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Para Além da Palavra Igualdade

Man Sitting On Woman's LapWomen have served all these centuries as looking-glasses possessing the magic and delicious power of reflecting the figure of man at twice its natural size.
(…)
That serves to explain in part the necessity that women so often are to men. And it serves to explain how restless they are under her criticism; how impossible it is for her to say to them this book is bad, this picture is feeble, or whatever it may be, without giving far more pain and rousing far more anger than a man would do who gave the same criticism. For if she begins to tell the truth, the figure in the looking-glass shrinks; his fitness for life is diminished. How is he to go on giving judgement, civilising natives, making laws, writing books, dressing up and speechifying at banquets, unless he can see himself at breakfast and at dinner at least twice the size he really is?
(…)
The looking-glass vision is of supreme importance because it charges the vitality; it stimulates the nervous system. Take it away and man may die, like the drug fiend deprived of his cocaine.

Virgina Woolf
(25-Jan-1882, 28-Mar-1941)
A Room Of One’s Own, 1929

Em 1929 Virgina Woolf falava de uma sociedade onde as mulheres começavam, timidamente, com exemplos aqui e ali, a poder ser independentes num mundo controlado por homens. Na altura não se falava de paridade remuneratória, nem de assédio, nem de discriminação no acesso a cargos de chefia, nem no impacto que as licenças de parto e o apoio à família têm na carreira de uma mulher. Na altura falava-se da possibilidade de uma mulher viver sozinha, ter um rendimento próprio, não necessitar da autorização ou da companhia de um homem para viver a sua vida. Falava-se de uma mulher poder ser um ser humano pleno e autónomo, se assim o pretendesse.

Paralelamente, um dos temas que Virginia Woolf enfatisa no debate de géneros da época é o do papel na mulher num casal – tema que já vinha a ser focado desde muito antes, notavelmente por Mary Wollstonecraft (mãe de Mary Shelley), mas que de alguma forma foi subalternizado durante as nove décadas seguintes, e ainda hoje é demasiado pouco abordado.

Grande parte do discurso recente sobre o papel da mulher centra-se na questão da igualdade. É uma questão importante, mas ofusca outras de igual relevo. A igualdade normativa é algo que nivela por baixo, e uma obsessão com a igualdade impede-nos de olhar para as características distintivas de cada um – independentemente do género – e de tirar delas o melhor partido. A igualdade que é necessária é a igualdade de direitos e de deveres, essa sim é fundamental. A outra coisa fundamental é passarmos a olhar para cada pessoa como um indivíduo, a deixarmos de categorizar alguém à partida por ser homem ou por ser mulher, da mesma maneira que não há empregos para louros e empregos para morenos, ou que as prateleiras de brinquedos dos supermercados não estão divididas pela cor de olhos das crianças.

Obviamente que há excepções, e as relações pessoais são um caso desses. O dia em que o politicamente correcto me vier acusar de discriminação por só me sentir sexualmente atraído por mulheres é o dia em que ultrapassámos de vez a linha do bom senso, o dia em que deixámos que as regras que inventámos se sobreponham à realidade, o dia de repensarmos isto tudo.

As pessoas não são iguais, não há duas pessoas iguais. E se há mulheres que têm mais expostas as capacidades e virtudes tradicionalmente associadas ao estereotipo feminino, há simetricamente homens que exibem essas mesmas características, e o inverso. Ser fisicamente forte, ser sensível às necessidades dos outros, ter reacções e comportamentos mais emocionais, colocar a família à frente do trabalho ou vice-versa, nada disto é exclusivo nem dos homens nem das mulheres. Mas está presente em medidas diferentes em cada pessoa, e não pode ser ignorado, não pode ser esmagado por uma suposta igualdade e ignoradas as características e tendências naturais de cada um.

Um casal é mais – tem de ser mais – do que duas pessoas que vivem juntas. Um casal são duas pessoas que trabalham juntas para objectivos, a começar pelo mais elementar: serem felizes. E ignorarem as características e capacidades distintas de cada um, pressionados por um conceito social de igualdade de géneros, é em muitos casos uma receita para o insucesso. O que a igualdade significa é que não há escolhas feitas à partida. Não há papéis fixos por género. Lavar a roupa ou fazer o jantar ou arranjar a torradeira não são obrigações que decorrem de ser homem ou de ser mulher. Cada caso é um caso, e aquilo a que isso nos obriga é a pensar e a falar e a debater e a decidir, juntos. E isto dá mais trabalho. Isto implica conversa e entendimento. Isto implica escolher pessoas que não só nos atraiam emocional, física e intelectualmente mas também que consigam funcionar connosco como equipa, com as quais consigamos construir um núcleo funcional. É talvez por isto que algumas relações não funcionam, porque a actividade não se divide nem se complementa naturalmente, e porque não é debatida. Por muito que muita gente diga que acredita nessa mítica igualdade, não entendem que há muitos modelos de funcionamento numa equipa e igualdade não significa que se há dez pratos para lavar cada um tem de lavar cinco, ou ser um a varrer o chão nos dias pares e outro nos dias ímpares.

Virgina Woolf falava em 1929 sobre o papel das mulheres – na altura, um dos poucos papéis que lhes eram permitidos – como potenciadora e amplificadora do trabalho do homem, A igualdade, ao contrário do que muita gente pensa, não vem, nem deve vir, mudar isso. O que mudou é o facto de ser só a mulher a fazer isso. É isso a igualdade. Ambos têm iguais direitos, a mesma possibilidade e capacidade de trabalhar dentro e fora de casa, a mesma capacidade de escolher as suas actividades e desafios, mas o papel fundamental de apoio e amplificação que Virgina Woolf descrevia em 1929 continua a ser igualmente necessário e importante. E há quem o tenha perdido. Há quem ache que apoiar o outro, dar-lhe força, suportá-lo nas suas decisões, ou questioná-las quando apropriado, aconselhá-lo, ser o seu primeiro e principal conselheiro, há quem ache que tudo isto já não tem lugar nos modernos tempos da igualdade. Enganam-se. Todos precisamos de alguém que nos apoie, de alguém que nos corrija a trajectória quando nos estamos prestes a enganar, alguém com quem debater se temos dúvidas, alguém que nos proteja a rectaguarda e nos faça sentir maiores, nos faça sentir importantes, nos faça sentir fortes.

Virgina Woolf fala em 1929 com a acidez própria de quem vive num mundo em que as mulheres estavam estigmatizadas e relegadas a papéis de segunda linha, ao papel de apoiar os homens, por vezes sem sequer serem reconhecidas por isso.

Mas hoje o estigma não existe, não tem de existir, não pode existir. E no entanto este apoio de quem nos é mais próximo continua a ser decisivo – mas pode ser mútuo, tem de ser mútuo. Um casal é uma equipa, e uma equipa apoia-se e reforça-se mutuamente, explora as melhores capacidades de cada um de forma a que a equipa seja melhor que a soma das suas partes. Interessa-se pelo que o outro faz, apoia-o, faz tudo o que estiver ao seu alcance para que o outro seja melhor, seja o melhor, porque isso torna a equipa melhor. A versão coxa da igualdade em que algumas pessoas ainda vivem, a versão que diz “eu trato das minhas coisas, tu tratas das tuas” é algo que ainda estamos, como sociedade, a tentar ultrapassar. Uma relação a dois é uma soma, não uma divisão. Se a discriminação era uma forma de egoísmo praticado por uns poucos, a igualdade não pode ser o egoísmo praticado igualmente por todos. E há que saber ler para além das palavras para entender isto.

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