessoa pode ser competente e rentável vários anos numa função sem querer ser outra coisa.

Parece que há quem não saiba quem nem tudo evolui, que a evolução são duas coisas bem distintas, e uma é lenta e milenar e nunca acaba, e que a outra é apenas transitória, nos leva de A para B, que são lugares duradouros.

Há quem aplique isso da evolução aos namoros, aos amores, às relações em geral. Exigem-lhes que evoluam, que a segunda conversa seja melhor que a primeira, que o segundo jantar seja mais romântico e suculento que o primeiro, que o terceiro seja melhor que o segundo e acabe no quarto. Exigem que haja cada vez mais abertura, se fale de mais temas, com mais profundidade. Exigem que o sexo seja cada vez mais variado, com posições inventadas, e acessórios, e roleplaying extremo.

Confundem evolução com mudança, e não entendem que há coisas que não precisam de mudar, basta continuar a ser boas; que um prego do Gambrinus não precisa de evoluir; que o Disgrace, lido a segunda vez, não é diferente da primeira mas continua a ser bom; que Mozart não precisa de versões; que não é fazendo o Casablanca a cores que ele melhora.

Não entendem que se chega a um ponto em que se conhece alguém e se lhe acaba as frases e se sabe o que ela irá dizer disto ou daquilo e se adivinha sete vezes em dez o que ela irá querer almoçar e que isso é bom, ao contrário de ser mau. Que é possível gostar realmente de alguém pelo que ela é, e ficar contente por isso ser assim e não de outra maneira, e se ela mudar é porque tudo muda, ou há uma razão qualquer, mas o fundamental é ela e não a mudança.

Acontece, a estes amantes da mudança, gostarem muito de alguém enquanto tudo é novidade; enquanto tudo muda, os lugares, as conversas, porque tudo ainda é novo e está a ser dito; mas chega um dia, chegará sempre um dia em que já ouviste todas as minhas histórias da juventude, já te apresentei todos os meus velhos amigos, já fomos juntos a todos os lugares onde fui feliz, onde quis ser feliz com alguém; chegará um dia em que já te terei falado de todos os livros, te terei cantado todas as canções, já terei feito para ti todos os pratos que sei, já te terei dito todos os poemas que aprendi. Chegará um dia em que, por muito que me esforce a ler poemas novos, ouvir novas canções, procurar novos livros, novos filmes, não conseguirei ter material novo suficiente para te manter sempre absorta em novidade. Nesse dia, terminada a novidade, ou me amarás a mim, ou não terás nada para amar.

E espantam-se, os amantes da mudança, que uma vez conhecido o outro, ele cesse de mudar – quando afinal não mudou nunca, só mudou a nossa percepção.

É fácil distrair-se quando há mudança, quando tudo muda a uma tal velocidade que tudo nos parece sempre diferente, sempre a “evoluir”. É fácil distrair-se quando as relações seguem velozes, de etapa em etapa, sem parar para pensar. As relações rápidas são boas, basta ter bagagem suficiente, livros suficientes, histórias suficientes para uns meses. Depois vem a proximidade, mudam as rotinas, passa-se a dormir lá em casa e tudo continua a mudar e a evoluir sem ninguém ter de mudar realmente. E, se vivem juntos, há as mudanças, e os novos hábitos, e uma nova casa, e há crianças e os bebés mudam todos os dias.

E um dia as coisas param de mudar, porque a casa está comprada, o carro ainda anda, o emprego não é mau, os miúdos já crescem mais devagar, e percebes que a tua vida está igual ao ano anterior, e a pessoa com quem vives está igual ou que era no ano anterior. E tens de perceber que isso é normal, que não é isso que realmente importa, que a mudança é pouco mais que uma máscara, uma distracção. As coisas não têm de ficar melhores, só têm é de ser boas.

A verdadeira pergunta é: “se tudo fosse continuar exactamente como é, serias feliz?”

E outra, diferente mas importante: “se todos os dias da tua vida fossem ser exactamente como hoje, que terias feito hoje de diferente?” – pensa nisto, e faz isso amanhã.

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