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O Nobel Visto De Fora

stoned-girlsAs opiniões, diz-se, são como os cus – cada um tem o seu, e dá-o a quem quer. Sei que a minha memória já não é o que era, mas não me lembro de ouvir vozes iradas quando, por esta altura do ano passado, o Nobel da Literatura foi atribuído a Svetlana Alexievich. Houve e há sempre quem dissesse que devia ser outro qualquer – Roth, de Lillo, Kadaré, ou a um Cartarescu ou a um Juan Marsé. Mas foi Alexievich, e o mundo não se dividiu entre os contra e os a favor. Modiano provocou um ligeiríssimo burburinho. Mo Yan, Tranströmer, Herta Müller, nicles de que me lembre.

Isto acontece porque ninguém faz puto de ideia de quem é o vencedor do prémio Nobel. Sabem o nome porque o aprendem no dia do anúncio. Antes, nem tinham ouvido falar. Depois, a coisa dá-se em três partes: os que admitem, os que se calam, e os que inventam. Dos laureados dos últimos 20 anos, já tinha ouvido, antes do Nobel, falar de 13, já tinha lido alguma coisa de 9, e podia dizer, sem inventar, que conhecia a obra de 4. Há gente, cujo trabalho não é ler, e que não consegue aguentar uma conversa sobre um qualquer tema mais denso, que já tinha ouvido falar de todos e lido pelo menos uma coisinha de cada um, incluindo a Jelinek. As pessoas empolgam-se menos com aquilo que desconhecem, e uma vitória de Imre Kertész é, para muitos, tão empolgante quanto um empate entre o Sertanense e o Vitória de Sernache.

E este ano, Bob Dylan. E de súbito toda a gente percebe imenso de prémios Nobel, e de literatura, toda a gente conhece a obra poética de Bob Dylan, e a prova disso é que sabem dizer “the answer, my friend, is blowing in the wind”. Há quantos anos é que não ouviam um cidadão da classe média citar um prémio Nobel?

Suspeito que muitos dos que agora são os maiores fãs de Bob Dylan, muitos sem nunca ter comprado um disco do homem, instintivamente o classifiquem como “um dos nossos”, uma espécie de “homem do povo”, o oposto dos escritores sérios, essa canalha de empertigados que escrevem coisas que ninguém lê. Isso faz da vitória de Dylan uma “vitória nossa”, uma vitória da malta que usa jeans e não faz a barba e que fuma charros contra o cheiro a mofo dos “escritores sérios”, uma prova que o pop também é literatura e que não é preciso ler livros para entender disto do Nobel.

Por oposição, qualquer um que diga mal da escolha dos suecos este ano é um ressabiado, cheio de soberba, tem dor de cotovelo, é quase um fascista que quer tirar ao povo esta conquista, que acha que percebe mais que os outros disso da literatura mas não percebe, não percebe nada disto.

Eles sim, embora não reconheçam uma frase de Dylan se ela lhes acertar na cara, como não reconheceriam uma frase de outro Nobel qualquer dos últimos 20 anos. Nem eles, nem eu. A diferença é que eu não acho que, ao contrário dos outros, o prémio deste ano esteja certo.

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