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(Para Alguns) As Coisas, Na Verdade, São Assim

bw in patterned shadesPor amar não fiquei cego, nem se estragou nada em mim. Não é portanto por ser parvo que te digo que és a mais bela mulher que conheci, e nem o afirmo para te fazer feliz ou para te impressionar.

Simplesmente creio ter aprendido por tua causa alguma coisa sobre os ideais de beleza.

Sabes que somos uma mistura complexa de instinto e de sociedade, de animal e de verniz; ao contrário de outros animais, nascemos impreparados, com o cérebro não completamente desenvolvido, talvez por sermos seres sociais e o nosso desenvolvimento se completar perante os outros, como se tivessemos uma gestação em duas partes, em que a segunda se faz fora do ventre.

E há coisas em nós que serão, provavelmente, biológicas, genéticas, embutidas: uma predilecção, dizem alguns, para a simetria dos rostos; outros falam de um rácio entre a cintura e as ancas das mulheres que, sem sabermos porquê, nos atrai mais; os seios como indicador de alguma coisa; a largura dos ombros dos homens; a forma do rosto, do queixo, do nariz; a altura. A diferença entre o outro e nós mesmos, a atracção por um ar mais exótico e invulgar, que alguns dizem ter raízes numa qualquer tendência animal para fomentar biodiversidade.

Assim, o nosso primeiro ideal é este que nasce connosco, que faz parte do ADN e da evolução e de sermos humanos, descendentes de outros humanos que fizeram estas mesmas escolhas.

Mas ao nascermos, ao crescermos, isto evolui de alguma forma. Somos confrontados com arquétipos sociais e com experiências próprias. Saturam-nos com ideias feitas, com propaganda de alguma coisa, de corpos assim e assado, de que isto é que é bom, de que isto é que é belo. E isso mistura-se com o primeiro ideal que tínhamos, e passamos a achar que o belo é algo diferente, e isto dá-se de forma distinta em cada um de nós. Alguns deixam-se afectar mais, compram mais a ideia que lhes vendem; outros menos; outros há que misturam tudo e não gostam nem do ideal animal nem do ideal social, mas de outra coisa; outros, esses, gostam de tudo. Pelo meio, há as experiências individuais: as associações de ideias, aquilo a que Freud chamaria os traumas e, por outro lado, as associações positivas – a primeira namorada, a vizinha do lado, a miúda mais bonita da escola primária toda.

Disto se forma um ideal, um arquétipo privado e interior com o qual comparamos, inconscientemente, tudo. Não condiciona, obviamente, de quem gostamos nem por quem nos apaixonamos, tantas vezes amamos quem, aparentemente, se afasta tanto do nosso ideal de mulher. Mas isso não significa que não deixemos de ter um ideal, nem que isso deixe de influenciar o nosso julgamento – toda a gente o tem, mesmo que diz que não tem – sobre se uma mulher é bonita ou feia, fodível ou passável, boazona ou nem por isso.

E este ideal evolui, muda, altera-se com o tempo. Altera-se connosco mesmos, com a idade e com a vivência, especialmente com as pessoas. Com a colega de trabalho com quem não nos queríamos enrolar (mas enrolámos) aprende-se que afinal gostamos mesmo é de mulheres mais baixas. Com a designer feia mas boa na cama descobrimos que vale menos um par de mamas do que um fogo no olhar. Cada ano, cada flirt, cada relação, cada gaija boa da padaria do Continente tem o potencial de nos fazer pensar de outra maneira, de nos abrir os olhos a algo a que nunca tínhamos ligado, de nos alterar, um bocadinho, o ideal.

E, às vezes, acontece uma outra coisa: conheces alguém e pensas “é isto”. Ou nem pensas, mas subitamente é isso, e é só nisso que te pensas quando pensas em alguém. E dás por ti, ao longo do tempo, a deixar de achar piada a quem não corresponda àquilo: não tem piada, eu gosto é de ruivas; não tem piada, demasiado magra; não tem piada, demasiado nova, que é que eu fazia com aquilo? E quando ela muda, tu também mudas: o cabelo curto, que te parecia tão má ideia, subitamente é sexy quando o vês nela. O teu ideal transforma-se; é preenchido, lentamente, por alguém, de uma forma inconsciente; já só te viras na rua quando vês passar mulheres que te parecem a tua. Não ficas cego, nem parvo, e nem sequer fazes nada para que isto seja assim; embora continues a saber ver a beleza, o teu ideal mudou. E, se tiveres sorte, senta-se ao pé de ti. E a tua mulher ideal é a tua, seja ela como for, por muito que ela não acredite que as coisas, na verdade, são assim.

2 thoughts on “(Para Alguns) As Coisas, Na Verdade, São Assim

  1. Filipa
    21/01/2016 at 17:42

    E é então que descobrimos que o lobo não só pode amar como deve amar, se tiver sorte. :)

  2. Angie
    21/01/2016 at 18:39

    Lindo :)

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