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O Ser E O Nada E As Casas De Banho

PXE at Ashley’s place in Brooklyn

Há demasiadas fotos em casas de banho.

As casas de banho podem ser lugares bonitos, mas raramente o são. Categoria nenhuma de fotos cresceu tanto na última década como as fotos em casas de banho. Estão por todo o lado. Antes, só havia fotos em casas de banho em três ou quatro contextos: publicidade a produtos de beleza, casas à venda, decoração de interiores, e alguma foto de arte. Era isso e bebés a tomar banho; havia muita foto de bebés a tomar banho, antigamente, e agora parece-me que há menos. Em contrapartida, todos os jovens e adultos tiram fotos na casa de banho, desde as Kardashian às miúdas de 15 anos.

Quando esta tendência surgiu, era inestética mas compreensível. Os telemóveis não tinham câmaras do lado da frente, ou quando tinham eram de péssima qualidade; ainda havia, até, pessoas que tiravam fotos com máquinas fotográficas. A forma mais simples de tirar uma foto a nós próprios era com um espelho, e, por alguma razão, havia pessoas que queriam tirar fotos de si próprias. Era neste contexto que surgia a casa de banho, por ser, frequentemente, o maior espelho que as pessoas têm em casa.

Logo isto nos dá algum contexto: no início, as fotos na casa de banho permitiam-nos determinar que se tratava de pessoas cujo maior espelho era o da casa de banho.

Toda a gente sabe que o mundo se divide entre as pessoas que possuem espelhos de corpo inteiro e as outras. Recorrer ao espelho da casa de banho para tirar uma foto dava-nos, aparentemente, pistas sobre o número e a dimensão dos espelhos que os autores das fotos tinham em casa. Criava-se assim uma espécie de elite que tinha espelhos grandes noutros sítios, comparada com a plebe que tinha de ir à casa de banho para tirar a foto.

Mas a situação alterou-se: os telemóveis têm câmaras detalhadíssimas, inventou-se o conceito da “selfie”, e a necessidade de tirar fotos ao espelho reduziu-se, em tese, e no entanto não minguou o número das ditas, que preenchem as redes sociais.

Mais estúpido ainda que as fotos ao espelho da casa de banho são as fotos na casa de banho tiradas por outras pessoas. Não falo de snapshots do género “ai estás tão gira sem esse top, deixa-me tirar-te uma foto”. Fotos ensaiadas, em poses, tiradas por outra pessoa, na casa de banho. Porque não há mais sítio nenhum para a tirar. Porque nada diz “sexy” como uma sanita aberta ao fundo, nada nos foca a atenção como reparar em quão sujas estão as juntas dos azulejos.

O problema destas coisas que ninguém entende é que nos obrigam a tentar pensar fora da caixa e especular (leia-se inventar) sobre possíveis explicações.

A teoria do locus nuditas

Só se aplica às fotos com pouca ou nennhuma roupa. A ideia é que se a casa de banho é um local onde as pessoas estão nuas (mais não seja quando tomam banho) então as fotos nuas acabam por ser tiradas ali. O corolário disto é pensar que há pessoas que só estão nuas na casa de banho, e isso ainda é mais triste do que achar que a casa de banho é um sítio sexy.

A teoria de Narciso

A teoria é as pessoas passam pela sua imagem no espelho e se acham tão imensamente belas que não resistem a fotografar-se imediatamente. Não consigo perceber porque é que isso não lhes acontece quando passam por outro espelho qualquer da casa, ou por uma janela bem lavada, por exemplo. Só se o espelho da casa de banho for, de facto o único sítio da casa onde se conseguem ver reflectidos.

A teoria do menor dos males

“Se achas que a casa de banho tem mau aspecto, devias ver o resto da casa”

A teoria do “vamos fazer isto num sítio em que ninguém nos veja”

…porque a seguir não vamos partilhar isto no enstagrame

A teoria da estupidez

é auto-explicativa.

De volta ao início: a teoria do espelho único

Se calhar há mesmo quem o faça porque é o único sítio com um espelho suficientemente grande. O que é triste, porque o Ikea vende espelhos de tamanho aceitável a partir de 14.99. Um espelho de corpo inteiro numa divisão qualquer é uma coisa de grande utilidade. Há quem não tenha 14.99 para gastar num espelho. Mas se tens dinheiro para um telemóvel, e para ter net, e tens tempo para tirar selfies, devias organizar alguma coisa nas tuas prioridades e comprar um espelho a sério. Podes pô-lo à entrada de casa, para veres o aspecto que tens antes de sair à rua (acho que isto, só por si, era um benefício para a sociedade; nem sei como é que não há campanhas de solidariedade para certas pessoas terem espelhos em casa). Podes fazer melhor, e, independentemente do que digam os tipos do feng-shui, pô-lo no quarto, virado para a cama. E agradecer-me depois.

 

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